O RATO

1915

O Rato

Marco estaria pensando muito se tivesse ouvido aquelas palavras, mas sendo que não as ouviu, começou a voltar para casa pensando sobre outra coisa. Um homem intimamente ligado ao rei deve ser uma pessoa importante. Esse homem sem dúvida sabia muitas coisas não somente do seu próprio país e governantes, mas também dos outros países e reis. Tão poucos realmente sabiam algo sobre a pobre pequena Samávia, até que recentemente os jornais começaram a falar para as pessoas dos terrores e das suas guerras — e quem, sem ser os samavianos, iria saber falar sua língua? Isso seria uma coisa interessante de falar para seu pai, de que um homem que conhecia o Rei tinha conversado com ele em samaviano e ainda mais tinha mandado uma mensagem curiosa.

Mais tarde Marco se achou passando uma rua secundária e olhou para cima. Era uma rua bem estreita e nos dois lados da rua havia altas e velhas casas que atraiu sua atenção. Parecia que um pouco da velha Londres tinha restado em pé enquanto os lugares mais novos cresceram e a esconderam da vista. Era esse tipo de rua que ele gostava de andar por mera curiosidade. Ele conhecia muitas delas em velhas partes de muitas cidades. Marco até tinha morado em algumas delas. Ele poderia achar seu caminho de volta para casa no final dessa rua. Uma outra coisa que o atraiu, sem ser um lugar diferente, eram vozes de meninos e queria ver o que estavam fazendo. Algumas vezes quando chegava num lugar novo e estava se sentindo só, ele seguia vozes de meninos brincando ou discutindo e achava alguns amigos temporários.

Na metade do caminho dessa rua existia uma passagem arqueada de tijolo. As vozes de meninos estavam vindo de lá — uma das vozes mais alta, fina, e aguda do que o resto. Marco foi até a arcada e olhou pela passagem. Ela se abria num espaço pavimentado que era fechado por grades de um cemitério preto, antigo e deserto. Os meninos não estavam brincando, mas ouvindo um do seu grupo que estava lendo para eles o jornal.

Marco andou até a passagem e escutou também em pé num lugar escuro na arcada e ficou olhando para o menino que estava lendo. Ele era uma criatura pequena e estranha com uma testa grande e olhos bem profundos que eram curiosamente penetrantes. Mas não era só isto. Ele era corcunda e suas pernas pareciam pequenas e tortas. E se sentava com elas cruzadas na sua frente numa plataforma rígida de madeira com pequenas rodas em baixo, com o que evidentemente se empurrava. Próximo a ele havia muitas madeiras empilhadas juntos como se fossem rifles. Uma das primeiras coisas que Marco notou era que naquele pequeno rosto havia linhas marcadas como se estivesse irado toda sua vida.

― Segurem suas línguas, seus tolos! ― ele gritou agudamente para alguns meninos que o interromperam. ― Vocês não querem aprender nada?

Ele estava pobremente vestido, como todos os outros meninos, mas não falava no dialeto de Cockney.1 Se era um moleque de rua, como todos seus outros companheiros eram, ele tinha algo diferente de alguma maneira. Aí, por acaso, ele viu Marco, que estava em pé na entrada da passagem de baixo da arcada.

― O que você está fazendo aí escutando? ― ele gritou, e de repente pegou uma pedra e atirou nele. A pedra bateu no ombro do Marco, mas não doeu tanto. O que Marco não gostou foi o fato de um outro menino querer jogar algo nele antes mesmo de conversarem. Ele também não gostou que dois outros meninos prontamente aproveitaram a oportunidade e abaixaram para pegar mais pedras.

Marco andou para frente diretamente para o grupo de meninos e parou perto do corcunda. ― Por que você fez isso? ― ele perguntou na sua voz jovem e grossa.

Marco era grande e forte o suficiente para propor que não era um menino que poderia ser facilmente descartado. Mas não foi isso que fez o grupo ficar parado com olhos arregalados para ele. Era algo dentro dele — parte era um pouco de uma falta de algo como irritação pela pedra que foi jogada. Era como se não se importasse nem um pouquinho. Não fez ele ficar irado ou ofendido. Estava somente um pouco curioso sobre o que aconteceu. Visto que estava limpo e seu cabelo e roupas velhas estavam esfregadas, a primeira impressão que foi dada da sua aparência ao ficar de pé na entrada da passagem era que ele era um “filhinho de papai”2 metendo seu nariz onde não era chamado; mas ao se aproximar, os meninos viram que as roupas bem esfregadas eram gastas e calçava sapatos gastos e remendados.

― Por que você fez isso? ― ele perguntou, e fez essa pergunta meramente como se quisesse saber a razão.

― Eu não vou ter vocês grã-finos entrando no meu clube como se fosse um de nós ― o corcunda falou.

― Não sou um grã-fino e nem sabia que aqui era um clube ― Marco respondeu. ― Ouvi meninos e pensei que poderia vim para ver. Quando ouvi vocês lendo sobre Samávia, queria ouvir também. ― Ele olhou para o que estava lendo com uma expressão silenciosa nos seus olhos. ― Você não precisava jogar uma pedra ― ele adicionou. ― Não vejo os adultos agindo dessa maneira. Vou ir embora então.

Ele virou como se fosse embora, mas, antes de ter tomado três passos, o corcunda informalmente o chamou. ― Hei! ― Ele gritou. ― Hei, você!

― O que você quer? ― Marco falou.

― Aposto que você não sabe onde Samávia é localizada ou porque eles estão lutando ¬― o corcunda jogou as palavras a ele.

― Sim, eu conheço. Ela é localizada ao norte de Beltrazo e leste de Jiardásia e estão lutando porque um partido assassinou o Rei Maran e o outro partido não vai deixá-los coroar Nicola Iarovitch. E porque devem? Nicola é um salteador e não tem um pingo de sangue real nele.

― Ah! ― o corcunda admitiu com relutância. ― Você conhece tudo isso, então? Volta aqui.

Marco voltou enquanto os meninos ainda ficavam de olhos arregalados. Era como se dois líderes ou generais estivessem se encontrando pela primeira vez e esse grupo de meninos de rua, olhando, imaginavam no que resultaria esse encontro.

― Os samavianos do partido Iarovitch são mal e só querem coisas ruins. ― Marco falou primeiro. ― Eles não se importam com Samávia. Só querem dinheiro e o poder para fazer leis que vão servir a eles mesmos e esmagar todos os outros. Eles sabem que Nicola é um homem fraco, e que, se conseguirem coroá-lo como rei, poderão convencê-lo a fazer o que eles gostam.

Pelo fato de ter começado, mesmo que tenha falado numa voz firme de menino sem gabolice, pensou que, de alguma maneira, certamente iriam ouvi-lo. Isso deu-lhe um lugar imediatamente. Meninos são criaturas impressionáveis e sabem quem é um líder quando veem um. O corcunda fixou seus olhos brilhantes nele. O grupo começou a murmurar.

― Rato! Rato! ― várias vozes começaram a gritar ao mesmo tempo num dialeto forte de Cockney. ― Joga mais perguntas pra ele, Rato!

― É disso que eles te chamam? ― Marco perguntou ao corcunda.

― Disso é que eu me chamo ― ele respondeu ressentidamente. ― ‘O Rato’. Olhe pra mim! Rastejando pelo chão assim! Só dá uma olhada para mim! ― Ele fez um gesto ordenando seus companheiros para saírem da frente dele, e começou a puxar a si mesmo rapidamente indo de um lado para o outro. Encurvou sua cabeça e corpo, torceu seu rosto, e fez movimentos estranhos de animais. Ele até fez alguns gritos agudos ao correr aqui e lá – como um rato faria se estivesse sendo caçado. Ele fez isso como se demonstrasse um talento e as risadas dos seus companheiros eram de aplausos.

― Não foi como um rato? ― ele demandou, quando de repente parou.

― Você se fez parecer com um rato de propósito ― Marco respondeu. ― Você faz porque gosta.

― Não é muito legal ― O Rato falou. ― Eu me sinto como um. Todo mundo é meu inimigo. Sou uma peste. Não posso me defender a não ser por morder. Mas, consigo morder. ― Ele mostrou suas duas fileiras de dentes bravios, fortes e brancos que eram mais pontudos do que geralmente são em humanos. ― Mordi meu pai uma vez e ele nunca mais me incomodou. ― O Rato disse rindo uma risada feia, penetrante e aguda. ― O homem mais bravo que você já viu na sua vida. ― Aí ele riu ainda mais agudamente. ― Ele é um cavalheiro, ― adicionou sarcasticamente. ― E eu sou um filho de um cavalheiro. Ele era o diretor numa escola grande até que decidiu de sair, isso foi quando eu tinha quatro anos e minha mãe morreu. Eu tenho treze anos agora e até hoje não achou um trabalho fixo. E você, tem quantos anos?

― Tenho doze, Marco respondeu.

O Rato torceu seu rosto com inveja. ― Gostaria de ser do seu tamanho! Você é um filho de um cavalheiro? Você parece um.

― Sou um filho de um homem bem pobre ― foi a resposta de Marco. ― Meu pai é um escritor.

― Então com toda a certeza ele é um tipo de cavalheiro ― Rato falou. Aí de repente jogou outra pergunta nele. ― Qual é o nome do outro partido samaviano?

― Os Maranovitch. Os Maranovitch e os Iarovitch estão lutando uns contra os outros há quinhentos anos. Primeiro uma dinastia reina e daí outra quando eles conseguem matar alguém, como fizeram com o rei Maran ― Marco respondeu sem hesitação.

― Qual era o nome da dinastia que reinou antes deles começarem a brigar? O primeiro Maranovitch assassinou o último deles ― O Rato lhe perguntou.

― Os Fedorovitch ― Marco falou. ― O último deles era um rei mal.

― Seu filho era aquele que nunca foi encontrado ― O Rato falou. ― Aquele que chamam de O Príncipe Perdido.

Marco estaria surpreso, mas por causa do seu longo treinamento de autocontrole exterior, não estava. Era tão estranho ouvir histórias da sua terra natal faladas nessa rua sem saída num bairro pobre e justamente na hora que estava pensando sobre elas.

― O quê que você conhece sobre ele? ― Marco perguntou, e ao fazer essa pergunta viu os moleques se aproximando.

― Não muito. Só li algo sobre ele num jornal rasgado que achei na rua ― O Rato respondeu. ― O homem que estava escrevendo sobre ele falou que era somente parte de uma lenda e ria de pessoas que acreditam nesse príncipe. Também falou que estava na hora dele se revelar, se tinha qualquer intenção de fazer isso. Eu tenho inventado coisas sobre ele porque esses rapazes gostam de me ouvir. Mas são somente histórias.

― Nois gosta dele ― alguém gritou. ― Porque ele é um cara legal; ele… ele lutaria, ooohhh sim, se estivesse em Samávia agora.

Marco rapidamente se perguntou quanto deveria falar. Uma vez decidido, falou com todos.

― Ele não é parte de uma lenda. Ele é parte da história de Samávia ― Marco disse. ― Eu sei alguma coisa sobre ele também.

― Como que você descobriu? ― O Rato perguntou.

― Porque meu pai é um escritor, ele precisa de livros e papéis e também sabe muita coisa. Eu gosto de ler então vou a bibliotecas públicas. Você sempre pode pegar livros e papéis lá. Daí pergunto coisas para meu pai. Todos os jornais estão cheios de coisas sobre Samávia hoje em dia. ― Marco sentiu que essa explicação não iria trair nada. Era verdade que ninguém podia abrir o jornal esses dias sem ver notícias e histórias sobre Samávia.

O Rato viu possíveis vistas de informação se abrindo diante dele. ― Sente aqui ― ele falou, ― e fale para a gente o que você sabe sobre ele. Sentem meus amigos.

Não tinha nada onde sentar a não ser no chão, mas isso não era um problema. Marco tinha sentado no chão muitas vezes antes, como também todos os outros meninos. Ele ocupou seu lugar ao lado do Rato e os outros fizeram um semicírculo em frente deles. Os dois líderes juntaram suas forças, por assim dizer, e os seguidores ficaram numa linha em “atenção”. Aí o recém-chegado começou a falar.

Era uma história boa, aquela do príncipe perdido, e Marco contou de uma maneira que dava realidade. Como não poderia ser real? Ele sabia, como os outros não poderiam saber, que era verdadeira. Ele que tinha olhado detalhadamente os mapas da pequena Samávia, que tinha desde os sete anos estudado os mapas junto com seu pai, e conhecia Samávia como um país onde poderia achar seu caminho em qualquer canto se fosse deixado em qualquer floresta ou montanha dele. Conhecia todas as rodovias e avenidas e na cidade capital de Melzar podia ir aonde quisesse com os olhos vendados. Conhecia também os palácios e fortalezas, as ruas pobres e as ruas ricas. Seu pai uma vez o tinha mostrado uma planta de um palácio real que eles estudaram juntos até que o menino soubesse cada quarto e corredor dentro dela na ponta da língua. Mas disso não falou. Ele sabia que isso era uma das coisas sobre as quais precisava ser silencioso. Mas podia falar das montanhas e dos prados veludos da cor de esmeralda que cobriam os lados da montanha e só terminavam onde tinham grandes penhascos e onde os picos começavam. Ele podia pintar nas mentes deles as grandes planícies férteis onde os bandos de cavalos comiam ou apostavam corridas ao respirar o ar fresco. Podia descrever os vales férteis onde rios claros corriam e ovelhas pastavam em grama verde e alta. Marco disse estas coisas porque poderia dar uma boa razão de conhecê-las. Esta não era a única razão por que tinha tanto conhecimento, mas era uma que iria lhe servir suficientemente bem.

― Aquela revista rasgada que você achou tinha mais de um artigo sobre Samávia ― ele falou para o Rato. ― Aquele mesmo homem escreveu quatro artigos. Eu li todos eles numa biblioteca pública. Esse homem esteve em Samávia, e sabia muita coisa sobre ela. Falou que era o país mais lindo e fértil que já tinha viajado. Isso é o que todos falam sobre ela.

O grupo que estava diante dele não sabia nada sobre o que eram florestas ou regiões rurais. Eles só sabiam dos becos e ruelas de Londres. A maioria deles só tinha ido a parques públicos e de fato quase nem acreditavam na existência de florestas. Eles eram uma turma sem refinamento e olharam para ele com olhos arregalados, como tinham feito na primeira vez que o viram. Quando falou dos samavianos altos, de tempos antigos, que caçavam cavalos selvagens para domesticá-los, as bocas deles caíram. Isso era uma coisa que iria entusiasmar a imaginação de qualquer menino.

― Oh loco! Mas como eu gostaria de pegá um daqueles cavalo ― gritou alguém na audiência de repente, e sua exclamação foi repetida uma dúzia de vezes com o mesmo entusiasmo. Quem não iria gostar de “pegá um”?

Quando falou das grandes florestas que parecia nunca acabar e dos pastores que tocavam suas flautas e faziam músicas sobre ações grandiosas e de bravura, eles sorriram de alegria sem saber que estavam sorrindo. Eles não sabiam muito bem que nesse beco abandonado, fechado de um lado com casas bem pobres e pretas de tanta poluição e no outro lado por um cemitério abandonado e esquecido, eles ouviam o sussurro dos galhos verdes das florestas onde pássaros se aconchegavam juntos, o assobio do vento de verão nos caniços do rio e o tilintar, as gargalhadas e o barulho dos riachos correndo.

Eles escutaram mais ou menos tudo isso pela história do Príncipe Perdido, porque o Príncipe Ivor gostava muito de planícies com florestas e tudo que fosse ao ar livre. Quando Marco o descreveu como sendo alto, jovem e com membros fortes, atraindo todos ao passar pelas ruas sorrindo, os meninos também sorriram sem saber.

― Pooxa! Pena que ele sumiu! ― alguém gritou.

Quando ouviram do desassossego e descontentamento dos samavianos, eles também começaram a ficar impacientes. Então, quando Marco chegou na parte da história onde a multidão correu para dentro do palácio e interrogou o rei sobre o príncipe, eles começaram a xingar o rei. ― Aquele véio esquisito escondeu ele em algum lugar num buraco, ou matô ele sem dó… foi isso, era isso que tava tramando! Se nois tivesse lá – aiii, se só a gente tivesse lá. A gente ia dá pra aquele rei o que tava merecendo! Sim, isso mesmo!

― Quando ele foi saindo daquele palácio cedinho e cantando daquele jeito! Alguém seguiu ele e pegou ele! ― decidiram com várias exclamações de ira de menino. De algum jeito, o fato de aquele jovem real ter passeado numa manhã ensolarada cantando, os deixou furiosos. Mas se foi ruim nessa parte da história, ficou pior quando ouviram que o velho pastor achou o jovem caçador semimorto na floresta. ― Pegaram ele POR TRAZ! Não deu ele nem chance. R-r-r-r-r! ― os moleques uivaram em coro. ― Que pena que nois não tava lá pra ajudá ele!

Era uma história que tinha um efeito estranho neles. A história os fez pensar que viram coisas; fez o sangue deles queimar e querer lutar por ideais que desconheciam – coisas de aventura, por exemplo, e nobres e jovens príncipes de alta posição que estavam cheios das possibilidades de grandes e nobres feitos. Sentados no chão com o cemitério deserto atrás deles, de repente foram carregados dentro de um mundo de aventuras, e nobres, jovem príncipes e feitos grandiosos e bons ficaram tão real quanto os túmulos e muito mais interessantes.

Quando chegou à parte da história onde o pastor estava contrabandeando o príncipe inconsciente pela fronteira em uma carroça cheia de pele de ovelha puxado por touros! Todos seguraram sua respiração. Será que o velho pastor iria conseguir atravessar a fronteira com o príncipe escondido na carroça?! Marco, que estava perdido no meio da história, a contou como se estivesse presente. Sentia que estava lá e era a primeira vez em que contava essa história para uma galera cheia de excitação. Sua imaginação pegou o melhor dele e seu coração pulava no seu peito ao ter certeza do que aquele velho homem deveria ter feito quando a polícia o parou e perguntou o que estava levando para fora do país. Marco sabia que o pastor precisava usar todo seu esforço para forçar-se a responder numa voz estável, imperceptível e regular. Aí não tinha mais nada para contar…mais nada. Parou aí, e algo como um uivo baixo de desânimo começou do semicírculo.

― Ahhh não! ― eles protestaram, ― não pode pará aí! Não tem nada mais pra contá? Só isso?!

― É só isso que se sabe. E essa última parte talvez seja só uma história que alguém inventou. Mas eu acredito que aconteceu.

Rato estava escutando com os olhos queimando. Ele tinha ficado todo aquele tempo roendo suas unhas, como era o seu mau hábito quando estava agitado ou zangado.

― Sabe o quê?! ― ele exclamou de repente. ― Deixe-me contar o que aconteceu. Era algum Maranovitch que tentou matá-lo. Eles queriam matar seu pai para fazer o homem deles ser rei e sabiam que as pessoas não iram aceitar isso se o jovem Ivor estivesse vivo ainda. Eles o esfaquearam nas costas, aqueles malvados! Suponho que ouviram o pastor se aproximando e deixaram-no pensando que estava morto e correram.

― Isso, é isso mesmo! Mais era isso que conteceu! ― os moleques gritaram. ― Cê tá certo Rato!

― Quando melhorou, ― Rato continuou agitadamente ainda mordendo suas unhas, ― ele não conseguiu voltar. Ele era somente um menino. Aquele outro homem foi coroado e seus seguidores sentiram que estavam fortes porque acabaram de conquistar o país. Ele não poderia fazer nada sem montar um exército e era muito jovem para montar um. Talvez pensou que esperaria até que fosse velho o suficiente para saber o que fazer. E suponho que foi procurar um trabalho como se nunca tivesse sido um príncipe. Então talvez tenha se casado com alguém e teve um filho e lhe falou como um segredo quem ele realmente era e tudo sobre Samávia.

O Rato começou a ter um olhar vingativo. ― Se eu fosse ele falaria para o meu filho não esquecer o que os Maranovitch tinham feito para mim. Eu iria lhe falar que se eu não conseguisse ser rei de novo, ele deveria ver o que poderia fazer quando se tornasse um homem. E eu iria fazê-lo prometer que, se ele pegasse de novo o trono, iria torturar e matar todos os que estivessem reinando antes e também os filhos deles e os filhos dos filhos deles. Também iria fazê-lo prometer que mataria todos os Maranovitch que estavam vivos na época. Se ele não conseguisse fazer isso durante a vida dele, falaria para ele passar essa promessa para o filho dele e para o filho do filho dele, contanto que ainda existisse um Fedorovitch vivo na terra. Você não faria o mesmo? ― ele demandou entusiasmado para Marco.

O sangue de Marco também estava quente, mas era um tipo de sangue diferente porque ele havia conversado bastante com um homem bem sensato. ― Não ― Marco respondeu lentamente. ― em que isso iria ajudar? Não teria feito nenhuma coisa boa para Samávia e não teria feito ele nenhum bem torturando e matando pessoas. É melhor mantê-los vivos e fazê-los trabalhar para fazerem coisas para o país. Se você é um patriota, você pensa no país como um todo. ― Marco queria adicionar “É isso que o meu pai fala”, mas não falou.

― Primeiro os tortura para depois ajudarem o país ― retrucou O Rato. ― O que você falaria para o seu filho se fosse o Ivor?

― Eu teria lhe falado para aprender tudo sobre Samávia, todas as coisas que reis precisam saber, por exemplo: estudar coisas sobre leis e outros países, sobre manter em silêncio, e sobre governar a si mesmo como se fosse um general comandando soldados em uma batalha para que nunca fizesse algo que não fosse de propósito ou que fosse vergonhoso depois de tudo terminado. Eu também iria pedir-lhe para falar essas mesmas coisas para o seu filho e filho do filho. Assim, não importa quanto tempo levará, sempre irá ter um rei se preparando para Samávia quando Samávia realmente o quiser. E seria um rei verdadeiro.

Marco parou de repente e olhou para o semicírculo. ― Eu não inventei essa história por mim mesmo. ― Marco falou. ― Eu tenho escutado um homem que lê e conhece muitas coisas falar isso. Acredito que o Príncipe Perdido teria os mesmos pensamentos. Se ele teve esse pensamento, e falou essas coisas para o seu filho, uma linhagem de reis em treinamento para Samávia tem existido por quinhentos anos e talvez um deles está andando nas ruas de Viena, Budapeste, Paris, ou Londres neste instante e estaria pronto para ajudar se o povo soubesse dele e o chamasse.

― Puxa! Espero que chama! ― um gritou.

― Seria extraordinário saber um segredo todo o tempo quando ninguém mais sabe ― O Rato falou com sigo mesmo ― você é um rei e deveria estar no trono usando uma coroa. Será que isso faria um rapaz parecer diferente?

Ele riu sua risada aguda e de repente virou para Marco.

― Mas ele seria um tolo se não mostrasse vingança. Qual é seu nome?

― Marco Loristan. Qual é o seu? Não é O Rato, né?

― Jem RATcliffe.3 Bem similar. Onde você mora?

― Philibert Place N° 7

― Isso é um clube de soldados. ― O Rato falou. ― É chamado de Pelotão. Eu sou o capitão. ‘Tenção, meus amigos! Vamos mostrar para ele.

O semicírculo levantou rapidamente. Havia um total de doze rapazes e quando levantaram Marco percebeu que estavam acostumados de obedecer à voz de comando com precisão militar.

― Alinhem-se! ― ordenou o Rato.

Eles fizeram isso imediatamente e seguraram suas costas e pés retos e suas cabeças levantadas impressionantemente bem. Cada um pegou uma das madeiras que estavam empilhadas como armas.

O próprio Rato ficou sentado retamente na sua plataforma. Havia algo até militar na maneira que levava seu corpo. Sua voz perdeu a agudez e tornou-se uma voz de comandante.

Ele fez aqueles doze rapazes fazer manobras como se fosse um jovem comandante esperto. E as manobras eram rápidas e espertas que soldados já treinados iriam ficar impressionados. Isso fez Marco involuntariamente ficar em pé numa maneira mais reta e olhar com interesse.

― Muito bom! ― Marco exclamou quando estava tudo terminado. ― Como você aprendeu isso?

O Rato fez um gesto meio selvagem. ― Se eu tivesse pernas para ficar em pé seria um soldado! ― ele falou. ― Eu teria me alistado em um regimento que iria me aceitar. Não tenho interesse em mais nada.

De repente sua face mudou e gritou uma ordem para seus seguidores. ― Vira volta! ― ele ordenou.

E eles viraram suas costas e olharam pela grade do velho cemitério. Marco viu que estavam obedecendo uma ordem que não era nova para eles. O Rato tinha levantado seus braços cobrindo seus olhos e os segurou lá por vários momentos. Marco também virou suas costas como o resto tinha feito. Aí Marco percebeu que O Rato não estava chorando, mas estava sentindo algo que qualquer outro menino possivelmente não teria aguentado.

― OK! ― ele gritou e abaixou seu braço com mangas esfarrapadas, sentando reto de novo. ― Quero ir para guerra! ― ele falou roucamente. ― Quero lutar! Quero guiar bastantes homens para batalha! Mas não posso usar minhas pernas. Algumas vezes elas tiram o coração de batalha de mim.

― Você ainda não cresceu! ― Marco disse. ― Você talvez vai ficar mais forte. Como que alguém consegue saber o que vai acontecer? Como que você aprendeu a manobrar o clube?

― Eu gasto meus dias perto de quartéis. Eu olho e escuto. Sigo soldados. Se conseguisse pegar livros, iria ler tudo sobre guerras. Não posso ir a bibliotecas como você. Não posso fazer nada a não ser brigar como um rato.

― Eu posso te levar às bibliotecas ― Marco disse. ― Tem alguns lugares onde meninos podem entrar. E posso pegar alguns papéis do meu pai.

― Você pode? ― O Rato disse. ― Você quer fazer parte do clube?

― Sim! ― Marco respondeu. ― Vou falar com meu pai sobre isso.

Marco falou isso porque o anseio profundo por companheirismo na sua própria mente havia achado um tipo de resposta no olhar ansioso do Rato. Queria vê-lo de novo. A estranha criatura que ele era tinha algo de atrativo. Correndo de um lado para o outro nessa baixa plataforma com rodas, tinha atraído esse grupo de moleques a ele e tinha se tornado o comandante deles. Eles o obedeciam e escutavam suas histórias e erupções sobre guerra e soldados; deixaram-no manobrar e dar ordens. Marco sabia que quando falasse ao seu pai sobre ele, iria ficar interessado. O menino queria ouvir o que Loristan iria dizer.

― Vou para casa agora ― Marco falou. ― Se você vai estar aqui amanhã, vou tentar vim.

― Vamos estar aqui ― respondeu O Rato. ― É o nosso quartel.

Marco se levantou e fez sua continência como para um oficial superior. Então deu meia volta e marchou pela arcada e o som dos seus passos de menino eram regulares e decididos como se fosse um homem num regimento.

― Ele tem sido treinado também ― O Rato disse. ― Ele sabe o tanto quanto eu sei.

E sentou reto e ficou de olhos fixos nele com novo interesse.

1“Cockney” é um termo usado para referir-se a classe trabalhadora de pessoas que moravam na região leste de Londres. Os amigos do Rato são Cockneys, porém ele mesmo não é. Os Cockneys falam com um sotaque distinto do inglês falado normalmente em Londres. Para refletir este sotaque distinto dos Cockneys na tradução tentamos usar um linguajar mais de rua. Back

2Alguém de uma classe mais alta, mais rico. Um janota. Back

3As primeiras três letras do sobrenome do Rato formam a palavra “rat”, que significa “rato” em português. Back

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