"CIDADES E FACES"

1915

“Cidades e Faces”

As horas inexplicáveis nas quais Marco ficara ausente foram terríveis para Loristan e para Lázaro. Eles tinham razões para ter medo que não eram possíveis de expressar. Enquanto a noite se aproximava, os medos aumentaram. Eles esqueceram da existência do Rato, que se sentou roendo as unhas no quarto, com medo de sair porque não queria perder a chance de ser encarregado de alguma missão, mas também com medo de se apresentar porque poderia parecer que estava se intrometendo. ― Vou ficar lá em cima. ― ele dissera para Lázaro. ― Se você apenas der um assovio, eu virei.

A angústia que ele sentia com o passar do dia e com o passar de Lázaro para dentro e para fora, ele próprio sem receber nenhuma ordem, não poderia ser expressa em palavras comuns. Ele contorcia-se em sua cadeira, roía as unhas até o sabugo, ele entrara em um frenesi de miséria e terror recordando um por um todos os crimes que havia no tribunal de polícia de Londres que sua mente lhe fornecia. Ele não estava fazendo nada, porém não ousava deixar seu posto. Era seu posto afinal de contas, embora eles não lhe tivessem dado. Ele devia fazer alguma coisa.

No meio da noite Loristan abriu a porta da sala dos fundos, porque sabia que devia de qualquer forma subir e jogar-se na cama, mesmo que não conseguisse dormir.

Ele foi surpreendido pelo que viu ao abrir a porta. O Rato estava sentado aninhado no chão perto da porta, encostado na parede. Ele tinha um pedaço de papel em sua mão e sua face torcida era uma coisa estranha de se ver.

― Por que você está aqui? ― Loristan perguntou.

― Faz três horas que estou aqui, senhor. Eu sabia que qualquer hora você sairia e pensei que me deixaria falar com você. Você vai deixar – vai deixar?

― Entre no quarto. ― disse Loristan. ― Vou ouvir qualquer coisa que tenha a dizer. O que você esteve desenhando nesse papel? ― ele falou, enquanto O Rato levantava do modo maravilhoso que ele havia treinado. O papel estava coberto de linhas, o que mostrava que era mais um de seus planos.

― Por favor dê uma olhada nele. ― ele implorou. ― Eu não ouso sair, porque você pode querer me mandar para algum lugar. E não ouso ficar sentado sem fazer nada. Comecei a me lembrar de coisas e a estudá-las. Eu anotei todas as ruas e quadras onde ele PODERIA ter andado no caminho para casa. Não deixei escapar nenhuma. Se você me deixar partir e andar por todas elas e falar com os policiais de ronda e olhar nas casas – e estudar as coisas e examiná-las – não vou deixar escapar nem um centímetro, nem um tijolo, nem uma pedra da calçada… vou… ― sua voz tinha um som firme, mas tremeu, e ele mesmo também tremeu.

Loristan tocou seu braço levemente. ― Você é um bom camarada. ― ele disse. ― É bom para nós que você esteja aqui. Você pensou em uma boa coisa.

― Posso ir agora? ― disse O Rato.

― Neste momento, se estiver pronto. ― foi a resposta. O Rato disparou até a porta.

Loristan disse a ele uma coisa que foi como um repentino clarão de uma grande luz no centro de seu ser. ― Você é um de nós. Agora que sei que você está fazendo isso, posso até dormir. Você é um de nós. E foi por estar seguindo esse plano que O Rato virara na Rua Brandon Terrace e ouvira a música samaviana vindo do porão trancado do Número 10.

― Sim, ele é um de nós. ― Loristan disse, quando contou essa parte da história para Marco, enquanto estavam sentados perto do fogo. ― Eu não tinha certeza antes. Queria ter certeza absoluta. Na noite passada eu olhei para a parte mais íntima dele e TIVE CERTEZA. Podemos confiar nele.

A partir daquele dia O Rato ocupou um novo lugar. O próprio Lázaro, estranhamente, não se ressentiu com a nova posição. Foi permitido ao menino ficar perto de Loristan como ele nunca ousara ter esperança de ficar. Não que foi meramente permitido servi-lo de muitas maneiras, mas foi também levado para dentro da intimidade que antes incluía apenas os três. Loristan falava com ele do mesmo modo que falava com Marco, puxando-o para dentro do círculo que retinha tanto que era compreendido sem palavras. O Rato sabia que estava sendo treinado e observado e percebera isso com entusiasmo. Aquele homem, que estava se tornando mais e mais como um pai para ele, dissera que ele era “um deles”. Ele o estava observando e colocando-o em teste, para poder descobrir o quanto O Rato era um deles. E estava fazendo isso por alguma razão própria muito importante. Esse pensamento apoderou-se de toda a mente do Rato. Talvez estivesse querendo saber se ele descobriria que poderia confiar nele, como se pode confiar em uma rocha. Até mesmo pensar que ele poderia talvez constatar que O Rato era como uma rocha, era uma boa inspiração.

― Senhor, ― ele disse numa noite quando estavam juntos sozinhos, porque O Rato ficara copiando um mapa de ruas. Sua voz estava muito baixa ― você acha que… algum dia… poderá confiar em mim como confia em Marco? Será que vai ser assim… algum dia?

― A hora chegou, ― e a voz de Loristan estava quase tão baixa quanto do próprio Rato, embora forte e profundo sentimento revestisse sua calma ― a hora em que posso confiar em você para ficar com Marco chegou – para ser o companheiro dele – para cuidar dele, para ficar ao lado dele em todos os momentos. E Marco – Marco é meu filho. ― Isso fora o suficiente para elevar O Rato aos céus. Mas havia mais em seguida.

― Pode não demorar muito o tempo que será sua parte de fazer trabalho em que precisará de um camarada em quem possa confiar – como uma rocha pode ser confiado. ― Ele dissera as mesmas palavras que ocorreram na própria mente do Rato.

― Uma Rocha! Uma Rocha! ― o menino explodiu. ― Vou mostrar para você, senhor. Me mande com ele como um servo. As muletas não são nada. Você viu que elas são tão boas quanto pernas, não viu? Eu me treinei.

― Eu sei, eu sei, querido camarada. ― Marco contara a ele tudo sobre isso. Ele deu-lhe um gracioso sorriso que deu a impressão de possuir algum tipo de segredo distinto ― Você irá como o ajudante-de-campo7 dele. Isso será parte do jogo.

Ele sempre encorajara “o jogo”, e durante as últimas semanas ele até mesmo achara tempo para ajudá-los em seus planos para a misteriosa viagem dos Dois Secretos. Ele ficara tão interessado que algumas vezes recorria a Lázaro como um velho soldado e samaviano para que desse suas opiniões sobre certas rotas – e sobre os costumes e hábitos das pessoas nas cidades e vilarejos que ficavam no caminho. Aqui eles achariam simples povos pastores que dançavam e cantavam depois do dia de trabalho, e que contariam tudo o que sabiam; ali eles achariam aqueles que serviam ou que temiam os Maranovitch e que não conversariam de forma alguma. Em um lugar eles se encontrariam com hospitalidade, em outro com suspeita hostil de todos os desconhecidos. Através de conversas e de histórias, O Rato começou a conhecer o país quase como Marco o conhecia. Isso era parte do jogo também – porque era sempre de “o jogo” que chamavam. Outra parte era o treinamento da memória do Rato, e trazendo para casa suas provas de progresso à noite quando retornava de sua caminhada, podia descrever, ou recitar, ou rudimentarmente esboçar tudo o que vira em sua passagem de um lugar para outro. A parte de Marco era recordar as faces e esboçá-las. Uma noite Loristan deu-lhe diversas fotografias de pessoas para pôr na memória. Abaixo de cada face estava escrito o nome de um lugar.

― Estude essas faces. ― ele disse. ― Até que você possa reconhecer cada uma delas imediatamente onde quer que a encontre. Fixe-as em sua mente, para que seja impossível esquecê-las. Você deve ser capaz de esboçar qualquer uma delas e recordar a metrópole ou a cidade ou a vizinhança relacionada a ela.

Até mesmo isso ainda era chamado de “o jogo”, mas Marco começou a saber lá dentro do seu coração que isso era muito mais, e sua mão algumas vezes tremia de excitamento ao fazer seus esboços vez após vez. Fazer cada um muitas vezes era a melhor maneira de fixá-lo em sua memória. O Rato sabia, também, embora não tivesse razão para saber, mas apenas instinto. Ele costumava deitar-se à noite pensando sobre isso e relembrando o que Loristan dissera sobre o tempo próximo quando Marco poderia precisar de um camarada em seu trabalho. O que seria o trabalho dele? Deveria ser alguma coisa como “o jogo”. E eles estavam sendo preparados para isso. E embora Marco muitas vezes ficasse deitado acordado em sua cama enquanto O Rato ficava deitado acordado em seu sofá, nem um dos dois falava com o outro sobre as coisas que sua mente ponderava. E Marco trabalhava como nunca trabalhara antes. O jogo era muito empolgante quando ele podia provar sua destreza. Os quatro se juntavam à noite na sala dos fundos. Lázaro era obrigado a ficar com eles porque um segundo juiz era necessário. Loristan mencionava o nome de um lugar, talvez uma rua em Paris ou um hotel em Viena, e Marco fazia imediatamente um rápido esboço da face cuja fotografia possuía o nome da localidade escrito embaixo. Não demorou muito para que começasse o esboço sem mais do que um momento de hesitação. E mesmo quando isso se tornara o caso, eles ainda faziam o jogo noite após noite. Havia um grande hotel perto do Place de la Concorde em Paris, do qual Marco sentiu que nunca ouviria o nome durante toda a sua vida sem levantar-se em sua visão mental uma mulher alta com olhos pretos, penetrantes, e com a parte superior do nariz saliente sobre o qual as fortes sobrancelhas quase se encontravam. Em Viena havia um palácio que sempre traria de volta imediatamente um homem pálido de face fria com uma cabeleira loira que caia sobre sua testa. Uma certa rua em Munique era relacionada a um velho nobre robusto com um sorriso astuto; em uma aldeia em Baviera, um camponês com um semblante vago e simples. Um homem com cabelos macios e ondulados que parecia um cabeleireiro trazia à mente um lugar em uma cidade montanhosa austríaca. Ele conhecia-os todos como conhecia sua própria face e Philibert Place nº7.

Mas ainda noite após noite o jogo continuava.

Então veio uma noite quando, de um sono profundo, ele foi acordado por Lázaro o tocando. Ele estivera por tanto tempo secretamente pronto para responder a qualquer chamado que se sentou ereto na cama com o primeiro toque.

― Vista-se rapidamente e vá lá para baixo. ― Lázaro disse. ― O Príncipe está aqui e deseja falar com você. ― Marco não deu resposta mas saiu da cama e começou a se vestir.

Lázaro tocou O Rato. O Rato estava tão pronto quanto Marco e sentou-se aprumado como ele fizera.

― Venha com o jovem Mestre. ― ele comandou. ― É necessário que você seja visto e que falem com você. ― E tendo dado a ordem ele saiu.

Ninguém ouviu os pés descalços dos dois meninos ao descerem as escadas nas pontas dos pés.

Um homem de idade vestido com roupas comuns, mas com uma face inconfundivelmente familiar, estava sentado, silenciosamente conversando com Loristan, que com um gesto chamou os dois à frente.

― O Príncipe esteve muito interessado no que lhe contei sobre o jogo. ― ele disse em sua voz mais baixa. ― Ele deseja vê-lo fazer seus esboços, Marco.

Marco olhou diretamente nos olhos do Príncipe a quem ele antes dera o sinal, e que mantinha os olhos fixos atentamente em Marco enquanto ele fazia sua reverência. ― Vossa Alteza me dá a honra. ― ele disse, assim como seu pai teria falado. Ele foi para a mesa imediatamente e pegou de uma gaveta seus lápis e pedaços de papelão.

― Eu deveria saber que ele era seu filho e um samaviano. ― o Príncipe comentou.

Então seus olhos penetrantes, profundos e firmes viraram-se para o menino com muletas.― Esse, ― disse Loristan. ― é o que se chama de O Rato. Ele é um de nós.

O Rato fez continência. ― Por favor diga a ele, senhor, ― ele falou em voz baixa. ― que as muletas não têm importância.

― Ele treinou-se para conseguir fazer atividade extraordinária . ― Loristan disse. ― Ele pode fazer qualquer coisa. Os olhos penetrantes ainda estavam observando O Rato.

― Elas são uma vantagem. ― disse o Príncipe finalmente.

Lázaro construíra um cavalete leve e rústico que Marco usava para fazer seus esboços quando faziam o jogo. Lázaro estava de pé cerimoniosamente perto da porta, e veio à frente, trouxe o cavalete do canto em que ficava, e organizou o material de desenho sobre ele. Marco ficou perto do cavalete e aguardou o consentimento de seu pai e seu visitante. Eles estavam falando juntos em voz baixa e ele esperou vários minutos. O que O Rato percebeu foi o que ele já tinha percebido antes: que o grande menino podia ficar de pé imóvel em perfeita naturalidade e silêncio Não era necessário para ele falar coisas ou fazer perguntas, não olhava para as pessoas como se sentisse impaciente se elas não falassem com ele ou não o notassem. Ele não parecia exigir atenção, e O Rato sentiu vagamente que, jovem como era, essa verdadeira liberdade de qualquer ansiedade para ser visto ou para que se dirigissem a ele de algum modo o fazia um grande cavalheiro.

Loristan e o Príncipe avançaram para onde ele estava. ― L’Hotel de Marigny. ― Loristan disse.

Marco começou a esboçar rapidamente. Ele começou o retrato da mulher com a parte superior do nariz saliente e com as sobrancelhas que quase se encontravam. Enquanto ele fazia isso, o Príncipe se aproximou e observou o trabalho por cima dos ombros dele. Não demorou muito e, quando estava pronto, o inspetor virou-se, e depois de dar a Loristan um longo e estranho olhar, acenou com a cabeça duas vezes.

― É uma coisa extraordinária. ― ele disse. ― Nesse esboço rústico ela não seria confundida.

Loristan inclinou sua cabeça. Então mencionou o nome de mais outra rua em outro lugar – e Marco esboçou de novo. Dessa vez era o camponês com a face simples. O Príncipe curvou-se novamente. Então Loristan deu mais outro nome, e depois outro e outro, e Marco fez seu trabalho até que chegou ao fim, e Lázaro ficou perto com a mão cheia de esboços dos quais ele silenciosamente se encarregou enquanto cada um era posto de lado.

― Você reconheceria essas faces onde quer que as visse? ― disse o Príncipe. ― Se você passasse por uma na rua Bond ou na estrada Marylebone, reconheceria imediatamente?

― Do mesmo modo que reconheço a sua, senhor. ― Marco respondeu.

Então seguiu-se um número de perguntas. Loristan fez as perguntas como sempre fizera antes. Eram questões sobre a altura e forma das pessoas originais das figuras, sobre a cor dos cabelos e olhos, e suas aparências faciais. Marco respondeu todas. Ele sabia tudo, exceto os nomes dessas pessoas, e claramente não era necessário para ele saber isso, já que seu pai nunca os mencionara.

Depois de acabado o interrogatório o Príncipe apontou para O Rato, que inclinara-se sobre suas muletas contra a parede, seus olhos ferozmente ansiosos como os de um furão.

― E ele? ― o Príncipe disse. ― O que ele sabe fazer?

― Deixe-me tentar. ― disse O Rato. ― Marco sabe.

Marco olhou para seu pai. ― Posso ajudá-lo a mostrá-los? ― ele perguntou.

― Sim. ― Loristan respondeu, e então, ao virar-se para o Príncipe, ele disse de novo em sua voz baixa: ― ELE É UM DE NÓS.

Então Marco começou uma nova forma do jogo. Ele segurou uma das faces retratadas diante do Rato, e O Rato dava o nome imediatamente da cidade e local relacionado com ela, ele detalhava a cor dos olhos e do cabelo, a altura, a estrutura física, todos os detalhes pessoais como o próprio Marco detalhara. A isso ele adicionava descrições das cidades, e locais relativos ao sistema policial, aos palácios, às pessoas. Sua face se contorcia, seus olhos queimavam, sua voz tremia, mas ele era surpreendente em sua prontidão de resposta e sua exatidão de memória.

― Não sei desenhar. ― ele disse no fim. ― Mas posso recordar. Não queria que ninguém se incomodasse em pensar que eu estava tentando aprender isso. Até então apenas Marco sabia. ― Isso ele disse a Loristan com apelo em sua voz.

― Foi ele quem inventou “o jogo”, ― disse Loristan. ― Eu mostrei a você os estranhos mapas e planos dele.

― É um bom jogo. ― o Príncipe respondeu do modo de um homem extraordinariamente interessado e impressionado. ― Eles conhecem tudo muito bem. Eles podem ser confiados.

― Nunca se fez uma coisa assim. ― Loristan disse. ― É tão novo quanto arriscado e simples.

― Torna-se mais seguro por causa disso. ― o Príncipe respondeu.

― Talvez apenas meninos ― disse Loristan ― ousariam imaginar isso.

― O Príncipe agradece-lhes. ― ele disse depois de mais algumas palavras ditas de lado com seu visitante. ― Nós dois agradecemos. Podem voltar para suas camas. ― E os meninos foram imediatamente.

7Palavra originária do francês "aide-de-camp" é um assistente a um oficial militar de alto poder. Outra palavra comumente usado no português é um ajudante-de-ordens. Back

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