VENHA COMIGO

1915

Venha Comigo

O Rato permaneceu silencioso por todo o caminho ao voltarem do cemitério. Ele estava pensando no que havia acontecido e no que ia acontecer com ele. Ele estava, na verdade, realmente pensando que não havia nada na sua frente – nada. Ele estava tão convicto disso que sua face perspicaz tinha novas linhas e uma perspicácia que a tornou aflita e dura.

Antes disso, ele apenas tinha um canto em um sótão vazio que tinha nada mais do que um telhado que gotejava em cima da sua cabeça – isso quando ele não fosse expulsado para a rua. Mas, se um policial lhe perguntasse onde morava, podia dizer que morava em Bone Court com seu pai. Agora não podia dizer isso.

Ele estava indo muito bem nas suas muletas, mas estava bem cansado quando eles chegaram à curva da rua que ia na direção do seu velho bairro. De qualquer forma, era um bairro que conhecia e a ele pertencia mais do que qualquer outro lugar. O Pelotão parou particularmente nessa curva porque era a rua onde estavam as casas deles. Eles pararam como um grupo e olharam para O Rato, e O Rato também parou. Ele rapidamente virou para o lado de Loristan, e com sua mão tocou a testa.

― Obrigado, senhor. ― ele disse. ― Alinhem-se e façam continência, rapazes! ― E o Pelotão alinhou-se e levantaram suas mãos também. ― Obrigado, senhor. Obrigado, Marco. Tchau.

― Aonde está indo? ― Loristan perguntou.

― Ainda não tenho certeza ― O Rato respondeu, mordendo seus lábios.

Ele e Loristan olharam um para o outro por alguns momentos em silêncio. Os dois estavam em pensamento profundo. Nos olhos do Rato estava um tipo de adoração arrebatada. Ele não sabia o que iria fazer quando esse homem virasse e andasse para longe dele. Seria como se o próprio sol houvesse caído do céu – e O Rato não havia considerado o que o sol significava antes.

Mas Loristan não virou e saiu. Ele olhou profundamente nos olhos do rapaz como se estivesse procurando alguma segurança. Então disse bem baixo: ― Você sabe quão pobre eu sou.

― Eu… eu não me importo! ― O Rato disse. ― Você… Você é como um rei para mim. Se você me dissesse, ficaria de pé para ser baleado em pedaços.

― Sou tão pobre que não tenho certeza que posso te dar pão seco suficiente para comer – sempre. Marco e Lázaro e eu passamos fome várias vezes. Algumas vezes você talvez não tenha nada para dormir a não ser o chão. Mas eu posso achar um LUGAR para você se eu te levar comigo ― Loristan disse. ― Você sabe o que quero dizer com um LUGAR?

― Sim, eu sei ― respondeu O Rato. ― É o que nunca tive antes… senhor.

O que Rato sabia no momento era que significava um pedacinho de espaço no mundo onde poderia ter um certo direito de ficar, mesmo que fosse pobre e sem nada. O que perceberia depois era que Loristan quis dizer muito mais, muito mais do que só isso.

― Não estou acostumado com camas e com muita comida ― ele disse. Mas nem ousava insistir muito mais nesse “lugar”. Parecia bom demais para ser verdade.

Loristan pegou sua mão. ― Venha comigo ― ele disse. ― Não o deixaremos. Creio que podemos confiar em você.

O Rato ficou muito branco com um tipo de angustia de alegria. Ele nunca se importava com ninguém em sua vida. Ele havia sido como um jovem Caim, sua mão estava contra todos e a mão de todos estava contra ele. E durante as últimas doze horas havia imergido num oceano tumultuoso de profunda apreciação do que realmente significava um menino ter um pai. O que Loristan dissera e fizera no dia anterior, o qual realmente fora as horas em que O Rato estivera com mais necessidade, depois daquela noite horrorosa – a maneira em que ele olhara para sua face e entendera tudo, a conversa na mesa quando ouvira seriamente, compreendendo e realmente respeitando seus planos e rascunhos de mapas; seu companheirismo calmo ao irem ao funeral juntos – essas coisas eram o suficiente para fazer com que o garoto tivesse um desejo ardente de ser qualquer tipo de servo ou escravo dele se para somente poder vê-lo e conversar com ele uma ou duas vezes ao dia.

O Pelotão mostrou um olhar de desânimo por um momento, e Loristan percebeu isso. ― Estou levando seu capitão comigo ― ele disse. ― Mas ele voltará ao Quartel. Marco também.

― Você vai continuar com o jogo? ― perguntou Cad como um ansioso orador. ― Queremos continuar sendo “O Partido Secreto”.

― Sim, continuarei. ― O Rato disse. ― Não desistirei tão cedo. Há muito nos jornais esses dias.

Então eles tranquilizaram-se e cada um foi no seu caminho e Loristan e Lázaro e Marco e O Rato foram no seu também

“Estranho”, O Rato pensou ao andarem juntos, “estou um pouco com medo de falar algo a ele antes de ele falar comigo primeiro. Nunca me senti assim antes com ninguém.”

Ele havia zombado de policiais e impudentemente pilheriado “grã-finos”, mas sentia um certo respeito secreto por esse homem e, na verdade, gostava do sentimento. “É como se eu fosse um soldado raso e ele fosse um comandante supremo,” ele pensou. “É isso mesmo”.

Loristan conversou com ele ao irem. Ele era simples o suficiente nas suas afirmações da situação. Havia um sofá velho no quarto de Marco. Era estreito e duro, como a cama de Marco era, mas O Rato podia dormir nele. Iriam compartilhar a comida que tinham. Havia jornais e revistas para lerem. Havia papéis e lápis para desenharem mapas novos e planos de batalhas. Havia até um mapa velho de Samávia que era de Marco e que os dois poderiam estudar juntos como uma ajuda para seu jogo. Os olhos do Rato começaram a mostrar pontos de fogo.

― Se eu pudesse ler os jornais toda manhã, poderia lutar nas batalhas em papel à noite ― ele disse quase ofegando com a incrível visão de esplendor. Seriam todos os reinos da terra dados a ele? Será que dormiria num lugar sem um pai cruel perto dele? Teria a oportunidade de se lavar e se sentar numa mesa onde ouviria pessoas dizerem “Obrigado,” e “Desculpe-me,” como se estivessem usando a maneira mais comum de conversarem? Seu próprio pai, antes de cair nas profundezas, havia vivido e falado dessa maneira.

― Quando eu tiver tempo, veremos quem consegue desenhar os melhores planos, ― disse Loristan.

― Você quer dizer que você irá ver o meu… quando tiver tempo? ― perguntou O Rato, hesitantemente. ― Não estava esperando isso.

― Sim, ― respondeu Loristan ― olharei o seu e iremos conversar juntos sobre eles.

Ao continuarem, ele disse-lhe que ele e Marco podiam fazer muitas coisas juntos. Podiam ir a museus e galerias e Marco poderia mostra-lhe coisas com as quais ele mesmo já estava familiarizado.

― Meu pai disse que você não o deixaria voltar aos Quartéis quando você descobrisse ― O Rato disse hesitantemente de novo e ficando quente porque lembrava tantos dias feios no passado. ― Mas… mas prometo que não irei fazer-lhe nenhum mal, senhor. Não irei!

― Quando disse que acreditava que poderíamos confiar em você, quis dizer várias coisas ― Loristan respondeu. ― E uma delas era isso. Você é um recruta novo. Você e Marco estão debaixo de um oficial comandante. ― Ele disse essas palavras porque sabia que iriam enchê-lo de felicidade e agitariam seu sangue.

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