OS NOVOS PENSIONISTAS EM PHILIBERT PLACE N° 7

1915

Os Novos Pensionistas em Philibert Place n° 7

Em Londres existem muitas fileiras de casas feias, tristes e sujas, mas certamente não poderia haver uma fileira mais suja do que em Philibert Place. Contavam-se histórias de que essa rua fora mais atrativa, mas fazia tanto tempo, que ninguém lembrava quando. Ficava isolada com faixas estreitas de jardins obscuros, desamparados e acinzentados cujas grades de aço quebradas eram para protegê-los do trânsito pulsante da rua que sempre estava rugindo com o barulho de ônibus, táxis, carroças e carros de entrega. A rua alvoroçava com o movimento de pessoas vestidas pobremente e que pareciam como se estivessem indo ou vindo de um trabalho duro ou até com pressa para ver se conseguiam achar um emprego para não passar fome. As faces expostas dos tijolos das casas estavam acinzentadas pela fumaça, suas janelas estavam quase inteiramente sujas e tinham cortinas desbotadas ou não tinham cortina alguma. As faixas de terra, que no passado eram para flores crescerem, foram pisadas a tal ponto que restou somente terra e até as ervas daninhas desistiram de crescer nesses lugares. Uma destas faixas foi usada como um pátio de um lapidário e monumentos e ardósias baratas eram colocados lá para serem vendidos. Outra tinha pilhas de madeira velha e uma outra era usada para colocar amostras de móveis usados, como cadeiras com pernas desiguais, sofás com enchimento de crina de cavalo saindo pela capa e espelhos manchados e rachados. Dentro das casas era tão obscuro quanto fora. Todas eram exatamente iguais. Cada uma tinha um corredor de entrada escuro que levava para escadas estreitas que ou subiam para os quartos ou desciam para uma cozinha no porão. O quarto dos fundos olhava para pequenos, cimentados e fuliginosos quintais onde gatos magros brigavam ou sentavam em cima dos muros esperando que alguma hora poderiam talvez sentir o sol. Os quartos da frente olhavam para a rua barulhenta e pelas suas janelas entrava barulho e tumulto. Era miserável e triste nos dias mais claros e nos dias nebulosos ou chuvosos era o lugar mais infeliz que tinha em Londres.

Pelo menos isso foi o que um menino pensava enquanto estava em pé ao lado da grade de aço olhando as pessoas passarem na manhã em que essa história começa. Também era a manhã em que o pai dele o trouxera para morar como um pensionista na sala de estar dos fundos da casa N° 7.

Ele era um menino de mais ou menos 12 anos. O nome dele era Marco Loristan e era um tipo de menino que as pessoas olham uma segunda vez depois de o terem visto pela primeira vez. Em primeiro lugar ele era um menino grande e alto para sua idade, com um corpo forte. Os seus ombros eram largos e seus braços e pernas longos e musculosos. Ele já estava acostumado a ouvir pessoas comentando ao vê-lo: “Que rapaz bonito e grande!” E depois olhavam mais uma vez para o rosto dele.

Não era um rosto inglês e nem americano, era um tipo de rosto que parecia ser de alguma região da Turquia. Seu aspecto era forte. Seu cabelo preto crescia como um tapete em sua cabeça e seus olhos, grandes e profundos, olhavam entre cílios grossos, retos e pretos. Ele não tinha absolutamente nada de britânico em seu sangue, e uma pessoa observadora ficaria admirada com o seu olhar SILENCIOSO que se expressava pelo seu rosto inteiro, um olhar que dava uma impressão de que não era um menino que falava muito.

Esse olhar era especialmente reparado nessa manhã enquanto ele ficava em pé do lado da grade de aço. Seus pensamentos eram do tipo que traziam para seu rosto de doze anos uma expressão não de menino.

Ele estava pensando na longa e apressada viagem que ele, seu pai e o velho soldado servo, Lázaro, tinham feito nesses últimos dias… a viagem da Rússia. Em um trem apertado na terceira classe, eles precisavam atravessar rapidamente o continente como se algo importante ou terrível os tivesse empurrando, e aqui estavam em Londres, pondo tudo no seu lugar como se fossem morar para sempre em Philibert Place N°7. Marco sabia, entretanto, que mesmo se ficassem um ano, era bem provável que de repente no meio da noite o seu pai ou Lázaro iria acordá-lo do sono e dizer: “Levante-se! Troque de roupa rápido. Precisamos sair agora.” E, alguns dias depois, eles poderiam estar em São Petersburgo, Berlin, Viena, ou Budapeste, amontoados em alguma casa pobre e pequena, mal conservada e sem conforto assim como Philibert Place N°7.

Ele passou sua mão na testa, ao pensar nisso e olhar os ônibus. A sua vida estranha e seu relacionamento bem próximo com o seu pai o tinham feito muito mais velho do que seus doze anos, mas ele era na verdade só um menino. O mistério das coisas algumas vezes pesava sobre ele e o deixava em pensamento profundo.

Em nenhum desses muitos países que ele conhecia havia encontrado um menino que tinha uma vida ao menos um pouco similar à dele. Os outros meninos tinham casas em que passavam ano após ano. Eles iam para escola regularmente, brincavam com outros meninos e falavam abertamente das coisas que acontecia com eles e das viagens que faziam. Quando ele ficava em um lugar por um tempo suficiente para fazer alguns amigos, ele sabia que nunca poderia esquecer de que sua inteira existência era um tipo de segredo e sua segurança dependia do seu silêncio e de sua prudência.

Isso era por causa das promessas que ele tinha feito ao seu pai e sempre as lembrava em primeiro lugar. Não porque ressentia qualquer coisa que tinha a ver com seu pai. Ele se endireitou rapidamente ao pensar sobre isso. Nenhum dos outros meninos tinha um pai igual ao dele, nenhum deles. O seu pai era seu herói e seu chefe. Eram poucas as vezes em que Marco se lembrava de ver a roupa de seu pai ser algo mais do que pobre e gasta. Mas também nunca tinha o visto, mesmo com seu casaco bem usado e roupa esfiapada, não se sobressair entre todos os outros. Ele era distinguido e fácil de ser notado entre todos os homens. Quando andava pelas ruas, pessoas viravam para olhá-lo mais uma vez, até mais do que elas se viravam para olhar Marco, e o menino sentia que isso não era somente porque era um homem grande com um rosto angular de comandante, mas porque tinha uma aparência de alguma maneira como se tivesse nascido para comandar exércitos e ninguém sequer pensaria em desobedecê-lo. Mas Marco nunca tinha o visto comandar nenhum homem. Eles sempre eram pobres, se vestiam pobremente e muitas vezes passavam com pouca comida. Mas se eles estavam num país ou noutro, por mais escuro que fosse o lugar em que se escondiam, as poucas pessoas que eles se encontravam sempre tratavam-no com um certo respeito e na maioria das vezes ficavam em pé quando estavam na presença dele, a não ser se ele implorasse para se sentarem.

“É porque eles sabem que ele é um patriota e patriotas são respeitados”, o menino havia falado para si mesmo. Ele mesmo ansiava ser um patriota, mesmo nunca tendo visto o seu país Samávia. Entretanto, ele conhecia Samávia muito bem. Desde o dia em que ele fez as promessas, o seu pai havia lhe falado tudo sobre lá. Ele o ensinara a conhecer o país, ajudando-o a estudar mapas detalhados e interessantes do país – mapas das cidades, mapas das montanhas, mapas das ruas. Ele o contava histórias sobre as injúrias¬¬ do povo do país, dos seus sofrimentos e esforços para liberdade e acima de tudo da sua coragem que não se abatia. Quando eles conversavam juntos sobre a história de Samávia, o sangue de Marco queimava e pulsava em suas veias e ele sabia pelo olhar do seu pai que o sangue dele também se queimava. Os homens que moravam nesse país tinham sido mortos, roubados e milhares morreram por causa das crueldades e da fome, mas as suas almas nunca foram conquistadas e ao passar dos anos, mesmo que nações mais poderosas os esmagaram ou os escravizaram nunca cessaram de lutar para serem livres das correntes como os samavianos centenas de anos atrás eram.

“Por que nós não moramos lá?” Marco chorou no dia em que as promessas foram feitas. “Por que não voltamos e lutamos? Quando eu for um homem, vou ser um soldado e morrer por Samávia!”

“Nós somos aqueles que devem VIVER para Samávia – trabalhando dia e noite,” o seu pai havia respondido, “negando a nós mesmos, treinando nossos corpos e almas, usando nossas mentes, aprendendo as melhores coisas que precisam ser feitas por nosso povo e o nosso país. Até exilados podem ser soldados para Samávia – eu sou um deles. Você deve ser um deles também.”

“Nós somos exilados?” Marco perguntou.

“Sim.” foi a resposta. “Mas mesmo se nunca colocarmos nosso pé no solo samaviano, devemos dar as nossas vidas por ela. Eu tenho dado a minha vida desde quando eu tinha dezesseis anos. E darei até morrer.”

“Você já morou lá, pai?” Marco disse.

Um olhar estranho atravessou rapidamente o rosto do seu pai.

“Não,” ele respondeu e nada mais falou. Marco, olhando para ele, sabia que não deveria fazer essa pergunta outra vez.

As próximas palavras do seu pai foram sobre as promessas. Marco era um menino novo naquela época, mas ele entendia a seriedade das promessas e sentia que ele estava sendo honrado como se fosse um homem.

“Quando você se tornar um homem, você saberá tudo que desejar saber,” Loristan disse. “Agora você é uma criança e sua mente não deve ser sobrecarregada. Mas você deve fazer a sua parte. Uma criança às vezes esquece que palavras podem ser perigosas. Você deve me prometer nunca se esquecer disso, não importa o lugar que você esteja. Se você tiver amigos, você precisa se lembrar de manter silêncio sobre muitas coisas. Você não deve falar do que eu faço ou das pessoas que vêm me visitar. Você nunca deve mencionar as coisas que faz a sua vida diferente dos outros meninos. Você deve ficar ciente que existe um segredo que uma única palavra desatenta poderá revelar. Você é um samaviano e já houve samavianos que preferiam morrer mil vezes a entregar esse segredo. Você precisa aprender a obedecer sem questionar, como se fosse um soldado. Agora você deve fazer seu juramento.”

Loristan levantou da cadeira e foi até o canto do quarto. Ajoelhou-se, levantou o tapete, tirou uma tabua do assoalho e tirou uma coisa que estava debaixo da tábua. Era uma espada. Ao se aproximar de Marco, tirou-a da bainha. O corpo forte da criança se endireitou e se firmou. Seus olhos fundos e grandes brilhavam. Ele faria seu juramento de fidelidade pela espada como se fosse um homem. Ele não estava ciente de que sua pequena mão abria e fechava com a garra de entendimento ardente porque aqueles com seu mesmo sangue haviam carregado espadas e lutado por centenas de anos.

Loristan deu a ele a grande arma desembainhada e ficou em pé diante dele.

“Repita essas palavras depois de mim, sentença por sentença!” ordenou. Ao ouvir as palavras, Marco ecoou cada uma delas alta e claramente.

“A espada na minha mão para Samávia!”

“O coração no meu peito para Samávia!”

“A rapidez dos meus olhos, os pensamentos na minha cabeça e a vida da minha vida para Samávia!”

“Aqui cresce um homem para Samávia.”

“Deus seja louvado!”

Com isso Loristan colocou a sua mão nos ombros da criança, seu rosto marcado com orgulho quase violento.

“Dessa hora em diante,” ele falou, “eu e você somos companheiros de guerra.” E daquele dia até o dia em que ele estava em frente às grades de ferro quebradas, em Philibert Place N° 7, Marco nunca esqueceu isso, nem por uma hora.

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