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UMA VOZ NA NOITE

1915

À tarde naquele dia perambulavam pelo jardim dois meninos, quietos e inconspícuos, vestidos pobremente. Eles olhavam para o palácio, para os arbustos, e para os canteiros de flores, o que os visitantes habitualmente faziam, sentaram-se nos bancos e conversaram, da mesma maneira que as pessoas estão acostumadas a ver meninos conversando juntos. Era um dia ensolarado e excepcionalmente quente, e havia mais pessoas passeando e sentadas do que o normal, o que talvez fosse a razão de o porteiro que estava na entrada ter dado tão pouca importância ao par que não observou que, embora dois meninos tenham entrado, apenas um saiu. Ele, de fato, não se lembrava, quando viu O Rato passar com suas muletas na hora do fechamento dos portões, que ele entrara na companhia de um rapaz de cabelo escuro que andava sem auxílio algum. Aconteceu que, quando O Rato saiu, o porteiro à entrada estava muito interessado no aspecto do céu, que estava curiosamente ameaçador. Houvera nuvens pesadas por todo o dia que de vez em quando barravam o brilho do sol totalmente, mas o sol se recusava a retirar-se inteiramente. Nesse momento, contudo, as nuvens formaram montanhas trovejantes e apurpuradas, e o sol fora forçado a se pôr por trás delas.

― Tem sido uma espécie de batalha desde a manhã. ― o porteiro disse. ― Haverá alguns estrondos e uma tempestade hoje à noite. ― Foi isso que O Rato pensara quando eles se sentaram em um acento no Jardim da Fonte que lhes dava uma boa visão da sacada e dos grandes arbustos de sempre-verde, no meio dos quais eles sabiam que existia um espaço, embora sua circunferência enganasse.

― Se houver uma tempestade grande, a sempre-verde não vai proteger você muito, mas pode barrar o pior. ― O Rato disse. ― Gostaria que houvesse espaço para dois.

Ele desejaria que houvesse espaço para dois ainda que tivesse visto Marco marchando para ser queimado vivo. Enquanto os jardins se esvaziavam, os meninos se levantaram e andaram em volta mais uma vez, como se estivessem a caminho da saída. Quando eles passeavam na direção da grande sempre-verde, ninguém mais estava no Jardim da Fonte, e os últimos ociosos estavam se deslocando na direção da abertura de pedra arqueada, para as ruas.

Quando se aproximaram de um lado da sempre-verde, os dois estavam juntos. Quando O Rato se moveu para o outro lado, estava sozinho! Ninguém percebeu que algo havia acontecido; ninguém olhou para trás. Então O Rato desceu pelos caminhos, em volta dos canteiros de flores e passou para a rua. E o porteiro olhava para o céu e fazia sua observação sobre “estrondos” e “tempestade”.

Enquanto a escuridão chegava, o espaço no arbusto pareceu um lugar muito seguro. Não havia chance alguma de alguém entrar nos jardins fechados; e se por ventura um empregado passasse, não estaria procurando pessoas que desejavam ficar de vigília toda a noite no meio de uma sempre-verde em vez de ir para a cama e dormir. O buraco estava bem fechado pelas folhagens, e havia espaço para se sentar quando estivesse cansado de ficar em pé.

Marco ficou de pé por um longo tempo porque, assim, poderia ver plenamente as janelas que abriam para a sacada somente empurrando levemente para o lado alguns galhos novos e flexíveis. Ele conseguira descobrir em sua primeira visita aos jardins que as janelas que davam para o Jardim da Fonte eram as que pertenciam ao conjunto de quartos próprios do Príncipe. Aquelas que se abriam para a sacada iluminavam seu apartamento favorito, o qual continha seus melhores livros e pinturas e onde passava a maior parte de suas horas livres e isoladas.

Marco observava essas janelas ansiosamente. Se o Príncipe não tivesse ido para Budapeste – se realmente estivesse apenas em retiro e se escondendo entre seus tesouros de seu mundo atarefado – ele estaria em seus aposentos favoritos e as luzes mostrariam. E se houvesse luzes, ele poderia passar pelas janelas porque, estando fechado seu jardim, não precisaria temer ser visto. O crepúsculo se tornou escuridão por causa das grossas nuvens que estavam muito densas. Fracos vislumbres eram vistos na parte mais baixa do palácio, mas nada acendia nas janelas que Marco observava. Ele esperou tanto que ficou evidente que nenhuma se acenderia. Finalmente ele soltou os galhos novos e, depois de ficar em pé algum tempo pensando, sentou-se na terra, no meio de sua tenda coberta com folhagens. O Príncipe não estava em seu retiro; provavelmente não estava em Viena, e o rumor de sua viagem para Budapeste sem dúvida era verdadeiro. Tanto tempo gasto por causa de um erro – mas fora melhor correr o risco. Não ter corrido tal risco poderia ter sido uma chance perdida.

A entrada estaria fechada toda a noite e não havia como sair dos jardins até que fosse aberta no dia seguinte. Ele deveria ficar em seu esconderijo até quando as pessoas começassem a entrar e trazer seus livros e seus tricôs e se sentarem nos bancos. Então ele poderia sair andando à toa sem atrair atenção. Mas tinha a noite toda diante dele para passar da melhor forma que pudesse. Isso não seria problema. Ele podia enrolar o chapéu em baixo da cabeça e dormir no chão. Podia ordenar a si mesmo a acordar a cada meia hora para observar as luzes. Ele não dormiria até que passasse muito da meia-noite – até que se passasse tanto que não haveria nem mesmo uma chance de um para cem de qualquer coisa acontecer.

Mas as nuvens que deixaram a noite escura estavam dando baixas troadas retumbantes. De tempo em tempo um clarão ameaçador as cortava e um repentino silvo de vento passava violentamente pelas árvores do jardim. Isso aconteceu várias vezes, e então Marco começou a ouvir o ruído de pingos de chuva. Eram gotas grandes e pesadas, poucas no início, e então veio uma nova e forte rajada de vento, um dardo denteado de luz no céu, e um tremendo estrondo. Depois disso as nuvens se rasgaram e despejaram seu conteúdo em torrentes. Depois do prolongado conflito do dia tudo isso pareceu acontecer de uma só vez, como se uma horda de leões enormes fosse solta em um momento: relâmpago atrás de relâmpago, rugidos, estrondos, altos estampidos de trovão, sons agudos de vento como um furacão, e torrentes de chuva como se alguma onda da maré dos céus houvesse se formado e se lançado violentamente contra a terra. Era uma tempestade tal que as pessoas se lembram por uma vida inteira, e que em poucas vidas é vista.

Marco permaneceu quieto no meio do furor e da inundação, e do seu ofuscante rugido. Depois dos primeiros poucos minutos ele percebeu que não podia fazer nada para se proteger. Ele ouviu as torrentes impetuosas descerem pelos caminhos do jardim. Segurava seu chapéu contra os olhos porque parecia estar no meio de chamas arremessadas. Os estrondos, estampidos de canhão e trovões, e os raios denteados vieram tão perto um do outro que parecia que iria deixá-lo surdo e também cego. Ele ficou imaginando se seria capaz de ouvir a voz humana novamente quando aquilo acabasse. O fato de ele estar molhado até os ossos e com a água fluindo de suas roupas como se ele mesmo fosse uma catarata era um detalhe tão pequeno para ele que mal se atentava a isso. Ele permaneceu imóvel, abraçando a si mesmo, e esperou. Se ele fosse um soldado samaviano nas trincheiras e tal tempestade irrompesse em cima dele e de seus camaradas, eles poderiam apenas se manterem firmes e esperar. Foi nisso que ele se viu pensando quando o tumulto e o aguaceiro estavam no pior momento – que havia, entre seu povo, aqueles que estavam esperando do mesmo jeito no meio de uma chuva de balas.

Não foi muito depois que esse pensamento veio a ele que ocorreu a primeira calmaria temporária na tempestade. Sua fúria talvez chegara ao máximo e abrandava naquele momento. Um brilho amarelo rasgara os céus com seu caminho denteado, e um estrondo de rachar a terra ressoara em ruídos surdos e prolongados, que na realidade enfraqueceram antes de irromper novamente. Marco tirou o chapéu de seus olhos e deu um longo suspiro. Deu dois longos suspiros. Foi quando começava um terceiro e percebia a estranha sensação do quase silêncio à sua volta que ouviu um novo tipo de som do lado do jardim perto de seu esconderijo. Soou como o rangido de uma porta se abrindo em algum lugar na parede atrás da cerca viva de louros. Alguém estava vindo ao jardim por uma entrada privada. Ele empurrou para o lado os ramos novos mais uma vez e tentou ver, mas a escuridão era demasiado densa. Mas ainda poderia ouvir se o trovão não irrompesse novamente. Havia o som de pés no pedregulho molhado, os passos de mais de uma pessoa vindo na direção dele, mas não como se tivessem medo de serem ouvidos; era meramente como se tivessem a liberdade de entrar pela entrada que escolhessem. Marco permaneceu imóvel. Uma esperança repentina deu-lhe um choque de alegria. Se o homem com a face triste escolhesse se esconder de seus conhecidos, ele escolheria entrar e sair por uma entrada privada. Os passos se aproximaram, prensando o pedregulho molhado, passaram por ele, e pareceram parar em algum lugar perto da sacada; e então uma luz acendeu no céu novamente e o trovão irrompeu mais uma vez.

Mas esse fora o último grande estampido. A tempestade chegara ao fim. Apenas seguiram-se ribombos e murmúrios cada vez mais fracos e os clarões eram cada vez mais pálidos. Mesmo esses logo findaram, e as torrentes nos caminhos passaram e silenciaram-se. Mas a escuridão ainda era profunda.

Estava uma escuridão profunda no espaço da sempre-viva. Marco permaneceu lá, encharcado da chuva, mas sem sentir, pois estava cheio de pensamentos. Ele empurrou para o lado a folhagem e manteve seu olhar no local da escuridão onde deveriam estar as janelas, embora não pudesse vê-las. Pareceu-lhe ter esperado um longo tempo, mas sabia que isso fora na verdade impressão. Ele começou a respirar rapidamente porque estava esperando por algo.

Repentinamente ele viu exatamente onde as janelas estavam – porque estavam todas acesas! Seu sentimento de alívio foi grande, mas não durou muito. Era certo que algo fora ganho em ter a certeza de que o homem não deixara Viena. Mas e então? Não seria tão fácil segui-lo se ele escolhesse sair apenas secretamente à noite. E então? De repente ele viu a figura de um homem atravessar o cômodo, mas não pode ter certeza de quem era. Os últimos ribombos de trovão haviam desfalecido e as nuvens estavam se abrindo. Não muito depois que as escuras massas montanhosas se abriram, uma brilhante lua cheia apareceu, navegando na abertura, repentinamente enchendo tudo com luz. Partes do jardim se tornaram branco prateado, e as sombras das árvores eram como veludo preto. Uma lança prateada entrou até mesmo no espaço da sempre-viva de Marco e atingiu sua face.

Talvez fora a súbita mudança que atraíra a atenção daqueles que estavam dentro do cômodo com a sacada. A figura de um homem apareceu nas janelas longas. Marco viu então que era o Príncipe. Ele abriu as janelas e saiu para a sacada.

― Acabou. ― ele disse baixo. E ficou com a cabeça levantada, olhando para a lua que navegava, grande e branca.

Ele ficou parado e pareceu no momento ter esquecido do mundo e de si mesmo. Era uma maravilhosa, triunfante rainha lua. Mas alguma coisa o trouxe de volta à terra. Uma voz baixa, mas forte e clara, voz de menino, surgiu do caminho do jardim abaixo.

― A Lâmpada está acesa. A Lâmpada está acesa. ― a voz disse. As palavras pareceram chamá-lo, prendê-lo, puxá-lo.

Ele permaneceu parado por alguns segundos em um silêncio morto. Então se dobrou sobre a balaustrada. O luar desfizera a escuridão abaixo.

― Essa é uma voz de menino, ― ele disse em voz baixa ― mas não consigo ver quem está falando.

― Sim, é uma voz de menino. ― a voz respondeu, de uma forma que de algum modo o comoveu, por ser muito ardente. ― É o filho de Stefan Loristan. A Lâmpada está acesa.

― Espere. Estou indo até você. ― o Príncipe disse.

Em poucos minutos Marco ouviu a porta se abrir gentilmente, não longe de onde ele estava. Então o homem que ele estivera seguindo há tantos dias apareceu ao seu lado.

― Por quanto tempo você ficou aqui? ― ele perguntou.

― Desde que os portões fecharam. Eu me escondi no espaço que tinha naquele arbusto grande ali, Alteza. ― Marco respondeu.

― Então você estava no meio da tempestade?

― Sim, Alteza.

O Príncipe colocou sua mão nos ombros do menino. ― Eu não consigo ver você muito bem, mas é melhor ficarmos na sombra. Você está completamente molhado.

― Eu consegui dar a vossa Alteza – o Sinal ― Marco sussurrou. ― Uma tempestade não é nada.

Então houve silêncio por algum tempo. Marco sabia que seu companheiro estava em silêncio para repensar algo na sua mente.

― Entãããooo… ― ele disse devagar finalmente. ― A Lâmpada está acesa e VOCÊ é o enviado para levar o Sinal. ― Algo na sua voz fez Marco sentir que estava sorrindo.

― Que raça vocês são! Que raça – vocês Loristans Samavianos! ― Ele pausou novamente como se estivesse repensando tudo outra vez. ― Quero ver seu rosto ― ele disse. ― Vamos pisar aqui do lado e ficar debaixo desse feixe de luar que está passando entre os ramos desta árvore.

Marco fez como foi ordenado. O feixe de luar caiu sobre o seu rosto levantado e revelou sua força jovem e seu semblante moreno que, na verdade, neste momento estava bastante esplêndido com um brilho triunfante de alegria por causa dos obstáculos que superou. As gotas de chuva penduravam-se no seu cabelo, mas ele não aparentava desanimado, só muito molhado e pitoresco. Ele tinha alcançado este homem. Tinha dado o Sinal.

O Príncipe o examinou com bastante curiosidade e interesse. ― Sim ― o Príncipe disse na sua voz calma e até atraente. ― Você é o filho de Stefan Loristan e também deve ser bem cuidado. Venha comigo. Tenho treinado as pessoas de minha casa a permanecer nos seus próprios aposentos até que eu exija seu serviço. Anexei ao meu próprio quarto um outro quartinho bom e seguro onde às vezes convidados passam a noite. Você pode secar suas roupas e dormir lá. Quando os jardins abrirem novamente o resto será fácil.

Mas embora tenha saído de debaixo das árvores e começado a andar em direção ao palácio na sombra, Marco notou que andava hesitantemente como se não tivesse decidido totalmente o que deveria fazer. Parou repentinamente e virou outra vez para Marco, que o estava seguindo.

― Tem alguém no quarto que acabei de sair ― ele disse. ― Um homem idoso… que talvez tenha interesse em vê-lo. Também talvez seja uma coisa boa para ele ter interesse em você. Quero que ele o veja… do jeito que está.

― Estou sob seu comando, Alteza ― Marco respondeu. Ele sabia que seu companheiro estava sorrindo outra vez.

― Você esteve em treinamento por mais séculos do que sabe ― ele disse. ― E seu pai o preparou para encontrar-se com o inesperado sem surpresa.

Eles passaram por baixo da sacada e pararam numa entrada de pedra baixa e escondida atrás de arbustos. Quando a porta abriu, Marco viu que era uma porta muito bela, como também o corredor para o qual a porta se abria, embora tivesse um ar de tranquilidade e indiferença que dava o sentimento de não tanto um lugar secreto mas um lugar privado. Escadas perfeitas porém estreitas subiam para o próximo andar e, depois de subi-las, o Príncipe o guiou por um pequeno corredor e parou na última porta. ― Entraremos aqui ― ele disse.

Era um quarto maravilhoso e era o quarto que tinha acesso para a sacada. Cada móvel dentro do quarto, como também todos os lustres, tapeçarias, e quadros nas paredes eram como os que se via enfeitando um museu. Marco lembrou da fama que esse Príncipe que estava o guiando tinha em colecionar maravilhas e decorar sua casa com coisas que outros exibiriam somente como maravilhas de arte e artesanato. O lugar era rico e alegre com belezas perfeitamente selecionadas.

Numa cadeira imensa no centro sentava uma pessoa com sua cabeça para baixo. Era um homem idoso e alto com cabelo branco e um bigode. Os seus cotovelos descansavam sobre o braço da sua cadeira e sua testa estava descansando nas suas mãos como se estivesse cansado.

O companheiro de Marco atravessou o quarto, ficou de pé ao lado dele e conversou com ele em voz baixa. Marco não conseguiu ouvir a princípio o que estava dizendo. Ele só ficou quieto, esperando. O homem de cabelo branco levantou sua cabeça e escutou. Pareceu como se de repente ele ficasse singularmente interessado. A voz baixa foi aumentada um pouquinho finalmente e Marco conseguiu ouvir as últimas duas orações: ― O único filho de Stefan Loristan. Olhe para ele!

O homem idoso na cadeira virou-se lentamente e olhou com um olhar fixo de curiosidade duvidosa com um tom de surpresa séria. Ele tinha olhos azuis claros.

Então Marco, ainda alto e silencioso, esperou mais uma vez. O Príncipe meramente tinha dito a ele, “um homem idoso que talvez teria interesse em vê-lo”. Marco tinha claramente planejado que, o que quer que acontecesse, ele não deveria fazer nenhum sinal aparente de ver mais do que havia sido dito que veria: um homem idoso. Não era para ele mostrar admiração nem reconhecimento. Ele fora trazido não para ver mas para ser visto. O controle que tinha de permanecer quieto e calmo enquanto estava sendo examinado minuciosamente, o que O Rato frequentemente desejava ter, o serviu muito bem neste momento porque tinha visto esta cabeça branca e essa figura alta não muitos dias antes, com plumas brilhantes da cor verde-esmeralda penduradas com decorações de joias numa carruagem real escoltada por bandeiras, elmos e soldados marchando em tempo com os estouros da música militar enquanto a multidão tiravam seus chapéus e aplaudia.

― Ele é como seu pai ― essa pessoa disse ao Príncipe. ― Mas se qualquer outro a não ser Loristan o tivesse enviado… seu comportamento me agrada ― E então disse repentinamente a Marco ― Estava esperando lá fora durante a tempestade?

― Sim, senhor ― Marco respondeu.

Os dois trocaram mais algumas palavras ainda na voz baixa. ― Você leu as notícias enquanto viajava? ― perguntou a Marco. ― Você sabe como Samávia está?

― Não está bem ― disse Marco. ― Os Iarovitch e Maranovitch têm lutado entre si como hienas lutam, até que um tenha rasgado o outro em pedaços, e nenhum dos dois tem sangue nem força para continuar.

O dois olharam um para o outro.

― Uma boa comparação ― disse a pessoa mais idosa. ― Você tem razão. Se um partido forte emergisse – e uma força maior não interferisse – o país talvez veja melhores dias. ― Ele olhou para Marco por mais alguns momentos e então acenou sua mão cordialmente. ― Você é um bom Samaviano ― disse. ― Estou feliz por isso. Pode ir. Boa noite.

Marco fez reverência respeitosamente e o homem com a face cansada o guiou para fora do quarto.

Foi quando ele o deixou naquele quartinho quieto onde era para Marco dormir que o Príncipe deu-lhe um último relance curioso. ― Estou lembrado agora ― disse. ― Lá no quarto quando respondeu a pergunta sobre como a Samávia estava, eu tinha certeza de que tinha visto você antes. Foi naquele dia da celebração. Houve uma brecha na multidão e vi um rapaz olhando para mim. Era você.

― Sim ― disse Marco. ― Eu tenho seguido você cada vez que você saiu desde aquele dia, mas nunca conseguia me aproximar o suficiente para falar. Esta noite parecia ser uma única chance em mil.

― Você está fazendo o seu trabalho mais como um homem do que um menino ― foi o que disse pensativamente. ― Nenhum homem poderia ter se comportado melhor do que você fez agorinha quando discrição e postura eram necessários. ― E depois de uma pausa, disse: ― Ele estava muito interessado e bastante satisfeito. Boa noite.

Quando os jardins foram abertos na manhã seguinte e as pessoas estavam entrando e saindo de novo, Marco saiu também. Ele foi obrigado a dizer a si mesmo duas ou três vezes que não tinha acordado de algum sonho maravilhoso. Ele apressou os passos depois que atravessou a rua porque estava querendo chegar na casa onde estavam e conversar com O Rato. Havia uma rua pequena e estreita que precisaria pegar se quisesse cortar o caminho. Ao virar nessa rua, viu uma figura curiosa encostada na parede inclinando-se nas suas muletas. Ele pensou que talvez fosse um mendigo, pois estava molhado e abandonado. Mas não era. Era O Rato, que de repente, quando viu que ele estava se aproximando deu um pulo para a frente. Sua face estava pálida e fatigada e ele parecia cansado e aterrorizado. Ele arrancou o seu chapéu da cabeça e disse numa voz que estava rouca como a de um corvo.

― Deus seja louvado! ― ele disse. ― Deus seja louvado! ― como as pessoas sempre diziam quando recebiam o Sinal e estavam sós. Mas tinha uma certa angústia no seu tom de voz, como também alívio.

― Ajudante-de-campo! ― Marco exclamou (O Rato tinha implorado a ele para chamá-lo assim). ― O que você fez? Por quanto tempo você ficou aqui?

― Desde quando eu deixei você ontem à noite ― disse O Rato agarrando tremulamente os braços de Marco para ver se ele realmente era real. ― Se não tem lugar para dois no espaço vazio entre as árvores, tem espaço para mais um na rua. Será que era certo simplesmente abandonar meu serviço e deixar você sozinho? Será?!

― Então você estava fora no meio da tempestade?

― Você também não ficou? ― perguntou O Rato ardentemente. ― Eu me aconcheguei na parede o melhor que pude. O que me importa? Muletas não previnem um companheiro de esperar. Eu não teria deixado você mesmo se me desse ordens. E isso teria sido motim. Quando você não saiu assim que os portões abriram, senti como se minha cabeça tivesse pego fogo. Como que eu poderia saber o que tinha acontecido? Eu não tenho a ousadia e a estabilidade que você tem. Eu fico louco.

Por alguns segundos Marco não respondeu. Mas quando pôs sua mão na manga úmida, O Rato até se assustou um pouco porque pareceu como se estivesse olhando nos próprios olhos de Stefan Loristan.

― Você parece com seu pai! ― ele exclamou. ― Como está alto!

― Quando você está perto de mim ― Marco disse na própria voz de Loristan, ― quando você está perto de mim, eu me sinto… me sinto como se eu fosse um príncipe real atendido por um exército. Você É o meu exército. ― E tirou seu chapéu como um menino faria e adicionou ― Deus seja louvado!

O sol estava entrando calorosamente na janela do sótão quando chegaram no quarto deles e os dois apoiaram-se no peitoril áspero da janela e Marco contou sua história. Demorou algum tempo para relatar e quando terminou tirou um envelope do seu bolso e mostrou para O Rato. Dentro do envelope tinha um pequeno embrulho plano com dinheiro.

― Ele me deu isso assim que abriu a porta privada ― Marco explicou. ― E disse para mim: “Não vai demorar muito mais. Depois de Samávia, volte para Londres o mais rápido que puder – O MAIS RÁPIDO QUE PUDER!”

― O que será que ele quis dizer? ― O Rato disse lentamente. Um pensamento tremendo passou rapidamente pela sua mente. Mas não era um pensamento que podia falar para Marco.

― Também não entendi. Tive a impressão que era por alguma razão que ele não esperava que eu soubesse ― Marco disse. ― Faremos como ele nos ordenou. O mais rápido que pudermos.

Eles olharam os jornais como faziam todos os dias. Tudo que poderia ser captado dos jornais eram sobre como os dois exércitos opostos de Samávia pareciam ter alcançado o auge de desastre e esgotamento. Era impossível dizer qual partido tinha a força sobrando para dar qualquer passo final que poderia ser considerado uma vitória. Nunca tinha um país estado em uma situação mais desesperadora.

― É a hora! ― disse O Rato, olhando fixamente para o seu mapa. ― Se o Partido Secreto se levantasse rapidamente agora, poderia conquistar Melzarr quase sem nenhum golpe. Poderia tomar o país inteiro e desarmar ambos os exércitos. Eles estão fracos – estão morrendo de fome – estão sangrando… eles QUEREM ser desarmados. Só os Iarovitch e os Maranovitch continuam com a luta porque os dois estão lutando para ter o poder de cobrar impostos das pessoas e fazer escravos deles. Se o Partido Secreto não se mostrar, as pessoas vão, e correrão pelos palácios e matarão cada Maranovitch e Iarovitch que encontrarem. E isso é o que merecem!

― Vamos gastar o resto do dia estudando o mapa das ruas de novo ― disse Marco. ― Hoje à noite devemos estar a caminho para Samávia!

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