O RATO PARA O RESGATE

1915

O Rato para o Resgate

Marco andou pela passagem e entrou na cozinha do porão. Todas as portas estavam trancadas e eram portas sólidas. Ele subiu correndo as escadas e viu que a porta de cima estava fechada e trancada e era uma porta sólida também. Seus carcereiros haviam tido certeza de que demoraria tempo suficiente para ele sair para o mundo, mesmo que saísse da adega.

A gata correra para algum lugar onde camundongos eram abundantes. Marco agora já estava sentindo muita fome. Se ele pudesse entrar na cozinha talvez achasse fragmentos de comida deixados nos armários mas não podia mover a porta trancada. Ele tentou sair pela porta da entrada do porão, mas ela estava imóvel. Então viu próximo a ela uma outra porta menor. Era evidentemente a entrada para o depósito de carvão localizado debaixo do piso. Isso era óbvio pelo fato de que várias pegadas de pó do carvão marcavam o piso e perto da porta havia um balde com carvão.

O balde de carvão era o que iria ajudá-lo! Acima da porta na entrada do porão havia uma pequena janela que servia para clarear a entrada. Ele não conseguia alcançá-la e mesmo se conseguisse alcançá-la não conseguiria abri-la. Ele poderia jogar pedaços de carvão na direção da janela e quebrá-la e então conseguiria gritar por ajuda quando as pessoas passassem. Talvez não notariam ou não entenderiam de onde os gritos estavam vindo no começo, mas se continuasse a gritar acabaria atraindo a atenção de alguém.

Ele pegou um grande pedaço de carvão da pilha no balde e a jogou com toda a sua força na direção do vidro sujo. O carvão passou pela janela e deixou um grande buraco. Ele jogou um outro e a vidraça inteira se estraçalhou e caiu para fora na área. Então ele percebeu que era pleno dia e supôs que estivera trancado por várias horas. Havia muito carvão no balde e ele tinha um braço forte e uma boa mira. Ele quebrou vidraça por vidraça até ficar só a armação. Quando gritasse, não haveria mais nada entre sua voz e a rua. Ninguém conseguiria vê-lo, mas se conseguisse fazer algo que fizesse as pessoas diminuírem seu passo para escutar, então poderia dizer que estava no porão da casa com a janela quebrada.

― Alô! ― ele gritou. ― Alô! Alô! Alô! Alô!

Mas veículos estavam passando nas ruas e as pessoas passando estavam absorvidas em seus próprios pensamentos. Se ouviram um barulho, não pararam para investigá-lo.

― Alô! Alô! Estou trancado! ― Marco gritou o mais alto que seus pulmões permitiram. ― Alô! Alô!

Depois de meia hora gritando, ele começou a pensar que estava desperdiçando sua força. ― Eles só pensam que é um menino gritando. ― ele disse. ― Alguém perceberá em tempo. À noite, quando as ruas estão quietas, eu talvez faça um policial escutar. Mas meu pai não sabe onde estou. Ele estará me procurando – como também Lázaro – e também O Rato. Um deles talvez passe por essa mesma rua, como eu passei. O que posso fazer?!

Uma nova ideia brilhou sobre ele. “Eu vou começar a cantar uma música samaviana, e cantarei bem alto. As pessoas quase sempre param um pouco para escutar música e querem descobrir de onde vem. E se qualquer um do meu pessoal se aproximar, eles pararão imediatamente – e de vez em quando pararei e gritarei por ajuda.

Certa vez, quando eles haviam parado para descansar no Parque Hampstead, ele cantara uma canção samaviana heroica para O Rato. O Rato quis ouvir como ele cantaria quando eles fossem na sua jornada secreta. Ele queria que cantasse um dia para o Pelotão para fazer com que a coisa fosse real. O Rato estivera bem empolgado e implorara pela música muitas vezes. Era algo do tipo bélico e bem animador com um toque de trombetas no coro. Milhares de samavianos haviam cantado juntos no seu caminho para campo de batalha, centenas de anos atrás.

Ele deu alguns passos para trás, e, colocando suas mãos na cintura, começou a cantar, lançando sua voz para cima para que passasse pela janela quebrada. Ele tinha uma voz jovem, magnífica e vibrante, embora não soubesse nada da sua fina qualidade. Mas agora ele só queria deixá-la alta.

Na rua lá fora poucas pessoas estavam passando. Um senhor idoso irritável que estava fazendo uma caminhada inválida quase pulou de aborrecimento quando a música de repente trombeteou para fora. Meninos não têm direito de gritar dessa maneira. Ele apressou seu passo para escapar do som. Duas ou três outras pessoas deram uma olhada sobre seus ombros, mas não podiam perder tempo. Alguns outros ouviram com prazer ao se aproximarem mas continuaram andando.

― Aí está um menino com uma voz boa ― disse um.

― O que está cantando? ― disse seu companheiro. ― Parece ser um estrangeiro.

― Não sei ― foi a resposta ao andarem. Mas finalmente um jovem homem, o qual era um professor de música indo dar uma aula, hesitou e olhou em volta dele. A música estava muito alta e vivaz nesse momento. O professor de música não conseguia entender de onde vinha, e parou para descobrir. O fato de ele ter parado atraiu a atenção do próximo que vinha chegando, que também parou.

― Quem está cantando? ― ele perguntou. ― Onde está cantando? ―

― Não consigo entender ― o professor de música riu. ― Soa como se saísse do chão.

E por ser estranho que uma música saia do chão, um vendedor de frutas parou, depois um menininho, e depois um empregado e uma senhora.

Havia um pequeno grupo considerável quando uma outra pessoa virou a esquina da rua. Ele era um menino esfarrapado em muletas e tinha um olhar frenético no seu rosto.

E Marco realmente ouviu, enquanto ele se aproximava do grupo, o tap-tap-tap das suas muletas. ― Talvez seja ele ― ele pensou. ― Talvez seja ele! E ele cantou o toque de trombetas do coro como se fosse para alcançar os céus e cantou de novo e de novo. E no final ele gritou ― Alô! Alô! Alô! Alô! Alô!

O Rato moveu-se para dentro do grupo e olhou como se estivesse louco. Ele lançou-se contra as pessoas.

― Onde ele está?! Onde ele está?! ― ele gritou, e emitiu algumas palavras sem fôlego; quase como se estivesse soluçando-as. ― Temos procurado por ele a noite inteira! ― ele gritou. ― Onde ele está?! Marco! Marco! Ninguém canta assim a não ser ele. Marco! Marco! ― E vindo da área, como pareceu, houve um grito de resposta.

― Rato! Rato! Estou aqui na adega – trancado. Estou aqui! ― e um grande pedaço de carvão veio voando pela janela quebrada e caiu chocando-se no chão da área. O Rato desceu as escadas para a área como se não estivesse com muletas mas com pernas, e bateu na porta gritando de volta:

― Marco! Marco! Estou aqui! Quem trancou você aí dentro? Como posso abrir a porta?

Marco estava bem próximo, contra o lado de dentro da porta. Era o Rato! Era o Rato! E ele estaria na rua de novo em alguns minutos. ― Chame um policial! ― ele gritou pelo buraco da fechadura. ― Umas pessoas me trancaram de propósito e levaram as chaves embora.

Então o grupo de espectadores começou a ficar empolgado e pressionou-se contra a grade da área e fazer perguntas. Eles não conseguiam entender o que havia acontecido para fazer o menino de muletas olhar como se estivesse louco de terror e alívio ao mesmo tempo.

E o pequeno menino correu alegremente para trazer um policial, e achou um na próxima rua e, com um pouco de dificuldade, o persuadiu de que era a sua obrigação vir e abrir uma porta numa casa vazia onde um menino que era um cantor de rua havia sido trancado dentro de uma adega.

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