NÃO É UM JOGO

1915

Não é um Jogo

Loristan andava lentamente para lá e para cá na sala de estar dos fundos, ouvindo Marco, que estava sentado próximo do pequeno fogo e falava. ― Continue ― ele dizia, cada vez que o menino parava ― Eu quero ouvir tudo. Ele é um rapaz estranho, e este é um jogo esplendido.

Marco contava-lhe a história de sua segunda e terceira visitas ao recinto deserto atrás do cemitério. Ele começara do começo, e seu pai ouvira com grande interesse.

Um ano depois, Marco recordava esta tarde como sendo uma memória emocionante, e que jamais esqueceria. Ele sempre seria capaz de trazê-la de volta à mente. A pequena e velha sala dos fundos, a obscuridade do único bico de gás fraco, que era tudo o que podiam ter para iluminar a casa, a caixa de ferro em um canto com seus mapas e planos trancados seguramente, o jeito majestoso da figura alta, o qual as roupas velhas, gastas e remendadas não podiam esconder nem ofuscar. Nem mesmo trapos poderiam fazer Loristan parecer insignificante ou indistinto. Ele era sempre o mesmo. Seus olhos pareciam mais escuros e mais maravilhosos do que nunca na sua remota meditação e no seu interesse enquanto ele falava.

― Continue. ― ele disse ― É um jogo esplendido. E é interessante. Ele estudou tudo bem. O rapaz é soldado nato.

― Não é um jogo para ele. ― Marco disse ― E não é um jogo para mim. O Pelotão está apenas brincando, mas com ele é muito diferente. Ele sabe que nunca realmente terá o que quer, mas sente como se isso fosse algo perto. Ele disse que eu poderia mostrar para você o mapa que fez. Pai, olhe.

Ele deu a Loristan a cópia limpa do mapa de Samávia do Rato. A cidade de Melzarr estava marcada com certos sinais. Eles serviam para mostrar em quais pontos O Rato – se fosse um general samaviano – teria atacado a capital. Enquanto Marco apontava, ia explicando as razões do Rato para seu plano.

Loristan segurou o papel por alguns minutos. Ele fixou seus olhos curiosamente, e franziu suas sobrancelhas pretas. ― Isto é muito surpreendente! ― ele disse finalmente ― Ele está realmente certo. Eles poderiam ter entrado por aqui, e pelas mesmas razões que ele disse. Como ele aprendeu tudo isso?

― Ele não pensa em mais nada agora ― Marco respondeu ― Ele tem sempre pensado em guerras e feito planos para batalhas. Ele não é como os outros membros do Pelotão. Seu pai é muito bem educado, e gosta de conversar. O Rato lhe faz perguntas, e o maneja até descobrir uma boa parte. Então mendiga para conseguir jornais velhos, e se esconde em esquinas e ouve o que as pessoas estão falando. Ele disse que se deita e fica acordado à noite estudando o que ouviu, e pensa sobre isso o dia todo. É por isso que organizou o Pelotão.

Loristan continuara examinando o papel. ― Diga a ele ― ele disse, quando o redobrou e o devolveu ― que eu estudei seu mapa, e ele pode orgulhar-se dele. Você também pode dizer a ele ― e sorriu calmamente ao falar ― que na minha opinião ele está certo. Os Iarovitch teriam posse de Melzarr hoje se ele os tivesse liderado.

Marco estava cheio de exultação. ― Eu pensei que você diria que ele estava certo. Tive certeza que sim. Isto é o que me faz querer contar o resto. ― Marco prosseguiu. ― Se você acha que ele está certo sobre o resto também ― ele parou desajeitadamente porque um pensamento repentino e extravagante passou por ele ― Não sei o que você vai pensar ― ele balbuciou ― Talvez irá parecer para você como se o jogo – como se essa parte pudesse – pudesse ser apenas um jogo.

Apesar de sua hesitação, ele estava tão fervoroso que Loristan começou a assisti-lo com um respeito simpático, como sempre fazia quando o menino tentava expressar alguma coisa de que não tinha certeza. Um dos grandes laços entre eles era que Loristan era sempre interessado nos seus processos mentais de menino – no modo pelo qual seus pensamentos o guiavam a alguma conclusão.

― Continue ― ele disse de novo ― Eu sou como O Rato e sou como você. Não tem parecido com um jogo para mim, até agora. Ele se sentou na sua escrivaninha e Marco, na sua vivacidade, aproximou-se e inclinou-se sobre ela, descansando seus braços e abaixando sua voz, posto que era sempre o hábito deles falar de tal modo que ninguém no lado de fora do cômodo onde estavam poderia distinguir o que falavam.

― É o plano do Rato dar o sinal para a Ação ― ele disse.

Loristan fez um pequeno movimento. ― Ele acha que haverá uma Ação? ― perguntou.

― Ele diz que deve ser o que o Partido Secreto tem preparado todos esses anos. E deve acontecer logo. As outras nações veem que a luta deve acabar, ainda que eles mesmos tenham que dar um fim. E se o verdadeiro Rei foi achado – mas no jornal que O Rato comprou não tinha nada sobre onde ele estava. Era apenas algum tipo de rumor. Ninguém parecia saber de nada ― ele parou por alguns segundos, mas não proferiu as palavras que estavam na sua mente. Ele não disse: “Mas VOCÊ sabe.”

― E O Rato tem um plano para dar o sinal? ― Loristan disse.

Marco esqueceu seu primeiro sentimento de hesitação. Ele começou a ver o plano de novo, como vira quando O Rato falava. Começou a falar como O Rato falara, esquecendo-se de que era um jogo. Ele fez uma descrição ainda mais clara que a do Rato sobre os dois moleques nômades – sendo um deles um aleijado – indo de um lugar para outro, livres para carregar mensagens ou advertências aonde escolhessem, porque eram tão insignificantes e pareciam tão pobres que ninguém poderia pensar que eram alguma coisa, a não ser meninos abandonados vagueando, não pertencendo a ninguém e levados pelo vento da pobreza e pelo acaso. Ele sentiu como se quisesse convencer seu pai de que o plano era possível. Não sabia exatamente por que se sentia tão ansioso para receber a aprovação do esquema – como se fosse real – como se pudesse realmente ser feito. Mas esse sentimento era o que o inspirava a entrar em novos detalhes e sugerir possibilidades.

― Um menino aleijado e um cantor de rua mendigo que poderia ir quase a qualquer lugar. ― ele disse ― Soldados ouviriam um cantor se ele cantasse boas canções – e eles não teriam medo de conversar na frente dele. Um cantor errante e um aleijado talvez ouvissem muitas coisas notáveis que poderiam ser úteis para o Partido Secreto. Poderiam até mesmo ouvir coisas importantes. Você não acha que é verdade?

Antes de ele ir longe com sua história, a expressão longínqua veio à face de Loristan – a expressão que Marco conhecera tão bem em toda sua vida. Ele estava sentado um pouco para o lado do menino com seu cotovelo descansando na mesa e com a testa na mão. Olhava o tapete gasto aos seus pés, e continuou assim até ouvir o final. Era como se algum pensamento novo fosse crescendo devagar na sua mente enquanto Marco contava e aumentava o plano do Rato. Ele nem mesmo levantou os olhos, nem mudou de posição ao responder. ― Sim, acho que sim.

Mas, por causa do pensamento profundo que crescia na sua face, a coragem de Marco aumentou. Seu primeiro medo de que essa parte do plano pudesse parecer tão audaciosa e precipitada que aparentaria pertencer a um jogo de menino, gradualmente desvaneceu-se por alguma razão estranha. Seu pai dissera que a primeira parte das imaginações do Rato não lhe parecera um jogo, e agora – mesmo agora – ele não escutava como se fossem os detalhes de meras fantasias exageradas. Era como se o que ouvisse não fosse totalmente impossível. O conhecimento de Marco sobre os países Europeus e sobre métodos de viagem o ajudou a entrar em mais detalhes e a dar realismo a seus planos.

― Às vezes nós poderemos fingir que sabemos somente inglês ― ele disse ― Então, embora O Rato não consiga entender, eu entenderia. Eu sempre entenderia em cada país. Conheço as cidades e os lugares que precisaríamos ir. Sei como meninos como nós vivem, e então não faríamos nada que deixasse a polícia irritada nem nada que fizesse com que as pessoas nos notassem. Se alguém fizesse perguntas, eu os faria acreditar que conheci O Rato por acaso, e decidimos viajar juntos porque as pessoas dão mais dinheiro para um menino que canta se ele estiver com um aleijado. Havia um menino que costumava tocar violão nas ruas de Roma, e sempre estava com uma menina coxa, e todos sabiam que era por isso que estava lá. Quando ele tocava, as pessoas olhavam para a menina e sentiam pena dela, e lhe davam moedas. Você se lembra?

― Sim, eu me lembro. E o que você diz é verdade. ― Loristan respondeu.

Marco inclinou-se para frente sobre a mesa para ficar mais próximo dele. O tom em que as palavras foram ditas fez sua coragem saltar como uma chama. Ter permissão de continuar com sua ousadia era sentir que era tratado quase como se fosse um homem. Se seu pai desejasse pará-lo, poderia ter feito isso com um olhar calmo, sem proferir uma única palavra. Por alguma razão maravilhosa ele não desejou que Marco cessasse de falar. Ele estava disposto a ouvir o que Marco tinha a dizer – ele estava até mesmo interessado. ― Você está crescendo. ― ele dissera na noite que revelara o maravilhoso segredo ― Silêncio ainda é a ordem, mas você é homem o suficiente para que lhe seja dito mais.

Era ele homem o suficiente para ser considerado digno de ajudar Samávia em qualquer coisa, mesmo com fantasias de menino que poderiam conter um germe de alguma ideia a qual mentes mais velhas e mais sábias poderiam tornar útil? Estava ele sendo ouvido porque o plano, feito como parte de um jogo, não era impossível, se dois meninos de confiança pudessem ser achados? Ele deu um grande suspiro ao continuar, aproximando-se ainda mais e falando tão baixo que seu tom era quase um cochicho.

― Se os homens do Partido Secreto têm trabalhado e pensado por tanto tempo… eles prepararam tudo. Eles sabem agora exatamente o que precisa ser feito pelos mensageiros que devem dar o sinal. Podem dizer-lhes aonde ir e como reconhecer os amigos secretos que devem ser notificados. Se as ordens puderem ser escritas e dadas para… para alguém que… alguém que aprendeu a guardar as coisas na memória! ― ele começara a respirar tão rapidamente que parou por um momento.

Loristan levantou os olhos. Olhou diretamente nos olhos dele. ― Alguém que tem sido TREINADO para guardar as coisas na memória? ― ele disse.

― Alguém que tem sido treinado ― Marco continuou, tomando sua respiração de novo. ― Alguém que não se esquece – que nunca se esqueceria – nunca! Esse, mesmo que tenha somente doze anos – mesmo que tenha somente dez – poderia fazer como lhe fora dito.

Loristan pôs a mão no ombro dele. ― Camarada, ― ele disse ― você está falando como se você mesmo estivesse pronto para ir.

Os olhos de Marco olhavam corajosamente nos seus, mas ele não disse nada.

― Você sabe o que significaria, Camarada? ― seu pai continuou ― Você está certo. Não é um jogo. E você não está pensando como se fosse. Mas já pensou em como seria se alguma coisa traísse você, e você fosse posto contra uma parede para ser FUZILADO?

Marco ficou em pé retamente. Tentou pensar que sentia a parede contra suas costas. ― Se eu fosse fuzilado, seria fuzilado por Samávia. ― ele disse ― E por VOCÊ, Pai.

Enquanto ainda estava falando, a campainha da porta da frente tocou e Lázaro evidentemente abriu-a. Ele falou com alguém, e então eles ouviram seus passos se aproximando da sala dos fundos. ― Abra a porta ― disse Loristan, e Marco abriu.

― Há um menino que é aleijado aqui, senhor ― o velho soldado disse ― Ele pediu para ver o Mestre Marco.

― Se for O Rato ― disse Loristan ― traga-o aqui. Quero vê-lo.

Marco foi pela passagem para a porta da frente. O Rato estava lá, mas não estava na sua plataforma. Ele estava inclinado sobre um velho par de muletas, e Marco pensou que ele parecia anormal e estranho. Estava branco, e de algum modo as linhas de sua face pareciam torcidas de um jeito novo. Marco imaginou se alguma coisa havia o assustado, ou se ele estava doente.

― Rato, ― ele começou ― meu pai…

― Eu vim para falar sobre MEU pai. ― O Rato interrompeu sem esperar para ouvir o resto, e sua voz estava tão estranha quanto sua face pálida. ― Não sei por que vim, mas eu… eu apenas quis vir. Ele está morto!

― Seu pai? ― Marco gaguejou ― Ele está…

― Ele está morto. ― O Rato respondeu de modo trêmulo ― Eu fiquei com ele enquanto estava morrendo, e então me deu esta terrível dor de cabeça e me senti doente, e pensei em você.

Marco fez um movimento na direção dele porque viu que ele estava de repente tremendo como se fosse cair. Ele foi a tempo, e Lázaro, que estivera olhando da parte de trás da passagem, avançou. Juntos eles o sustentaram.

― Eu não vou desmaiar ― ele disse fracamente ― mas sinto como se fosse. Eu estava completamente sozinho.

― Venha ver meu pai. ― Marco disse ― Ele nos dirá o que fazer. Lázaro, ajude-o.

― Eu posso entrar sozinho. O Rato disse ― Vê minhas muletas? Eu fiz alguma coisa para um penhorista na noite passada, e ele me deu como pagamento.

Mas embora ele tentasse falar despreocupadamente, estava clara e horrivelmente balançando e exausto. Sua face pálida ainda estava branco-amarelada, e estava tremendo um pouco. Marco o conduziu até a sala dos fundos. No meio da pobreza da sala velha e embaixo da luz fraca Loristan estava de pé em uma de suas calmas, atenciosas atitudes. Ele estava esperando-os.

― Pai, este é O Rato ― o menino começou.

O Rato parou repentinamente e descansou em suas muletas, fitando a alta e calma figura com olhos arregalados.

― Este é seu pai? ― ele disse para Marco. E então adicionou, com um meio-sorriso desajeitado: ― Ele não se parece muito com o meu, parece?

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