SILÊNCIO AINDA É A ORDEM

1915

Silêncio Ainda é a Ordem

Eles estavam mais pobres do que o normal esses dias, e a janta que Marco e seu pai sentaram para comer era escasso. Lázaro estava em pé reto atrás da cadeira do seu mestre e o serviu com muita cerimônia. A pobre pensão deles era sempre mantida bem arrumada com uma limpeza de soldado e tudo tinha seu lugar. Quando um objeto estava meio desbotado, era forçado para brilhar. Nenhum grão de pó era permitido descansar em qualquer lugar sem ser perturbado e essa perfeição não era por que eles tinham uma empregada. Lázaro estava bem familiarizado com o trabalho de limpar os quartos do seu mestre, assim o trabalho de uma empregada era completamente desnecessário. Ele tinha aprendido bastante nos quartéis quando era jovem. Lázaro pegava as velhas toalhas de mesa e as toalhas de secar louças e as limpava muito bem como se fossem feitos com linho de excelente qualidade. Também sabia como remendar e cerzir roupas e lutava numa batalha ainda mais difícil contra a sujeira e esqualidez, como toda pessoa que vive em lugares pobres encaram. Eles não tinham nada a não ser pão seco e café nessa tarde, mas Lázaro tinha feito o café e o pão estava bom.

Ao Marco comer, contou para o seu pai sobre Rato e seus seguidores. Loristan escutou, como o menino pensou que iria, com um pequeno sorriso de profundo pensamento nos seus olhos pretos. Era um olhar que sempre fascinava Marco porque significava que estava pensando sobre muitas coisas. Talvez contaria algumas coisas que estava pensando ou talvez não falasse nada. O efeito que tinha sobre o menino era como se ele fosse um livro maravilhoso que você só conseguia olhar de relance em certos momentos. Um livro cheio de figuras e aventuras verdadeiras e não se conseguia parar de fazer perguntas sobre elas.

Sim, o sentimento que Marco tinha era que as outras pessoas sentiam a mesma coisa. Quando conversava com pessoas comuns ele segurava seu corpo alto com benevolência quieta e com poder. Ele nunca se mexia ou movimentava seu corpo como se estivesse nervoso ou incerto do que fazer. Ele conseguia segurar suas mãos bem quietas; podia ficar em pé com suas pernas fortes sem se mexer e sem arrastar os pés. Podia sentar sem ser desgracioso ou desassossegado. A mente dele sabia o que seu corpo deveria fazer e dava ordens para seu corpo sem falar nada, e suas pernas, braços, músculos e nervos o obedeciam. Ele podia ficar em pé quietamente e à vontade e olhar para a pessoa com quem estivesse conversando e sempre todos olhavam para ele e escutavam tudo que dizia. De alguma maneira, mesmo que suas ações fossem sempre de agir cortesmente e sem se achar importante, parecia para Marco que sempre “dava audiência” como reis dão. Ele tinha visto muitas vezes pessoas abaixando suas cabeças bem baixas em reverência ao saírem da sua presença e mais de uma vez tinha acontecido que uma pessoa bem humilde saíra da sua presença andando de costas, como pessoas fazem quando se afastam de um soberano. E ainda sua postura e maneira de se carregar eram a mais quieta e menos presunçosa que existia no mundo.

― E estavam conversando sobre Samávia? E ele sabia a história do Príncipe Perdido? ― ele falou pensativo. ― Até naquele lugar!

― Ele quer saber sobre guerras e quer conversar sobre elas ― Marco respondeu. ― Se pudesse ficar em pé e fosse velho o suficiente, iria lutar por Samávia ele mesmo.

― É um lugar cheio de sangue e triste agora! ― Loristan falou ― As pessoas estão violentas quando não estão com o coração partido e apavoradas.

De repente Marco bateu a mesa com sua palma de menino. Ele fez isso até antes de perceber qualquer era a intenção na sua mente.

― Porque até qualquer um dos Iarovitch ou Maranovitch precisa ser rei! ― ele gritou. ― Eles eram somente camponeses quando começaram a lutar pela coroa há centenas de anos atrás. Os mais ferozes foram os que pegaram a coroa e estão lutando desde aquele dia até hoje. Somente os Fedorovitch foram nascidos para serem reis. Só tem um homem no mundo que tem o direito ao trono e não sei se está no mundo ou não. Mas acredito que está! Sim, acredito!

Loristan olhou com uma curiosidade para o rosto avermelhado dele de doze anos. Ele viu que a chama que tinha subido de repente nele fora inesperada, como uma furiosa batida do coração.

― Você quer dizer…? ― ele sugeriu calmamente.

― Ivor Fedorovitch. Rei Ivor deve ser. E as pessoas iriam obedecê-lo e os dias bons voltariam.

― Faz quinhentos anos que Ivor Fedorovitch deixou os bons pastores. ― Loristan ainda falava calmamente.

― Mas pai ― Marco declarou ― até O Rato falou o que você disse: que ele era muito novo para poder voltar enquanto os Maranovitch estavam no poder. Ele precisava trabalhar e ter uma casa, talvez fosse pobre como a gente. Mas quando tivesse um filho iria chamá-lo de Ivor e iria lhe FALAR e seu filho iria chamar o filho dele, de Ivor também, e falaria para ELE e isso prosseguiria de novo e de novo. Eles nunca poderiam chamar seu filho mais velho de outro nome a não ser Ivor. E o que você falou sobre treinamento seria verdade. Sempre teria um rei sendo treinando para Samávia e pronto para ser chamado.

Entre seus pensamentos que estavam disparando ele pulou da sua cadeira e ficou em pé retamente. ― Ora! Deve haver um rei da Samávia em alguma cidade agora que sabe que é rei e quando ele lê sobre a luta entre seu povo, seu sangue fica vermelho de quente. É seu próprio povo – o seu próprio! Ele deve ir a eles. Deve ir a eles e falar quem ele é! Você não acha que ele deve fazer isso, pai?

― Não seria tão fácil quanto aparenta ser para um menino ― Loristan respondeu. ― Muitos países teriam algo a falar sobre isso. A Rússia teria sua palavra para dizer, como também a Áustria, a Alemanha; e a Inglaterra nunca é silenciosa. Mas, se ele fosse um homem forte e soubesse como fazer amigos em silêncio, talvez pudesse, algum dia, declará-lo abertamente.

― Mas se ele está em algum lugar, alguém, um Samaviano, deve ir e procurá-lo. Deve ser um Samaviano esperto e um patriota… ― Ele parou com um pensamento que entrou de repente na sua mente. ― Pai! ― gritou. ― Pai! Você é a pessoa que pode achá-lo, não teria outro melhor no mundo. Mas talvez… ― parou outro momento porque novos pensamentos começaram a correr pela sua mente. ― VOCÊ já tentou procurá-lo? ― perguntou hesitante.

Talvez tivesse perguntado uma pergunta boba – talvez seu pai sempre o estivesse procurando, talvez isso fosse seu segredo e seu trabalho. Mas Loristan não olhou como que pensasse que ele era um estúpido. Pelo contrário. Loristan olhou-o com seus olhos amorosos fixados nele ainda daquela mesma maneira curiosa, como se o estudasse – como se Marco fosse muito mais velho do que doze anos, e como se estivesse decidindo se poderia falar-lhe algo.

― Camarada, ― ele disse, com um sorriso que sempre alegrava o coração de Marco, ― você tem guardado seu juramento como um homem. Você não tinha sete anos quando você fez a promessa. Você está ficando mais velho. Silencio ainda é a ordem, mas você é homem o suficiente para que lhe seja dito mais. ― Ele pausou e olhou para baixo, e aí olhou para cima falando em uma voz bem baixa. ― Eu não o tenho procurado ― falou ― porque acredito que sei onde está.

Marco segurou sua respiração. ― Pai!

Ele falou somente essa palavra. Ele não podia falar nada mais. Ele sabia que não poderia perguntar nada mais. “Silencio ainda é a ordem”. Mas, ao olharem um para o outro naquele quarto escuro no fundo da casa velha que ficava naquela rua comum e barulhenta com Lázaro imóvel atrás da cadeira de Loristan com seus olhos fixos nas xícaras de café vazias e no prato com pão seco, tudo parecendo tão pobre, como sempre era, mas havia um rei de Samávia, um Ivor Fedorovitch com o sangue do Príncipe Perdido nas suas veias, vivo em alguma cidade neste momento! E o próprio pai de Marco sabia onde ele estava!

Ele olhou para Lázaro, mas, mesmo que a face do velho soldado era inexpressiva como se fosse feito de madeira, Marco percebeu que ele também sabia do que estavam falando, e que sempre soube. Ele tinha sido um camarada de guerra sua vida inteira. Lázaro continuou com seu olhar fixo no prato de pão.

Loristan começou a falar de novo num tom ainda mais baixo. ― Os Samavianos que são patriotas e pensadores ― ele disse ― formaram entre si um partido secreto há uns oitenta anos atrás. Eles formaram o partido quando não tinham mais esperança, mas eles o formaram porque um deles descobriu que um Ivor Fedorovitch estava vivo. Esse Ivor era um guarda florestal numa grande propriedade rural nos Alpes da Áustria. Os nobres que ele servia sempre pensavam que ele era um mistério porque a maneira dele carregar seu corpo e o jeito dele falar não fosse de uma pessoa que nasceu como um servo. Suas maneiras de cuidar da floresta e dos animais eram como um homem que fosse educado e tinha estudado essas coisas. Mas nunca era conhecido ou vaidoso e nunca se declarava superior sobre nenhum dos seus ajudantes. Ele era um homem de grande estatura e era extraordinariamente corajoso e quieto. O nobre que era seu mestre o fez seu companheiro quando caçavam juntos. Uma vez o nobre o levou quando viajou para Samávia para caçar cavalos selvagens. Ele percebeu que conhecia o país muito bem e que estava familiarizado com a caça e costumes da Samávia. Antes de retornarem para Áustria, o homem pediu a permissão do seu mestre para ir nas montanhas sozinho. Ele visitou os pastores e fez amigos com eles, fazendo várias perguntas.

Uma noite quando estava em volta de uma fogueira ele ouviu as músicas sobre O Príncipe Perdido que não foram esquecidas mesmo depois de quinhentos anos. Os pastores conversaram sobre o Príncipe Ivor, e lembraram as velhas histórias sobre ele e relataram a história de que um dia ele voltaria e traria os bons dias de Samávia de volta. Ele talvez fosse só um dos seus descendentes, mas seria o verdadeiro Príncipe Ivor, porque seu coração nunca parava de amar a Samávia. Um pastor bem velho levantou-se cambaleando e levantou sua face para as miríades de estrelas espalhadas como joias no céu azul acima das arvores da floresta, e chorou e orou em voz alta e pediu a Deus que mandasse para eles o seu rei. Então o estrangeiro também ficou de pé e levantou sua face para as estrelas. E mesmo que não disse nada, o pastor que estava próximo a ele viu suas lágrimas na sua face – eram grandes e pesadas. No próximo dia, quando o estrangeiro partiu da Samávia, a sociedade secreta foi formada, e os membros dela sabiam que um Ivor Fedorovitch tinha passado pelo país dos seus antepassados como um servo de um outro homem. Mas a sociedade secreta era pequena e, mesmo que esteja crescendo desde aquele dia e tenha feito boas ações e tenha trabalhado em segredo, o caçador morreu de velhice antes de ser forte o suficiente até para pensar em falar para Samávia do que sabia.

― Ele tinha um filho? ― gritou o Marco. ― Tinha um filho?

― Sim. Ele tinha um filho. Seu nome era Ivor. Foi treinado como eu te disse. Essa parte eu sei que é verdade, e ia acreditar mesmo se eu não soubesse. SEMPRE houve um rei pronto para Samávia mesmo quando ele trabalhava com suas mãos e servia outros. Cada um deles fez seu juramento de fidelidade.

― Como eu fiz? ― Marco disse, com bastante excitamento. Quando se tem doze anos, é uma coisa bem emocionante estar tão próximo ao Príncipe Perdido que pode acabar com guerras.

― Sim, dá mesma maneira ― Loristan respondeu.

Marco levantou sua mão em continência.

― Aqui cresce um homem para Samávia! Deus seja louvado! ― ele citou. ― E ELE está em algum lugar? E você sabe onde?

Loristan baixou sua cabeça concordando. ― Por anos bastante trabalho em segredo tem acontecido, e o partido Fedorovitch tem crescido muito e está bem mais poderoso do que os outros partidos sonham ser. Os países maiores estão cansados da guerra e desordem constante em Samávia. Seus interesses estão sendo perturbados por Samávia e eles estão decidindo que devem ter paz e leis com as quais possam contar. Patriotas samavianos têm gastado suas vidas tentando realizar isso fazendo amigos nas capitais mais poderosas, e trabalharam secretamente para trazer os bons dias de volta para seu país. Por Samávia ser bem pequena e não ter muita influência, tem demorado bastante, mas quando o Rei Maran e sua família foram assassinados e a guerra começou, muitos grandes poderes começaram a dizer que se a algum rei de sangue bom e com características de confiança fosse dado a coroa, ele seria apoiado.

― O sangue DELE, ― a intensidade de Marco fez com que sua voz abaixasse para um cochicho ― O sangue DELE tem sido treinado por quinhentos anos, Pai! Se isso se torna verdade… ― mesmo rindo um pouco, ele foi obrigado a fechar seus olhos bem fortes porque sentiu lágrimas começando a se formar neles, o que nenhum menino gosta… ― os pastores vão precisar fazer uma nova música. Vai ter que ser de gritos sobre um príncipe indo embora e um rei voltando!

Aí pulou na mente de Marco a história que ele tinha que falar, mas que tinha segurado para o final – a história do homem que conversou na língua samaviana e dirigiu a carruagem com o Rei. Ele sabia que talvez iria significar uma coisa importante que ele nunca tinha imaginado antes.

― Tem algo que preciso falar para você, ― ele disse.

Ele tinha aprendido a relatar ocorrências em poucas, mas claras palavras quando as relatava para seu pai. Isso era parte de seu treinamento. Loristan lhe falara que talvez precisaria contar uma história em só alguns minutos – uma história que significava vida ou morte para alguém. Ele disse esta história rápida e claramente. Fez Loristan ver o homem vestido com roupas bonitas com seus condutos e olhos agudos e o fez ouvir sua voz quando disse, “Fale para seu pai que você é um menino bem treinado”.

― Que bom que disse isso. Ele é um homem que sabe o que treinamento é ― disse Loristan. ― Ele é uma pessoa que sabe sobre o que a Europa inteira está fazendo, e quase tudo do que ela vai fazer. Ele é um embaixador de um país grande e poderoso. Se ele viu que você é bem treinado e um menino forte, talvez… isso talvez seja bom para a Samávia.

― Faria uma diferença se eu fosse bem treinado? FARIA diferença para Samávia? ― Marco gritou.

Loristan pausou por um momento – olhando para ele gravemente – examinando-o de cima para baixo – seu corpo grande e forte, suas roupas pobres, e seus olhos ansiosos.

Ele sorriu um dos seus sorrisos mais maravilhosos.

― Sim. Talvez faça diferença para Samávia! ― ele respondeu.

o_principe_perdido.jpg aosseuspes.com
aosseuspes.com
Portugues Languages icon
 Share icon