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EXPLORE: O PRÍNCIPE PERDIDO COMO UMA ALEGORIA

1915

Pense em todas as boas histórias que já ouviu. Pense nas histórias que o inspiram, aqueles que fazem você querer viver uma vida nobre, repleto de propósito e de sacrifício e amor. Elas podem vir de qualquer forma: livros, filmes, poesias ou contos compartilhados entre amigos sentados comendo um churrasco, desde que fazem você querer ser uma pessoa melhor e viver uma vida melhor. É provável que todas estas histórias tenham algo em comum: elas são, de algum modo, muito semelhantes aos das Boas Novas de Jesus. Temas de auto sacrifício heroico, amor invencível e fé vitoriosa permeiam toda literatura verdadeiramente boa em qualquer cultura. Afinal, todos os seres humanos foram criados para conhecer a Deus. Nada mais pode tocar nossos corações e satisfazer as nossas almas, como conhecê-Lo. Talvez por isso as histórias que se assemelham ao incrível plano de Deus para resgatar a raça humana nos enchem com fervor e as histórias que de alguma forma recontam a vida de Jesus são as mais satisfatórias de todas. Na verdade, devemos até dizer que é a Lei da Boa Literatura: o mais que uma história se assemelha às Boas Novas, o mais gratificante a história tende a ser.

Normalmente, é claro, esta imitação do Evangelho será de forma não intencional. O escritor ou escritora talvez só reconhece uma boa história quando ele ouve ou imagina uma. E, embora alguns autores podem ter um prazer perverso em chocar ou deprimir seus leitores, muitos genuinamente tentam escrever palavras edificantes que vão tocar o coração. Ao escolher um bom tema e habilmente tecer uma história em torno dela, o escritor(a) está inconscientemente recontando o Evangelho.

Talvez essa seja a explicação da forma surpreendente como O Príncipe Perdido parece incorporar algumas verdades bíblicas profundas. Infelizmente, não há razão para crer que a autora do livro, Frances Hodgson Burnett, era cristã. As suas crenças religiosas e seu modo de vida, ambos, testemunham ao contrário. Ela viveu em uma época (1849-1924) quando a maioria das pessoas na Inglaterra e na América tinham contato com a Bíblia. Alguns dos seus temas provavelmente penetraram sua imaginação mesmo se ela nunca escolheu para colocá-las em prática em sua própria vida. Em sumo, ela foi uma escritora de sucesso que conseguiu superar uma infância pobre por meio de criar literatura infantil saudável. Se ajuntarmos uma pessoa com uma boa imaginação e com um talento de linguagem, depois misturar isso com um desejo de escrever boa literatura e, talvez, uma decisão soberana de Deus de usar um livro para seus propósitos sem o conhecimento do autor e do resultado final, de vez em quando sai uma história como O Príncipe Perdido.

Vamos considerar, então, como ler O Príncipe Perdido como uma alegoria de verdades espirituais. Uma alegoria é uma história com um significado literal, na superfície, mas que também contém um significado mais profundo, figurativo. Em uma alegoria as personagens, os lugares e objetos podem representar outras coisas.

Um exemplo bem conhecido de alegoria é O Peregrino. Na superfície este livro conta a história das aventuras de um homem ao ele viajar da Cidade da Destruição para a Cidade Celestial. Num nível mais profundo, no entanto, serve para descrever o “progresso” de um cristão ao ele superar tribulações, tentações e perseguições em sua jornada da terra ao céu. O Peregrino não é uma alegoria de difícil interpretação. Muitas das personagens, tais como Cristão, Sábio-Segundo-o-Mundo e Flexível têm nomes que dizem exatamente que tipo de pessoa elas representam. Até lugares representam algo: Feira das Vaidades é o mundo, por exemplo, enquanto a Bela Casa é a igreja local.

Algumas alegorias são um pouco menos óbvias, mas o segundo nível de significado é perceptível para qualquer um que se importa o suficiente para procurar. As Crônicas de Nárnia é um bom exemplo. Tem um enredo emocionante com personagens interessantes mas muitas pessoas provavelmente não olham além disso. Se você tiver olhos para ver, no entanto, não demora muito para perceber que o leão Aslam representa Jesus e o Imperador de Além-Mar é o Pai. A feiticeira é o diabo e o manjar Turco, que tem um excelente paladar, mas leva a uma escravidão terrível, é pecado. O livro inteiro é uma alegoria que se destina a ensinar verdades espirituais.

Podemos tomar a mesma abordagem para entender O Príncipe Perdido. É bom ter em mente que a autora provavelmente nunca teve a intenção do seu livro ser lido como uma alegoria. Ela queria comunicar princípios verdadeiros sem dúvida, mas ela não intencionalmente fez as personagens e lugares representarem realidades espirituais específicas. Mas por causa da Lei da Boa Literatura, é justo podermos usar o livro como uma maneira de pensar sobre o Evangelho de Jesus. Vamos levar alguns minutos para fazer exatamente isso!

Loristan. A figura central em O Príncipe Perdido é o Stefan Loristan. Ele é um homem alto com um “ar de majestoso”, cujos movimentos são “cheios de dignidade e graça.” O Rato observa o seguinte sobre Loristan:

Havia algo nele que fazia com que você queria continuar olhando para ele e queria saber o que ele estava pensando, e porque você sentia como se aceitaria ordens dele como receberia ordens do seu general se fosse um soldado. Ele parecia, de alguma forma, como um soldado, mas como se fosse algo mais, como se as pessoas tivessem recebido ordens dele toda a sua vida e sempre iriam receber ordens dele. E ao mesmo tempo ele tinha aquela voz calma e os movimentos finos e confortantes, mas ele não era um soldado e sim apenas um homem pobre…

Embora as roupas do Loristan podem ser “bem usadas e esfarrapadas”, a “sua pobreza não tinha poder para tocá-lo”. Nem “trapos velhos” podem o fazer “parecer insignificante ou indistinto”. O seu “absoluto ar de autoridade serena” é baseado em seu caráter nobre e não em algum show exterior.

Apesar de sua presença marcante, Loristan é acessível e simpático. Ele tem um “maravilhoso sorriso” e olhos “suaves, escuros”. Ele se mistura com a mesma facilidade com pessoas de rua do que com príncipes. As crianças são atraídas para Loristan porque ele tem “o poder de fazer todas as coisas interessantes ao ponto de fascínio”. Quando ele conversa com os meninos pobres do Pelotão, eles se maravilham “que conseguiam entendê-lo e ele incendiava seu espírito”.

Loristan nunca se esquece de quem ele é. Nas palavras do livro, ele é “sempre o mesmo”, mas ele ainda é capaz de grande sentimento e paixão, especialmente quando ele pensa sobre as dificuldades enfrentadas por seu povo amado. Certa vez, Marco acha Loristan “andando de um lado para o outro como um leão na sua jaula e um papel estava esmagado e rasgado em suas mãos e seus olhos estavam cheios de fogo.” Por quê? Porque ele “estava lendo sobre as crueldades impostas sobre pessoas pobres, mulheres e crianças inocentes.” Mais do que tudo, Loristan é definido por seu profundo compromisso com o bem de seu país. Ele diz ao Marco: “Nós somos aqueles que devem VIVER para Samávia – trabalhando dia e noite, negando a nós mesmos, treinando nossos corpos e almas, usando nossas mentes, aprendendo as melhores coisas que precisam ser feitas por nosso povo e o nosso país.”

Se lermos O Príncipe Perdido como uma alegoria, quem poderia Stefan Loristan representar? Jesus! Embora Ele sendo um grande Príncipe, Jesus pôs de lado todas as formas exteriores de poder e assumiu a forma de servo (Filipenses 2:6-7). Ele era rico, mas se fez pobre para que pudesse ajudar os outros (2 Coríntios 8:9). Jesus não tinha pompa exterior de poder para atrair as pessoas para Ele (Isaías 53:2), mas elas foram atraídas mesmo assim. As pessoas comuns O ouviam com prazer (Marcos 12:37). Ele não tratou elas como sendo inferiores, mas elas O entenderam. Elas viram que Jesus era um homem de grande compaixão para pessoas “aflitas e desamparadas” (Mateus 9:36). As pessoas com olhos para ver olharam além dos pés empoeirados e as mãos calejadas de um simples carpinteiro de Nazaré e viram alguém com autoridade. Elas queriam continuar olhando para Jesus. Elas queriam saber o que Ele estava pensando. E elas se sentiram como se iriam aceitar ordens dEle como se Ele fosse seu general. E Ele é o mesmo hoje! “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hebreus 13:8).

Consciente ou inconscientemente, a autora de O Príncipe Perdido deve ter modelado a personagem de Stefan Loristan em Jesus. Os paralelos são simplesmente muito grandes para ser uma coincidência. Loristan é uma cópia; Jesus é o original.

Samávia. A paixão de Loristan é para sua pátria natal da Samávia. Há um certo tempo, centenas de anos antes, era quase um paraíso:

Tinha sido celebrado tanto por sua felicidade pacífica e riqueza como pela sua beleza. Seu povo naqueles dias eram pastores e cuidadores de rebanhos cuja riqueza das plantações e seus rebanhos e manadas esplêndidas eram a inveja de países menos férteis. Entre os pastores e cuidadores de rebanhos haviam poetas que cantavam suas próprias canções quando tocavam suas flautas entre as suas ovelhas sobre as encostas das montanhas e nos vales com tapetes de flores. Suas canções foram sobre patriotismo e bravura e sobre fidelidade aos seus líderes e seu país. A cortesia simples do camponês mais pobre era tão majestoso quanto os modos de um nobre.

A história da Samávia tomou um rumo trágico, no entanto, quando uma insurreição derrubou um rei fraco, dando início a séculos de maus governantes e guerras civis.

“Daquele ponto em diante, aquele pequeno reinado esplendido se tornou como um osso que os cachorros brigam para ter. A paz que tinha foi esquecida. Aquele país foi rasgado, atormentado e abalado pelos outros países mais fortes. Rasgou e atormentou a si mesmo com as brigas internas. Assassinava os reis e criava outros. Nenhum homem jovem poderia saber quem iria servir quando ficasse mais velho, ou se suas crianças iriam morrer em uma batalha fútil, ou se eles iam passar por tempos desagradáveis de pobreza, crueldade e leis inúteis.”

A situação continua a degenerar e Marco e Loristan, vivendo em exílio na Inglaterra, estão angustiados com a notícia da brutal opressão estrangeira e as sangrentas guerras civis que arruínam sua terra natal. É por isso que eles se comprometem a “trabalhar para Samávia dia e noite.”

O paralelo não é exato, é claro, mas a paixão de Loristan para Samávia é, pelo menos, um reflexo ofuscante da paixão que Deus sempre teve por Seu povo, seja Israel sob a Velha Aliança ou a igreja sobre a Nova. Deus alegrou-se sobre Israel “como o noivo se regozija por sua noiva” (Isaías 62:5). Jesus ama a igreja e “se entregou por ela para torná-la santa, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou qualquer outro defeito, mas santa e inculpável” (Efésios 5:25-27). Mas Deus também se entristece mais profundamente do que jamais poderia imaginar quando Seu povo rebela (Isaías 63:10) ou vivem em amargura, raiva e calúnia (Efésios 4:30). Ao longo da história de Israel, Deus sempre desejou livrá-los da opressão e da escravidão, e Ele fazia isso com grande poder sempre que eles se voltavam para Ele em arrependimento e fé.

O mesmo é verdade hoje: se o Seu povo rejeitar frieza espiritual, falso ensino, imoralidade e indiferença, Jesus promete enchê-los com força espiritual e amor íntimo (Apocalipse 2-3).

Samávia, então, pode representar a igreja em qualquer momento e em qualquer lugar em que ela está devastada pelo pecado, infiltrada por mundanismo, ou empobrecida espiritualmente através de ensinos ímpios. Jesus se entristece e chora, mas quando Ele achar aqueles que irão “VIVER para o Reino de Deus – trabalhando dia e noite, negando a si mesmo, treinando seu corpo e alma, usando sua mente, aprendendo as melhores coisas que precisam ser feitas para o povo de Deus,” Ele irá usá-los para fazer a diferença. É claro que Jesus NÃO está procurando por pessoas que se acham importantes ou ambiciosas, que se veem como heróis “montado em um cavalo branco” e “fazendo grandes coisas”. Ele quer pessoas cheias de amor, que, assim como aqueles da casa de Loristan, vão humilde e despretensiosamente oferecer suas vidas diárias em serviço a Ele e ao Seu povo. Você será um dos servos de Jesus, cheio de amor, que Ele está procurando?

O Partido Secreto. A terra atormentada de Samávia não é a única figura da igreja em O Príncipe Perdido. Longe disso! A verdade é que uma condição de pobreza espiritual, escravidão e opressão não é a condição normal da igreja. De acordo com Jesus, a igreja que Ele vai construir vai ser uma força poderosa no reino espiritual, e, na verdade, “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). A igreja é para ser uma demonstração do poder de Deus. Como Paulo disse: “Àquele que é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, de acordo com o Seu poder que atua em nós, a Ele seja a glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre!” (Efésios 3:20).

No livro O Príncipe Perdido, este aspecto da igreja pode ser visto em um grupo conhecido como o “Partido Secreto”. Não se deixaram ser conquistados e intimidados pelos inimigos da Samávia. Apesar de suas terríveis circunstâncias, eles nunca perderam a sua visão do que Samávia pode e deve ser. Eles estão determinados que ela vai alcançar a sua vocação e estão dispostos a fazer qualquer sacrifício necessário para trazê-la de volta a seus dias de glória. O Rato ouviu de seu pai que:

Ele disse que era o Partido Secreto mais maravilhoso do mundo porque tem trabalhado e esperado por tanto tempo e nunca desistiu, embora não exista nenhuma razão para ter esperança… Existem pessoas em quase todos os países da Europa que pertencem a ele em pleno silencio e estão prontos para ajudar quando forem chamados. Estão somente esperando. Algumas são ricas que irão dar dinheiro, e outros são pobres que vão ir de fronteira para fronteira para lutar ou ajudar contrabandear armas.

Essa atitude de paciência, esperança, sacrifício e trabalho árduo é a condição normal da igreja. Não deve ser a propriedade de só um “partido secreto” de cristãos, mas deve ser a atitude do coração de cada filho de Deus!

Os Forjadores da Espada. Um grupo especial de samavianos em O Príncipe Perdido é conhecido como os Forjadores da Espada. Eles vêm se preparando há séculos para o dia que Samávia iria se levantar e restaurar seu regente legítimo. Aprendemos que “eles, seus pais, seus avôs, e seus bisavôs têm sempre feito espadas e as guardado em cavernas que ninguém conhece escondidas de baixo do chão”, em preparação para esse dia. Lemos:

Reis vieram e se foram, morreram ou foram assassinados, e as dinastias mudavam, mas os Forjadores da Espada não mudaram nem esqueceram seu juramento nem vacilaram em sua crença de que algum dia – algum dia, mesmo após os longos anos escuros – seu Príncipe Perdido estaria entre eles novamente, e de que eles se submeteriam ansiosamente a seu governo legítimo.

Uma atitude muito similar caracteriza algumas pessoas muito especiais que estão registrados nas Escrituras. Quando José e Maria vieram apresentar Jesus no templo, eles encontraram um homem chamado Simeão que era “justo e piedoso”. Lucas nos diz que Simeão “estava esperando a consolação de Israel”.

Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, ele foi ao templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para lhe fazerem o que requeria o costume da lei, Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo: “Ó Soberano Senhor, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo. Pois os meus olhos já viram a tua salvação, que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo.” (Lucas 2:25-32)

A atitude de Simeão tinha muito em comum com os Forjadores da Espada. E isso deve ser a mentalidade de todos os que verdadeiramente nasceram de novo: ter uma esperança paciente, uma fé inabalável, um fervoroso desejo de ver Jesus honrado nos lugares mais distantes como Senhor, e uma disponibilidade ávida para “submeter a Seu governo legítimo.” Paulo falou sobre “a coroa da justiça que o Senhor, justo juiz, me dará… a todos os que amam a sua vinda” (2 Timóteo 4:8). João acrescentou: “Sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, pois O veremos como Ele é. “Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como Ele é puro” (1 João 3:2-3). O foco de todos os crentes é de ansiar ver Jesus e purificar-se em preparação para Sua vinda.

O Rato. Chegamos agora a três personagens de nossa história que cada um pode simbolizar um aspecto diferente do que significa ser discípulo de Jesus. Existe apenas um tipo de cristão, na verdade, embora existam muitos diferentes dons e funções na igreja. Todo crente, se ele ou ela realmente crê e assim nasceu de novo, sinceramente deseja amar Deus com todo seu coração, alma, mente e força. Mas assim como há um crescimento físico que vem após o primeiro nascimento, há também um crescimento espiritual que vem após o segundo nascimento. O apóstolo João descreve o processo de crescimento assim:

Escrevo para vocês, filhinhos, porque vocês conhecem o Pai. Escrevo a vocês, pais, porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Escrevo para vocês, jovens, porque vocês são fortes, e em vocês a palavra de Deus permanece e vocês venceram o maligno. (1 João 2:13-14)

Isso é uma ordem interessante, não acha? Primeiro vêm as crianças, depois os pais, e em seguida os jovens. Mas se você olhar para o que João diz sobre o “estágio” de maturidade de cada um, você pode entender porque ele escolheu essa ordem. E uma personagem em O Príncipe Perdido exemplifica a fase de maturidade de uma “criança” mais do que qualquer outro: “Jem” Ratcliff, mais conhecido como O Rato.

Quando Marco encontra com ele pela primeira vez, O Rato é um produto endurecido de uma vida com uma família desestruturada. Ele é deficiente físico por fora, mas emocionalmente e espiritualmente deficiente por dentro. É nos dito que: “Uma das primeiras coisas que Marco notou era que naquele pequeno rosto havia linhas marcadas como se estivesse irado toda sua vida.” Tão logo ele percebe Marco observá-lo, O Rato reage por gritar com raiva e atira uma pedra que acerta o ombro do Marco. Sua hostilidade está profundamente enraizada em seu caráter. Ele apelidou-se de O Rato. “Eu me sinto como um”, ele explica para Marco. “Todo mundo é meu inimigo. Sou uma peste. Não posso me defender a não ser por morder. Mas, consigo morder… Mordi meu pai uma vez e ele nunca mais me incomodou.”

O Rato é um exemplo claro de vidas não salvas, não resgatadas, como cada pessoa no nosso planeta já foi e a maioria ainda são. Paulo descreve esse tipo de vida miserável e decaída: “Houve tempo em que nós também éramos insensatos e desobedientes, vivíamos enganados e escravizados por toda espécie de paixões e prazeres. Vivíamos na maldade e na inveja, sendo detestáveis e odiando uns aos outros” (Tito 3:3). Mas O Rato também exemplifica maravilhosamente a transformação que ocorre na vida de uma pessoa quando ele ou ela é salva. Como Paulo prossegue dizendo,

Mas quando, da parte de Deus, nosso Salvador, se manifestaram a bondade e o amor pelos homens, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à Sua misericórdia, Ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que Ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador. Ele o fez a fim de que, justificados por Sua graça, nos tornemos seus herdeiros tendo a esperança da vida eterna. (Tito 3:4-7)

Quando ele fica conhecendo Loristan, O Rato experiência uma transformação tão radical como essa. Todo o seu mundo vira de cabeça para baixo. É nos dito que: “Ele queria ver Marco de novo, mas queria mais ver o homem alto com os olhos escuros e gentis e aquela aparência nobre.” Quando Loristan lhe mostra um simples gesto de bondade, isso “tira dos ombros do Rato um peso que ele mesmo nunca soubera que estava lá.”

“De algum modo ele sentiu como se alguma coisa nova tivesse acontecido a ele, como se ele não fosse um simples “verme”, afinal de contas, como se não precisasse ficar na defensiva – até mesmo como se não precisasse temer muito na escuridão, e como uma coisa para a qual não havia lugar no mundo. O mero olhar direto e perspicaz dos olhos desse homem parecia abrir espaço em qualquer lugar para onde ele olhasse.”

Após o funeral breve de seu pai, O Rato pensa que Loristan irá recusá-lo. Ele não quer se separar deste homem. “Nos olhos do Rato estava um tipo de adoração arrebatada. Ele não sabia o que iria fazer quando esse homem virasse e andasse para longe dele. Seria como se o próprio sol houvesse caído do céu.” Para o imenso alívio do Rato, Loristan oferece para ele “um lugar” com ele. Nesse momento O Rato supõe que “significava um pedacinho de espaço no mundo onde poderia ter um certo direito de ficar, mesmo que fosse pobre e sem nada. O que perceberia depois era que Loristan quis dizer muito mais, muito mais do que só isso. O futuro inteiro do Rato foi transformado pelas palavras simples do Loristan: “Venha comigo. Não o deixaremos.”

Pela primeira vez em sua vida, O Rato era amado e aprendeu a amar também. Até então, Samávia era apenas um jogo emocionante para ele, uma breve fuga da realidade dolorosa de sua vida. Agora, porque Loristan tornou sua paixão, Samávia tornou uma paixão também. Nos próximos dias O Rato iria experimentar fraternidade, utilidade, e propósito. Ele era um novo menino.

É exatamente assim quando encontramos com Jesus de verdade. O Rato é um exemplo excelente do que significa renascer, de se tornar um “filhinho”.

Lázaro. Depois de viver como uma “criança” na casa de Deus, o próximo estágio de crescimento é se tornar um “pai” nessa casa. João não estava se referindo a pais literalmente falando, mas estava incluindo homens e mulheres, jovens e velhos, casados e solteiros em suas “categorias” de crescimento. Ele estava descrevendo um Cristão que tinha começado a tomar a responsabilidade de cuidar de outros, como um pai faz. Paulo disse que ele tinha sido como um pai para os cristãos de Tessalônica, “exortando, consolando e dando testemunho para que vocês vivam de maneira digna de Deus” (1 Tessalonicenses 2:11-12). Ser um “pai” na igreja não é uma posição. E certamente não é um título religioso (Mateus 23:9)! É dar a sua vida pelos outros. É isso que pais fazem. E é isso que Lázaro faz.

Lázaro é um velho soldado samaviano que agora vive para servir Loristan e Marco. Ele é incansável em seu serviço e diligente na sua atenção aos detalhes. Ele cuida deles com abnegada devoção, atendendo a suas necessidades com eficiência e competência. Mas a característica suprema de Lázaro é que ele se importa. Certa vez, quando Loristan leu notícias profundamente perturbadoras sobre os sofrimentos da Samávia, Marco encontra Lázaro “pasmado olhando para ele em pé com grandes lágrimas escorrendo pelo seu rosto.” Lázaro guia Marco para fora do quarto e então lhe diz: “Ninguém o pode ver assim, nem você. Ele sofre tão horrivelmente”. Então Lázaro “abaixa sua cabeça grisalha e chora como uma criança que havia sido apanhada”.

Ele se importa…profundamente.

Porque Lázaro se importa “a pobre pensão deles era sempre mantida bem arrumada com uma limpeza de soldado e tudo tinha seu lugar. Quando um objeto estava meio desbotado, era forçado para brilhar. Nenhum grão de pó era permitido descansar em qualquer lugar sem ser perturbado.” Porque Lázaro se importava, “por mais simples que fosse a comida, era sempre servida com o mesmo cuidado e a mesma cerimônia de um banquete.” E porque ele se importa, Lázaro também não se importa quando O Rato começa a ter um novo lugar de relacionamento com Loristan. Ele simplesmente expande o escopo de seu serviço para incluir o novo garoto. Quando O Rato sugere que Loristan de alguma forma pertence a Lázaro, o velho soldado responde: “Eu sou dele. Eu sou dele, e do jovem Mestre.” Dar a sua vida para outros era a paixão de Lázaro e o seu propósito.

Lázaro é extremamente dedicado ao Loristan. Mas essa devoção o leva a dedicar a sua vida também para aqueles a quem Loristan lhe confiou. Em sua jornada final para Samávia, ele pede apaixonadamente aos cavalheiros em liderança:

“Até que eu possa ficar diante de meu Mestre e o vê-lo abraçar seu filho… VÊ-LO de verdade… imploro que vocês me deixem não perdê-lo da minha vista noite ou dia. Imploro que me deixam viajar, armado, ao lado dele. Não sou nada mais do que o servo dele e nem tenho o direito de ocupar um lugar na mesma carruagem. Mas me ponha em qualquer lugar. Serei surdo, mudo, cego para todas as outras coisas a não ser ele. Só me deixe ficar próximo o suficiente para dar a minha vida se for necessário. Deixe-me dizer a meu Mestre que “Nunca o deixei.”

É o coração de “paternidade” que o apóstolo João se referiu: uma suprema devoção a Jesus e, portanto, uma devoção para com aqueles com quem Jesus se preocupa.

Marco. Claramente, o “jovem” que João se referiu, que é “forte” e que “vence o maligno” é exemplificado pelo filho do Loristan, pelo Marco. O crescimento até chegar a ser um jovem espiritualmente não significa que você esquece de ser uma criança. Aliás, na igreja de Deus, você cresce e torna um jovem por causa de seu relacionamento contínuo com Ele.

Se Loristan é a personagem central do livro O Príncipe Perdido, então a relação central do livro é aquela que existente entre Loristan e seu filho. Na verdade, a palavra “filho” aparece 70 vezes no texto e a palavra “pai” mais de 300 vezes! Marco é um personagem forte e fascinante, e sua força brota de sua devoção e lealdade a seu pai. Marco é capaz de realizar tarefas incríveis, muito além das capacidades da maioria dos garotos de sua idade, simplesmente porque ele ama e confia no Loristan e o obedece com um coração tranquilo e alegre. O serviço de Marco para a Samávia não vem de um desejo orgulhoso e ambicioso para realizar grandes coisas. Ele só sabe que Samávia é importante para seu pai então isso faz Samávia importante para ele também. Em um trecho comovente, Marco se ajoelha e beija a mão de seu pai:

“Pai!” ele disse, “você não sabe o tanto que te amo! Eu gostaria que você fosse um general e eu poderia morrer na batalha por você. Quando olho para você, anseio muito em fazer algo para você que um menino não seria capaz de fazer. Iria morrer com mil feridas antes de te desobedecer, ou Samávia! Eu fiz meu juramento de fidelidade para você, Pai, quando eu também fiz para a Samávia. Você mesmo parece como se fosse Samávia também,” ele disse e beijou sua mão de novo.

Loristan também é cheio de amor pelo seu filho:

Um olhar carinhoso brilhou na face do seu pai ao levantar o seu menino e colocar sua mão nos seus ombros. “Camarada”, ele disse, “você não sabe o tanto que eu amo você e a razão porque precisamos amar um ao outro! Você não sabe como eu tenho olhado você e agradecido a Deus cada ano que aqui crescia um homem para Samávia.

A devoção de Marco para com seu pai gerou nele um caráter lindo.

• Ele é caracterizado pela humildade. Quando O Rato pergunta se Marco alguma vez tem ciúme quando outros mostram sua devoção ao Loristan, o menino pode responder honestamente, “Não, não tenho. Quanto mais pessoas amam e servem ele, melhor. A única coisa com a qual eu me importo é… é ele. Eu só me importo com ELE.”

• Marco também é caracterizado por maturidade e dignidade. Ele quer representar o seu pai bem por onde for. O Rato observa que o seu amigo “estava fazendo o que quer que fosse simplesmente por causa do seu pai. Era como se ele sentisse que estava representando seu pai, embora fosse meramente um menino; e por causa disto, menino como era, devia carregar-se nobremente e permanecer externamente tranquilo.”

• Marco tem uma paz impressionante considerando a idade dele. Ele mantém sua postura “por causa da paz que sentia em fazer qualquer coisa que pensava que agradaria seu pai.”

• Seu relacionamento com Loristan dá ao Marco um forte sentimento de identidade. Vez após vez durante a segunda viagem à Samávia, quando Marco se encontra sendo o foco da atenção do público, ele não se entrega a sentimentos de timidez ou medo, lembrando-se: “Sou o filho de Stefan Loristan. Estou indo para meu pai.”

• De maneira impressionante, o amor que Marco tem para seu pai produz nele uma obediência jubilosa. É nos dito que: “o treinamento de Marco desde quando era uma criancinha tinha sido extraordinário. O amor que tinha por seu pai fez com que esse treinamento parecesse simples e natural para ele e nunca tinha questionado a razão para esse treino.” E ao o “Jogo” chegar ao fim para os meninos, Marco diz ao Rato: “E como a gente não sabe como será o final, obedecemos às ordens.”

O clímax do livro vem, não com uma batalha ou algum outro ato de coragem, mas com um simples reencontro entre pai e filho. Só então é que Marco percebe que é seu pai que foi coroado Rei da Samávia. O Rei tinha os olhos que ele ansiava ver – as mãos do Rei eram aquelas que ansiava sentir nos seus ombros de novo – O Rei era seu pai! O povo Samaviano é comovido ao ver que “os dois estavam ligados por uma amizade de força e significado singular e o amor deles para seu povo adicionava-se aos seus sentimentos um pelo outro.”

De todas essas maneiras Marco é um exemplo claro do que significa ser um Cristão. Cristianismo significa salvação, é claro. Mas um relacionamento com Deus é a razão pela qual somos salvos. A fé de Marco e o seu amor por Loristan são um retrato maravilhoso de como as mesmas atitudes devem encher o coração e a vida de qualquer filho de Deus. Marco exemplifica os “jovens” que o apóstolo João se referiu. Ele é forte; as palavras de seu pai vivem nele; e ele vence o mal neste mundo. Isso pode ser o seu futuro se você expressar o mesmo amor e confiança para o seu Pai Celestial que o Marco tem pelo seu pai terreno!

O Fim…e o Começo! A história de O Príncipe Perdido termina com uma coroação. Loristan, que agora sabemos é o descendente do lendário Príncipe Perdido da Samávia, retorna ao seu povo e é coroado rei. Finalmente o usurpador foi destronado e o regente legítimo está no seu lugar. Uma era de justiça e de um reino de amor começou.

A história do planeta terra vai acabar de maneira muito similar. Jesus foi “exaltado à mais alta posição” e recebeu “o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:9-10). Todo joelho não se dobrou ainda, mas vai. O Pai lhe disse: “Senta-te à minha direita, até que eu faça dos teus inimigos um estrado para teus pés” (Hebreus 1:13). Como Paulo disse, é necessário que Jesus “reine até que todos os Seus inimigos sejam postos debaixo dos Seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Coríntios 15:25-26). Neste momento Jesus irá trazer tudo, até Ele próprio, sob a sujeição ao Pai para que Ele possa ser “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28). E depois? Isto é o final? Ou apenas o começo?

É interessante que o livro O Príncipe Perdido termina com um final muito aberto. “E agora, Pai?” Marco pergunta. “Grandes coisas virão, uma por uma” Lorsitan responde “se nos mantermos prontos.”

Assim como Marco, todo cristão verdadeiro é um cidadão de outro país. “A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Pelo poder que O capacita a colocar toda as coisas debaixo do Seu domínio, Ele transformará os nossos corpos humilhados, tornando-os semelhantes ao Seu corpo glorioso.” (Filipenses 3:20-21). É uma verdade maravilhosa: “se morremos com Ele, com Ele também viveremos; se perseverarmos, reinaremos” (2 Timóteo 2:11-12). Assim como Marco, seremos convidados ao trono por um Rei que é nosso Pai. Quais tarefas gloriosas que Ele nos dará? Que aventuras iremos compartilhar com Ele? Tudo o que temos de saber é: “Grandes coisas virão, uma por uma se nos mantermos prontos.”

Você estará pronto?

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