SUA MAJESTADE O ESPERA!

1915

Quando um grupo composto de dois rapazes assistidos por um grande soldado servo e acompanhado por dois homens idosos notáveis, com aparência marcante de estrangeiros, apareceu na plataforma da Estação de Charing Cross, atraiu muita atenção. Na verdade, o jovem forte com postura ereta e cabelos grossos escuros teria feito vários olhos se virarem para olhá-lo, se não parecesse ser respeitado tão especialmente por aqueles que estavam com ele. Mas em um país onde pessoas estão acostumadas a ver certos costumes e certos modos nas pessoas – não importando quão jovens fossem – que eram separadas em categorias pela eventualidade da posição e da distinção que tinham, e onde o povo comum aprecia ver tal conduta, era inevitável que mais de um observador comentasse sobre o fato de que isso não era um grupo ordinário de indivíduos.

― Olhe lá aquele jovem grande e todo bonito! ― disse um trabalhador cuja cabeça estava erguida para cima na janela do vagão de terceira classe. ― Aposto que é algum tipo de grã-fino! Olhe para ele! ― disse para seu amigo dentro do vagão. O companheiro deu uma olhada para ele. Os dois amigos eram do tipo decente, educado, e eram astutos na observação.

― Sim, ele é algum tipo de jovem grã-fino ― ele resumiu. ― Mas certamente nem um pouco inglês. Ele deve ser um jovem turco, ou russo, enviado pra cá pra ser educado. Sua libré parece ser. Tudo menos aquele indivíduo com cara de furão e em muletas. Quem será que é ele?!

Um guarda de aparência cortês estava passando e o primeiro homem o saudou dizendo: ― Hei! Temos alguns grã-finos viajando com nós hoje de manhã? ― ele perguntou apontando com sua cabeça em direção ao grupo. ― Estes parecem ser. Alguém está deixando Windsor ou Sandringham para cruzar de Dover hoje?

O homem olhou para o grupo curiosamente por um momento e depois balançou sua cabeça. ― Eles parecem ser alguma coisa ― ele respondeu mas ninguém sabe nada sobre eles. Todos estão seguros no Palácio de Buckingham e em Marlborough House esta semana20. Ninguém está indo ou vindo.

Era obvio que qualquer observador pensaria que Lázaro era um servente comum escoltando uma carga costumeira. Se silêncio ainda não fosse estritamente a ordem, ele não conseguiria se conter. Mesmo assim ele se portava como um soldado e ficou ao lado de Marco como se somente por cima do seu corpo morto pudesse qualquer um aproximar-se do menino.

― Até chegarmos em Melzarr ― ele havia dito com paixão aos dois cavalheiros até que eu possa ficar diante de meu Mestre e o vê-lo abraçar seu filho…VÊ-LO de verdade… imploro que vocês me deixem não perdê-lo da minha vista noite ou dia. Imploro que me deixem viajar, armado, ao lado dele. Não sou nada mais do que o servo dele e nem tenho o direito de ocupar um lugar na mesma carruagem. Mas me ponha em qualquer lugar. Serei surdo, mudo, cego para todas as outras coisas a não ser ele. Só me deixe ficar próximo o suficiente para dar a minha vida se for necessário. Deixe-me dizer a meu Mestre E nunca o deixei.

― Acharemos um lugar para você ― o homem mais idoso disse ― e se você está tão ansioso assim pode dormir na soleira da porta quando passarmos a noite num hotel.

― Não vou dormir! ― disse Lázaro. ― Ficarei atento. Como você sabe que não há mais seguidores renegados dos Maranovitch soltos e enfurecidos na Europa? Quem sabe?!

― Os Maranovitch e Iarovitch que não já juraram sua sujeição ao Rei Ivor estão mortos em campos de batalhas. Os que sobraram são Fedorovitch agora e estão louvando a Deus por seu Rei ― foi a resposta que o Barão Rastka deu-lhe.

Mas Lázaro não deixou sua posição de guarda. Quando ocupou um compartimento ao lado do de Marco, ficou em pé no corredor durante toda a viagem. Quando desciam em qualquer ponto para trocar de trens, ele seguia logo atrás do rapaz, seus olhos ferozes olhando de um lado para o outro rapidamente e sua mão na arma escondida no seu cinto largo de couro. Quando paravam para descansar em alguma cidade, ele se plantava numa cadeira ao lado da porta do quarto de Marco e se dormia era por não estar ciente que a natureza o havia traído em fazer isso.

Se a viagem feita pelos jovens Portadores do Sinal fora estranha, essa era estranha por seu contraste total. Durante aquela peregrinação, dois meninos abandonados e desamparados em roupas esfiapadas tinham viajado de um lugar para outro, às vezes em vagões ferroviários continentais na terceira ou quarta classe, às vezes balançando em diligências, às vezes em carretas de camponeses, às vezes a pé por ruas pequenas, trilhas de montanha e caminhos de floresta. Agora, dois rapazes bem vestidos sob responsabilidade de dois homens da classe cujas ordens são obedecidas, viajavam em compartimentos reservados para eles, seus auxiliares viajantes fornecendo cada conforto que o luxo poderia oferecê-los.

O Rato não sabia que havia pessoas que viajavam de tal maneira; onde os desejos e as necessidades poderiam ser tão perfeitamente encaminhados; onde funcionários de ferrovia, carregadores em estações, e o pessoal de restaurantes, poderiam de alguma maneira ser transformados em serventes ativos e ávidos. Descansar-se contra as costas estofadas de um vagão e em comodidade luxuosa olhar pela janela para a paisagem, e então achar livros disponíveis no seu cotovelo e refeições excelentes aparecendo em horas regulares, estas perfeições desconhecidas fizeram com que ele às vezes precisasse controlar-se e colocar todas suas energias em acreditar que estava bastante acordado. Acordado ele estava e com muito na sua mente para “matutar”. Na verdade, tinha tanto para matutar que no primeiro dia da viagem ele decidiu abandonar essa luta e esperar até que tempo tornasse claro para ele tais coisas do que era permitido entender do mistério de Stefan Loristan.

O que ele percebeu mais claramente e o que não tinha esquecido nem por um momento foi o fato de que o filho de Stefan Loristan estava sendo escoltado de maneira privada para o país para o qual seu pai tinha dado sua vida inteira de trabalho. O Barão Rastka e o Conde Vorversk eram da dignidade e reserva cortês que marcam homens de distinção. Marco não era um mero rapaz para eles, ele era o filho de Stefan Loristan; e todos eram samavianos. Eles o olhavam não como Lázaro fazia, mas com uma seriedade e prevenção que de algum modo pareciam cercá-lo com uma parede fortificada. Sem qualquer ar de subserviência, eles se constituíram como seus atendentes. Seu conforto, seu prazer, e até mesmo seu divertimento, eram o interesse pessoal deles. O Rato sentiu-se certo de que pretendiam que, se possível, ele apreciasse ao máximo sua viagem, e que ele não ficasse exausto por causa dela. Eles conversavam com ele numa maneira que O Rato nunca tinha visto homens conversando com meninos antes, até ter encontrado Loristan. Era óbvio que sabiam em que ele estaria mais interessado, e que estavam cientes de que ele era tão familiarizado com a história de Samávia quanto eles. Quando ele mostrou uma disposição para ouvir os acontecimentos que tinham ocorrido, eles estavam prontos para seguir sua liderança como seguiriam a liderança de um homem. Isso, O Rato argumentou consigo mesmo, era porque Marco tinha vivido tão intimamente com seu pai que sua vida tinha sido mais como a de um homem do que de um rapaz e tinha o treinado em pensamentos maduros. Ele ficou muito quieto durante a viagem, e O Rato sabia que estava pensando todo o tempo.

A noite antes de alcançarem Melzarr, eles dormiram num vilarejo algumas horas fora da capital. Eles chegaram nesse vilarejo à meia-noite e foram para um hotel calmo.

― Amanhã ― disse Marco, quando O Rato o tinha deixado para a noite ― amanhã, a gente vai ver ele! Deus seja louvado!

― Deus seja louvado! ― O Rato disse também. E os dois fizeram continência para o outro antes de partirem.

De manhã, Lázaro entrou no quarto com um ar tão solene que parecia que as peças de roupa que carregava nas suas mãos eram parte de alguma cerimônia real.

― Estou sob seu comando, senhor ― ele disse. ― E eu trago seu uniforme.

Ele estava carregando, de fato, um uniforme samaviano ricamente decorado, e a primeira coisa que Marco tinha visto quando entrou era que o próprio Lázaro também estava uniformizado. Seu uniforme era de um oficial da Guarda de Corpo do Rei.

― O Mestre ― ele disse ― pede para que você use isto na sua entrada a Melzarr. Eu tenho um uniforme para seu ajudante-de-campo também.

Quando Rastka e Vorversk apareceram, estavam em uniformes também. Era um uniforme que tinha o toque do Oriente no seu esplendor pitoresco. Um manto curto com as beiradas de pelo pendurado por uma corrente de joias dos ombros e com muito bordado magnífico de cores e ouro.

― Senhor, precisamos ir rapidamente para a estação ― Barão Rastka disse a Marco. ― Estas pessoas são excitáveis e patriotas e Sua Majestade quer que permanecemos incógnitos, e evitemos toda possibilidade de demonstração pública até que nós alcancemos a capital. Eles passaram apressadamente pelo hotel para a carruagem que os esperava. O Rato notou que algo estranho estava acontecendo no lugar. Servos pareciam apressados e estavam correndo em volta cantos e hóspedes estavam saindo dos seus quartos e até se inclinando sobre os balaústres.

Ao entrar na carruagem, Marco viu um rapaz mais ou menos da sua idade espiando de trás de um arbusto. De repente ele saiu do seu esconderijo e todos o viram saindo correndo pela rua na direção da estação o mais rápido que suas pernas o podiam carregar.

Mas os cavalos foram mais rápidos do que ele. O grupo alcançou a estação, e foi escoltado rapidamente a seu lugar num vagão especial que o esperava. Enquanto o trem saia da estação, Marco viu o rapaz que tinha corrido diante deles entrar correndo na plataforma, acenando suas mãos e gritando algo loco de alegria. As pessoas que estavam lá viraram para olhá-lo, e no próximo instante todos tinham tirado seus chapéus e jogado para o alto gritando também. Mas não era possível ouvir o que estavam dizendo.

― Conseguimos por pouco ― disse Vorversk, e Barão Rastka acenou com a cabeça.

O trem foi rapidamente, e parou somente uma vez antes de chegarem a Melzarr. Foi numa pequena estação e na plataforma camponeses estavam em pé com seus cestos grandes de flores grinaldas e sempre-verdes. Eles os colocaram no trem e logo tanto Marco quanto O Rato perceberam que algo diferente estava acontecendo. Uma vez, um homem em pé na plataforma estreita do lado de fora do vagão do trem podia ser visto claramente fixando grinaldas e dando bandeiras para homens em cima do trem.

― Eles estão fazendo algo com bandeiras samavianas e muitas flores e coisas verdes! ― gritou O Rato, cheio de animação.

― Senhor, eles estão decorando o lado de fora do vagão ― Vorversk disse. ― Os camponeses que moram ao lado da linha do trem obtiveram permissão de Sua Majestade. Não permitiriam que o filho de Stefan Loristan passasse pelas suas casas sem demonstrarem suas honras.

― Entendo ― disse Marco, seu coração batendo fortemente contra seu uniforme. ― É por causa do meu pai.

Por fim, coberto por folhas, coroado com flores e cheio de bandeiras, o trem entrou na estação principal em Melzarr.

― Senhor ― disse Rastka ao entrarem ― você pode ficar em pé para que as pessoas possam vê-lo? Aqueles na periferia da multidão terão apenas um mero vislumbre de você, mas eles nunca se esquecerão.

Marco levantou-se. Os outros se agruparam atrás dele. Então surgiu um estrondo de vozes que acabou quase num grito de alegria que era como o rugir de uma tempestade. Depois estourou adiante o clangor de instrumentos metálicos tocando o Hino Nacional de Samávia, e vozes frenéticas tomaram parte.

Se Marco não fosse um rapaz forte e bem treinado em auto-controle, o que ele viu e ouviu seria talvez demais para ele suportar. Quando o trem parou completamente e a porta se abriu, até mesmo a voz dignificada de Rastka estava trêmula ao dizer, ― Senhor, vá adiante. É para nós o seguirmos.

E Marco ficou em pé retamente parado por um momento olhando para a multidão gritando, aplaudindo, chorando, cantando e mexendo – então ele fez continência como tinha cumprimentado o Pelotão, parecendo tanto um homem quanto um menino.

Quando o viram em pé desse jeito, parecia que a multidão ficara fora de controle como os Forjadores da Espada ficaram fora de controle na noite da caverna. A agitação cresceu mais e mais, a multidão balançou, pulou, e na sua frenesi de emoção, ameaçou de até a se esmagar até a morte. Se não fosse pelas linhas de soldados, pareceria impossível alguém passar vivo.

― Sou o filho de Stefan Loristan ― Marco disse para si mesmo para poder se manter firme. ― Estou indo para meu pai.

Depois ele estava atravessando pela linha de soldados protetores para a entrada, onde duas grandes carruagens estavam esperando e lá, no lado de fora, esperava uma multidão ainda maior e mais frenética do que a que ele deixara para trás. Ele fez continência de novo, de novo e de novo para todos os lados. Era o que ele tinha visto o Imperador em Viena fazer. Ele não era um Imperador, mas era o filho de Stefan Loristan, que trouxera de volta o Rei.

― Você deve fazer continência também ― ele disse para O Rato quando entraram na carruagem. ― Acho que meu pai avisou para eles sobre você. Parece que conhecem você.

― O Rato tinha sido colocado ao seu lado no banco da carruagem. Ele estava internamente tremendo com uma êxtase de exultação que era quase uma angústia. As pessoas estavam olhando para ele e gritando para ele. Pelo menos era isso que parecia nos rostos mais próximos na multidão. Será que Loristan…

― Escute! ― disse Marco de repente enquanto a carruagem prosseguia no seu caminho. ― Eles estão gritando para nós em samaviano: “Os Portadores do Sinal!” É isso que estão dizendo agora. “Os Portadores do Sinal.”

Eles estavam sendo levados para o Palácio. Isso o Barão Rastka e o Conde Vorversk tinham explicado para eles no trem. Sua Majestade desejava recebê-los. E Stefan Loristan estava lá.

A cidade no passado fora nobre e majestosa. Era um pouco parecida com o Oriente, como seus uniformes e trajes nacionais eram. Havia estruturas com pilares e abobadados feitos de pedra branca e mármore, mas muitas delas estavam meio em ruínas por causa da guerra, negligência, e deterioração. Agora eles estavam aproximando do castelo recentemente reformado, brilhando na luz do sol na sua grande praça que, depois de todo seu desastre, era uma das estruturas mais belas na Europa. Na multidão exultante ainda podia ser vistos rostos fatigados, homens com braços, pernas, ou cabeça enfaixados ou manquejando em pedaços de madeira e muletas. Os trajes nativos ricamente coloridos estavam usados até se tornarem trapos. Mas as pessoas que os usavam tinham os rostos de criaturas arrancadas de desespero para serem levantados em alegria.

― Ivor! Ivor! ― eles gritavam ― Ivor! Ivor! ― e choravam em êxtase.

O Palácio era tão maravilhoso quanto nos dias do passado. As escadas largas de mármore estavam sendo vigiados por soldados. A enorme praça onde ficava estava cheia de pessoas com soldados tentando controlá-las.

― Eu sou seu filho ― Marco disse a si mesmo ao descer da carruagem real e começar a subir os degraus que eram tão largos que pareciam quase uma rua. Subindo ele foi, degrau por degrau, O Rato o seguindo. E ao se virar para cada lado para fazer continência para aqueles que curvavam-se profundamente com sua passagem, começou a perceber que ele tinha visto seus rostos antes.

― Estes que estão vigiando as escadas ― ele disse rapidamente em voz baixa para O Rato ― são os Forjadores da Espada!

Havia uniformes ricos por toda parte quando entrou no palácio e pessoas que curvaram-se quase até o chão ao passar. Ele era muito jovem para ser enfrentado com tanto respeito adorador e cerimônia real, mas esperava que não duraria muito mais, e que, depois que ele tivesse se ajoelhado diante do Rei e beijado sua mão, veria seu pai e ouviria sua voz. Só ouvir a voz dele de novo e sentir a mão dele em seu ombro!

Pelos corredores arqueados para as portas largas e abertas de um quarto magnífico ele foi guiado finalmente. Ao entrar, o fim do quarto lhe pareceu estar muito longe. Havia muitas pessoas vestidas ricamente e de pé em linha enquanto aproximou-se das escadas cobertas por tapetes. Ele sentiu que tinha ficado pálido com a tensão da excitação, e ele tinha começado a sentir-se que deveria estar andando num sonho, porque em cada lado pessoas estavam curvando-se bem baixo e fazendo reverência até o chão.

Ele percebeu vagamente que o próprio Rei estava em pé, esperando que ele se aproximasse. Mas ao avançar, cada passo o trazendo para mais perto do trono, a luz e cor em volta dele, a estranheza e magnificência, a aclamação extravagante de alegria do povo no lado de fora do palácio, o fez sentir-se completamente fascinado e ele não conseguiu ver claramente nenhum rosto ou coisa em específico.

― Sua Majestade está esperando você ― disse uma voz atrás dele que pareceu ser a de Barão Rastka. ― Você vai desmaiar, senhor? Você está muito pálido. ― Marco controlou-se e levantou seus olhos. Por um momento inteiro, depois de levantar seus olhos ele ficou em pé parado e reto, olhando para aquele magnífico rosto majestoso. Então ajoelhou-se e beijou as mãos estendidas para ele – beijou as duas com paixão.

O Rei tinha os olhos que ele ansiava ver – as mãos do Rei eram aquelas que ansiava sentir nos seus ombros de novo – O Rei era seu pai! O “Stefan Loristan” que tinha sido o último daqueles que tinham esperado e trabalhado por Samávia pelos quinhentos anos, e que tinham vivido e morrido reis, embora nenhum deles até agora tivesse usado uma coroa!

Seu pai era o Rei!

Não foi naquela noite, nem na próxima, nem por muitas noites que a narração da história foi completada. As pessoas sabiam que seu Rei e o seu filho estavam raramente separados um do outro e que a suíte de quartos do Príncipe era interligada por uma passagem secreta com a de seu pai. Os dois estavam ligados por uma amizade de força e significado singular e o amor deles para seu povo adicionava-se aos seus sentimentos um pelo outro. Na história de como o passado deles tinha sido, havia uma história que enchia o coração emocionante samaviano para quase estourar. Perto de fogueiras em montanhas, em cabanas, de baixo de estrelas, em pastos e florestas, tudo que podia ser aprendido de sua história foi contada e recontada mil vezes com lágrimas de alegria e orações espontâneas durante o conto.

Mas ninguém sabia essa história como era contada num certo quarto tranquilo mas majestoso onde o homem, que fora uma vez conhecido como simplesmente “Stefan Loristan”, mas a quem história chamaria de o primeiro Rei Ivor de Samávia, contava a sua parte da história para o menino por quem os samavianos tinham um profundo amor, porque ele era tão parecido com o Príncipe Perdido deles restaurado em caráter e disposição – quase o próprio rapazinho rei no retrato antigo.

Era uma história maravilhosa e intensa, aquela das perambulações longas e o esconderijo próximo do segredo perigoso. Entre todos aqueles que sabiam que um homem patriota apaixonado estava trabalhando por Samávia e usando todo o poder de uma excelente mente e o talento delicado de um grande gênio para ganhar amigos e favor para seu país infeliz, havia somente um que sabia que esse Stefan Loristan tinha o direito ao trono samaviano. Ele não tinha feito nenhuma reivindicação, ele procurava não uma coroa, mas a liberdade total da nação para a qual seu amor tinha sido um fogo consumidor.

― Não a coroa! ― ele disse aos dois jovens Portadores do Sinal ao sentarem-se aos seus pés ― não um trono. “A Vida da minha vida: para Samávia.” Foi para isso que eu trabalhei, pelo o que nós todos temos trabalhado. Se tivesse se levantado um homem mais sábio quando Samávia precisava, eu não iria relembrá-los sobre seu Príncipe Perdido. Eu poderia ter ficado de lado. Mas nenhum homem se manifestou. O momento crucial chegou e o único homem que sabia o segredo, o revelou. E então Samávia chamou, e eu respondi, porque ela tinha finalmente se preparado.

Ele colocou sua mão no cabelo preto e grosso da cabeça de seu menino. ― Tem uma coisa que nós nunca conversamos juntos ― ele disse. ― Eu sempre cri que sua mãe morreu de seus temores amargos para mim e a tensão interminável deles. Ela era muito jovem e amorosa e sabia que não haveria nenhum dia, quando nos separamos, que estaríamos seguros de nos vermos vivos outra vez. Quando ela morreu, implorou para eu prometer que sua juventude e adolescência não seriam carregadas pelo conhecimento que ela tinha achado tão terrível de suportar. Eu teria mantido o segredo de você, mesmo se ela não tivesse me implorado tanto. Eu nunca queria que você soubesse a verdade até que se tornasse um homem. Se eu tivesse morrido, um certo documento seria enviado a você que deixaria minha tarefa nas suas mãos e teria explicado todos os meus planos. Você então saberia que também era um Príncipe Ivor que deveria dedicar-se à responsabilidade de seu país e estar pronto quando a Samávia chamasse. Eu tentei ajudar você a treinar-se para qualquer tarefa. Você nunca me deixou na mão.

― Vossa Majestade ― disse O Rato, ― comecei a imaginar, e pensar que fosse verdade naquela noite quando estávamos com a mulher idosa no topo da montanha. Era a maneira que ela olhou para… para Sua Alteza.

― Fale “Marco” ― interrompeu o Príncipe Ivor. ― É mais fácil. Ele era meu exército, Pai.

Os olhos sérios de Stefan Loristan derreteram. ― Fale “Marco” ― ele disse para o ajudante-de-campo. ― Você era o exército dele – e mais – quando nós dois precisávamos de um. Foi você que inventou o Jogo!

― Obrigado Vossa Majestade ― O Rato disse ficando bem vermelho. ― Você me traz grande honra! Mas ele nunca me deixava servi-lo quando estávamos viajando. Disse que não éramos nada mais do que meros dois meninos. Eu suponho que é por isso que é difícil lembrar, de princípio. Mas minha mente foi trabalhando até que às vezes tinha medo soltar algo na hora errada. Quando nós descemos dentro da caverna, e vi que os Forjadores da Espada ficaram loucos por ele… EU SABIA que deveria ser verdade. Mas estava com medo de falar algo. Sabia que queria que esperássemos, então eu esperei.

― Você é um amigo fiel ― disse o Rei ― e você sempre tem obedecido ordens!

Uma enorme lua estava atravessando o céu naquela noite. Uma lua tal como aquela que atravessara o céu entre as brechas de nuvens escuras quando o Príncipe de Viena tinha saído na sua sacada e a voz de menino vindo da escuridão do jardim abaixo havia o alertado. A luz mais clara do esplendor dessa noite atraiu-os para a sacada também: uma larga sacada de mármore branco que parecia com neve. O brilho puro caia sobre tudo que viam diante deles: a cidade maravilhosa, mas quase em ruínas, a grande praça do palácio com suas estátuas quebradas e arqueadas.

Eles ficaram olhando para tudo isso. Havia um grande silêncio em que o mundo inteiro parecia ter parado de respirar.

― E agora? ― disse finalmente o Príncipe Ivor calmamente e baixo. ― E agora, Pai?

― Grandes coisas virão, uma por uma ― disse o Rei, ― se nos mantermos prontos.

20O Castelo de Windsor, o qual é desde Guilherme I, o Conquistador, e o Palácio de Buckingham em Londres são as residências oficiais da monarca inglesa. Sandringham House é um palácio rural que pertence privativamente à Família Real Britânica. Durante os século 19 e no começo do século 20, Marlborough House é uma mansão que foi usada por vários membros da Família Real Britânica e foi o centro da sociadade alta de Londres. Back

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