AS MANOBRAS E O PARTIDO SECRETO

1915

As Manobras e o Partido Secreto

Loristan não proibiu Marco de continuar conhecendo O Rato e seus seguidores.

― Você vai saber por si mesmo se eles realmente são seus amigos ou não ― ele disse ― Você vai saber em alguns dias, e aí você pode fazer sua própria decisão. Você conhece meninos em vários países e você os julga bem, eu acho. Mesmo que eles só tenham doze anos, você logo saberá se vão se tornar HOMENS ou irão permanecer meros moleques. E o Rato, como que ele aparenta ser para você? E seus olhos profundos olharam com questionamento.

― Ele seria um soldado corajoso se conseguisse ficar em pé ― Marco respondeu, pensando como ele era ― Mas talvez ele fosse um pouco cruel.

― Um menino que talvez seria um soldado corajoso não pode ser desprezado, mas um homem cruel é um estúpido. Fale isso para ele por mim, ― Loristan respondeu. ― Ele desperdiça força, sua própria e a força daquele que ele trata cruelmente. Somente um tolo desperdiça força.

― Posso mencionar você algumas vezes? ― perguntou Marco.

― Sim. Você saberá como. Você vai se lembrar das coisas sobre as quais silêncio ainda é a ordem.

― Eu nunca as esqueci ― disse Marco. ― Eu tenho tentado não esquecê-las já há um bom tempo.

― Você tem se lembrado bem, Camarada! ― retornou Loristan da sua escrivaninha, onde tinha ido e onde estava revirando papéis.

Um grande impulso dominou o menino. Ele marchou até a mesa e ficou de pé bem reto, fazendo sua continência como um jovem soldado, sua face estava ardente.

― Pai! ― ele disse ― você não sabe o tanto que te amo! Eu gostaria que você fosse um general e eu poderia morrer na batalha por você. Quando olho para você, anseio muito em fazer algo para você que um menino não seria capaz de fazer. Iria morrer com mil feridas antes de te desobedecer, ou Samávia!

Ele segurou a mão de Loristan e ajoelhou-se com um joelho no chão e a beijou. Um menino Inglês ou Brasileiro não conseguiria fazer tal coisa com tanta naturalidade como Marco fez. Mas ele tinha sangue de um Samaviano.

― Eu fiz meu juramento de fidelidade para você, Pai, quando eu também fiz para a Samávia. Você mesmo parece como se fosse Samávia também ― ele disse e beijou sua mão de novo.

Loristan virou para ele com um movimento que era cheio de dignidade e graça. Marco, olhando para ele, sentiu que sempre havia uma certa magnificência distante nele que fazia parecer bem natural de qualquer um dobrar seu joelho e beijar sua mão.

Um olhar carinhoso brilhou na face do seu pai ao levantar o seu menino e colocar sua mão nos seus ombros. ― Camarada ― ele disse ― você não sabe o tanto que eu amo você e a razão porque precisamos amar um ao outro! Você não sabe como eu tenho olhado você e agradecido a Deus cada ano que aqui crescia um homem para Samávia. Disso tenho certeza que é… um HOMEM, mesmo que você só tenha vivido por doze anos. Doze anos podem fazer crescer um menino para um homem ou provar que nunca vai se tornar um homem e será somente um ser humano que viverá na terra por noventa anos. Esse ano talvez seja cheio de coisas estranhas para nós dois. Não podemos saber O QUE eu vou precisar pedir de você fazer por mim e para Samávia. Talvez algo que nenhum menino de doze anos tenha feito antes.

― Toda noite e manhã ― Marco disse ― Vou orar para que possa ser chamado para fazer essa coisa, e que possa fazê-la bem.

― Você fará um bom trabalho, Camarada, se for chamado. Isso posso jurar ― Loristan lhe respondeu.

O Pelotão já tinha se juntado naquele lugarzinho fechado atrás do cemitério quando Marco apareceu no final da passagem arcada. Os meninos estavam na posição de sentido com seus rifles, mas todos tinham um olhar exclusivo e taciturno. A explicação que entrou na mente de Marco era que isso acontecia porque O Rato estava com um mau humor. O Rato estava sentado todo curvado na sua plataforma, mordendo suas unhas com raiva, seus ombros estavam apoiados nos seus joelhos e sua face estava toda torcida com uma terrível carranca. Ele não olhou ao seu redor nem levantou sua cabeça dos paralelepípedos da rua em que seus olhos estavam fixos.

Marco procedeu com um passo militar e parou no lado oposto do Rato e fez sua continência.

― Desculpe pelo atraso, senhor ― ele disse, como se fosse um soldado raso conversando com seu coronel.

― É ele Rato! Ele chegô, Rato! ― o Pelotão gritou ― Olhe pra ele!

Mas O Rato não levantou sua cabeça, e nem se mexeu.

― O que houve? ― Marco disse com menos cerimônia do que um soldado raso teria mostrado ― Não há razão de eu vir aqui se você não me quer.

― Ele tá’ aborrecido porque ‘cê chegô tarde! ― gritou o que estava na frente da linha. ― Não dá pra fazê nada quando ele tá aborrecido.

― Não vou tentar fazer nada ― disse Marco, seu rosto jovem fixando em determinação. ― Não foi isso que vim fazer. Vim para fazer as manobras. Estava com meu pai. Ele é sempre primeiro. Não posso fazer parte do Pelotão se ele não for o mais importante. Não estamos no serviço ativo militar, nem estamos em quartéis.

Ai O Rato levantou sua cabeça e virou para ele.

― Pensei que nem viria! ― ele resmungou de repente ― Meu pai disse que não viria. Ele disse que você era um jovem riquinho. Ele falou que seu pai se achava rico mesmo só ganhando um centavo por linha que escrevia nos jornais e não iria deixá-lo fazer parte com um moleque de rua. Ninguém implorou a você para fazer parte. Eu não me importo com o que seu pai pensa!

― Não fale deste jeito sobre meu pai ― Marco disse calmamente ― porque não posso te derrubar.

― Vou me levantar e deixar! ― começou O Rato, que estava branco e com raiva ― Posso me levantar com dois paus. Vou levantar e deixar!

― Não, não irá fazer isso. ― disse Marco ― Se quer saber o que meu pai disse, posso te falar. Ele disse que eu poderia vir sempre que quisesse até eu descobrir se vamos ser amigos ou não. Ele disse que vou descobrir isso por mim mesmo.

Foi algo bem estranho que Rato fez. Precisa ser lembrado sempre de que o pai vil do Rato, o qual tinha afundando cada ano mais e mais em pecado, havia sido um cavalheiro, um homem que era familiarizado com bons costumes e tinha sido educado em boas maneiras. Às vezes ele conversava com O Rato sobre muitas coisas que ele nunca iria saber de outra maneira. Era por isso que ele era diferente dos outros moleques. E também, por causa disso que de repente ele mudou a situação inteira fazendo essa coisa estranha e inesperada. Ele mudou totalmente sua expressão e voz, fixando seus olhos perspicazes astutamente em Marco. Era quase como um enigma. O Rato sabia que seria um enigma para a maioria dos meninos cuja classe externamente ele aparentava ser parte. Marco poderia saber a resposta ou não.

― Rogo pelo seu perdão ― O Rato disse.

Esse era o enigma. Um cavalheiro ou um oficial diria isto, se tivesse sentido que estava errado ou se que fora rude. O Rato tinha escutado isso do seu pai.

― E eu rogo pelo seu por ter me atrasado ― Marco disse.

Essa era a resposta correta. Essa resposta era o que outro oficial ou cavalheiro teria falado também. Isso resolveu o caso na hora, e resolveu até mesmo mais do que aparentava no momento. Resolveu que Marco realmente era um daqueles que sabia as coisas que o pai do Rato no passado também sabia – coisas que cavalheiros falam e pensam. Não foi dito nada mais. Tudo estava certo. Marco entrou na linha com o Pelotão e O Rato sentou retamente com uma maneira militar e começou suas manobras:

“Pelotão!”

“Sentido!”

“Numero!”

“Ombro armas!”

“Formar quatro!”

“Direita, volver!”

“Marchar rápido!”

“Alto!”

“Esquerda, volver!”

“Ombro armas!”

“Descansar!”

“À vontade!”

Eles fizeram tão bem que chegou a ser maravilhoso, considerando o espaço limitado à disposição deles. Eles evidentemente tinham feito isso muitas vezes antes, e O Rato não era somente sábio, mas um oficial rigoroso. Essa manhã eles repetidamente fizeram essas manobras de novo e de novo e até revisaram algumas manobras que já tinham aprendido antes, que também já eram bem familiares.

― Onde que você aprendeu isso? ― O Rato perguntou quando as armas estavam empilhadas de novo e Marco estava sentado próximo dele como tinham sentado no dia anterior.

― De um velho soldado. Também gosto de olhar outras pessoas fazendo, como você também faz.

― Se você fosse parte do corpo da Guarda Britânica, não poderia fazer melhor ― O Rato disse ― A maneira que você segura seu corpo! A maneira que você fica em pé! É exatamente como um soldado verdadeiro! Gostaria de ser como você! É tão natural para você.

― Sempre gostei de olhar outras pessoas fazendo e aí tento fazer eu mesmo. Fiz isso quando era pequeno ― respondeu Marco.

― Tenho tentado treinar esses rapazes por mais de um ano ― disse O Rato ― Foi um trabalho duro! Quase fiquei doente na primeira vez que fizemos.

O semicírculo na frente dele riu às gargalhadas. Parecia que não se ofenderam nem um pouquinho com a maneira que o Rato os tratara. Evidentemente ele tinha algo para dar a eles que era divertido o suficiente para recompensar sua tirania e indiferença. Ele de repente colocou sua mão dentro do bolso no seu casaco velho e puxou de dentro dele um pedaço de jornal.

― Meu pai trouxe o pão para casa enrolado nisso ― ele disse ― Veja o que está escrito!

Ele deu para Marco, apontado para umas palavras impressas em letras grandes em cima da coluna. Marco deu uma olhada e não se mexeu. As palavras eram: “O Príncipe Perdido.”

“Silencio ainda é a ordem” foi o primeiro pensamento que entrou na mente de Marco. “Silencio ainda é a ordem”.

― O que isso significa? ― Marco disse em voz alta.

― Não resta muito do jornal. Gostaria que tivesse mais ― O Rato falou com um tom de irritação ― Leia e veja. Claro que dizem que talvez não seja verdade, mas acredito que seja. Dizem que pessoas pensam que existe alguém que sabe onde ele está, pelo menos onde um dos seus descendentes está. Seria a mesma coisa. Ele seria o rei verdadeiro. Se ele só se mostrasse, talvez pararia toda a briga. Leia.

Marco leu, e sua pele começou a formigar enquanto seu sangue percorria pelo seu corpo. Sua face, porém, não mudou. Tinha uma história curta do Príncipe Perdido no começo do jornal. Era considerado por muitas pessoas, o artigo disse, como um tipo de lenda. Agora existia um certo boato que não era uma lenda mais, mas parte da longa história passada de Samávia. Disse que por séculos sempre havia um partido secretamente leal aos descendentes desse Fedorovitch perdido. Também disse que de pai para filho, geração após geração, haviam feitos seus juramentos de fidelidade a ele e seus descendentes. As pessoas tinham colocado suas esperanças nele, e agora, por incrível que pareça, o segredo estava começando a ser aberto e algumas pessoas acreditavam que um descendente fora achado, um Fedorovitch digno do seu jovem antepassado, e que um certo Partido Secreto também proclamou que, se ele fosse trazido de volta ao trono da Samávia, as contínuas guerras iriam acabar e o derramamento de sangue iria acabar.

O Rato começou a morder suas unhas rapidamente. ― Você acha que ele realmente foi encontrado? ― perguntou agitadamente ― VOCÊ NÃO ACHA? Eu acredito!

― Onde será que está, se for verdade? Isto é o que gostaria de saber! Onde?! ― exclamou Marco. Ele podia falar isso, e poderia agir tão ansioso como se sentia.

O Pelotão começou a tagarelar todos ao mesmo tempo. ― Isso! Onde que ele tá? Não tem como sabê’. Talvez teja num desses lugares estrange’ro. A Inglaterra é muito longe da Samávia. Samávia é longe daqui? É perto da Rússia, ou da França? Talvez teja perto dos Alemão? Mas… onde quer que ‘teja, seria do tipo que pessoas parariam para olhar quando ‘tivesse na rua.

O Rato continuou a morder suas unhas.

― Ele pode estar em qualquer lugar ― Rato disse com sua face ardente ― É isso que gosto de pensar. Talvez ele esteja nas ruas ali fora, talvez more em uma dessas casas ― jogando sua cabeça para trás na direção das casas no final da rua ― Talvez ele saiba que é rei, ou talvez não. Ele saberia se o que você disse ontem é verdade, sobre um rei sempre se preparando para Samávia.

― Sim, ele saberia ― Marco adicionou.

― Bem, seria bom se ele soubesse ― continuou O Rato ― Mesmo sendo pobre e mendigo, ele saberia o segredo todo o tempo. E se pessoas zombassem dele, ele zombaria deles e riria para si mesmo. Eu acho que ele iria andar bem reto e segurar sua cabeça para cima. Se eu fosse ele, iria gostar de fazer as pessoas me respeitar um pouco mais do que o resto das pessoas ― ele esticou sua mão e puxou o Marco com empolgação ― Vamos fazer planos para ele! ― ele disse ― Isso seria um jogo esplendido! Vamos fazer de conta que somos o Partido Secreto!

Ele estava extremamente empolgado. Do seu bolso velho tirou um pedaço de giz. Ele inclinou-se para frente e começou a desenhar algo rapidamente no chão perto da sua plataforma. O Pelotão também inclinou-se quase sem fôlego, como também Marco. O giz estava desenhando rapidamente um mapa, e Marco sabia qual era antes do Rato falar.

― Isso é o mapa da Samávia ― ele disse ― Era o que estava no jornal que te comentei, aquele que li sobre o Príncipe Ivor. Eu o estudei até ele cair em pedaços. Mas consigo desenhá-lo por mim mesmo, então não tem problema. Consigo desenhá-lo com meus olhos fechados. Essa é a capital ― apontando para o lugar ― Chama-se Melzarr. O palácio está localizado ali. É o lugar onde os primeiros Maranovitch mataram o último Fedorovitch, aquele cara ruim que era pai do Ivor. É o palácio onde Ivor saiu cantando a música dos pastores naquela manhã cedo. É onde o trono está, no qual seu descendente se sentaria para ser coroado… onde IRÁ se sentar. Eu creio que ele vai! Vamos prometer que ele irá! ― Ele jogou seu pedaço de giz e sentou reto ― Me dê dois paus. Ajude-me levantar.

Dois do Pelotão rapidamente ficaram de pé e vieram até ele. Pegaram dois paus da pilha de rifles, já sabendo o que ele queria. Marco também se levantou e olhou com bastante curiosidade. Ele tinha pensado que O Rato não podia ficar de pé, mas estava parecendo que ele podia, na sua própria maneira, e ele ia fazer. Os meninos o levantaram pelos braços, o apoiaram na grade do cemitério, e colocaram um pau em cada uma das suas mãos. Eles ficaram de pé ao seu lado, mas ele estava se suportando sozinho.

― Ele poderia andá’ se tivesse pila para comprar umas muletas! ― disse um com bastante orgulho, cujo nome era Cad. Uma coisa engraçada que Marco tinha notado era que os maltrapilhos eram orgulhosos do Rato e o consideravam como seu chefe e mestre. ― Se tivesse muletas, podia ir aonde quisesse e ficá’ de pé como todos nois ― adicionou um outro, como se tivesse algo de que se orgulhar. Seu nome era Ben.

― Eu vou ficar de pé agora, e vocês também ― disse O Rato. ― Pelotão! Sentido! Você em frente ― ele disse ao Marco. Todos estavam numa linha naquele instante: retos, ombros para trás, e queixos para cima. Marco estava na frente.

― Vamos fazer um juramento ― disse O Rato ― É um juramento de fidelidade. Fidelidade quer dizer ser leal a alguma coisa, tipo um rei ou um país. O nosso quer dizer fidelidade ao Rei de Samávia. Nós não sabemos onde está, mas prometemos ser fiel a ele, lutar para ele, planejar para ele, MORRER para ele, e trazê-lo de volta ao trono! ― A maneira com que ele jogou sua cabeça para cima quando disse “morrer” foi bastante convincente ― Nós somos o Partido Secreto. Trabalharemos no escuro e iremos pegar informações, correr riscos e juntar um exército que ninguém vai conhecer até que seja forte o suficiente para de repente aparecer num sinal secreto, e derramar sobre os Maranovitch e Iarovitch tomando suas fortalezas e cidadelas. Ninguém sabe que estamos vivos. Nós somos silenciosos, coisas secretas que nunca falam alto!

Silenciosos e secretos como queriam ser, nessa ocasião, porém, falaram bem alto. Era uma ideia tão esplêndida para um jogo, tão cheia de possibilidades, que o Pelotão gritou num coro de excitação.

― Eba! ― gritaram ― Vamos fazê’ nosso juramento! Eba! Eba! Eba!

― Calem-se! ― gritou O Rato ― É assim que se faz quando se está querendo ser secreto? Vocês vão chamar a atenção das polícias, seus tolos! Olhe para ELE! ― apontando para Marco. ― Ele está fazendo a coisa certa.

Marco, de fato, não tinha feito nem um som.

― Venham cá Cad e Ben e me coloquem de volta nas minhas rodas ― o comandante disse com intensidade ― Não vou fazer o jogo. Não tem como fazer com recrutas bagunceiros e destreinados como vocês.

A linha se quebrou e todos estavam em volta dele rapidamente, implorando e ansiando. ― Ah, Rato! Nós esquecemo. É o melhor jogo que você já pensou na vida, Rato! Oh…Rato! Não fique aborrecido! Ficaremos qu’etos, Rato! É o melhor jogo de todos se escondê’ e ficá’ qu’eto. Ah, Rato! Continua!

― Continuem vocês! ― rosnou o Rato.

― Não tem ninguém entre nós que pode fazê’ isso a não sê’ você! Não tem um! Não tem outro que poderia pensar nesse jogo. Você é o único garoto que pode pensá’ nessas coisas. Foi você que pensou na ideia do Pelotão! Por isso você é o capitão!

Isso era verdade. Ele era quem podia inventar divertimento para eles, esses meninos de rua que não tinham nada. Desse vazio ele podia criar algo que os empolgava e dar-lhes algo para encher as horas vazias, inúteis, e várias vezes frias, molhadas e nebulosas. Isso que fez dele o capitão e o orgulho deles.

O Rato começou a se render, mas ainda meio relutante. Ele apontou de novo para Marco, que não tinha se mexido, mas tinha ficado em atenção.

― Olhe para ELE! ― ele disse ― Ele sabe o suficiente para ficar de pé onde é colocado até ordens serem dadas para sair da linha. Ele é um soldado, certamente não um recruta destreinado que não sabe como marchar. Ele já esteve em quartéis antes.

Quando ele terminou de falar estas palavras, concordou em continuar. ― Este é o juramento ― ele disse ― Prometemos aguentar qualquer tortura, e ficar silenciosos mesmo até a morte, mas não iremos trair nosso segredo ou nosso rei. Obedeceremos silenciosamente e em segredo. Nadaremos através de oceanos furiosos e lutaremos pelos lagos de fogo, se isso nos for ordenado. Nada irá impedir nosso caminho. Tudo que fazemos e pensamos é para o nosso país e nosso rei. Se algum de vocês tem algo para dizer, diga agora antes de tomar o juramento.

Ele viu Marco mexer-se um pouquinho, e lhe fez um sinal. ― Você ― ele disse ― Tem algo a dizer?

Marco virou para ele e fez continência. ― Aqui estão dez homens para Samávia. Deus seja louvado! ― ele disse. Ele pelo menos queria dizer isso, e sentiu como se seu próprio pai tivesse dito que eram as palavras certas.

Rato pensou que eram ótimas. De alguma maneira Marco sentiu que aquelas palavras o tocaram. Ele se avermelhou com uma emoção repentina.

― Pelotão! ― ele disse ― Vou deixar vocês darem três gritos para aquelas palavras, mas será a última vez. Vamos ficar silenciosos daí em diante.

E para o exultante alívio do Pelotão o Rato começou os aplausos e eles foram permitidos gritar o tanto que quisessem. Eles gostavam disso, e quando tudo se acalmou de novo, estavam prontos para trabalhar.

O Rato começou o drama imediatamente. Nunca em todos esses anos alguém já ouvira um cochicho de um conspirador tão profundo quanto o dele.

― Amigos Secretos ― ele disse ― é meia-noite. Encontramo-nos no escuro total. Nunca durante o dia. Quando nos encontramos de dia, fazemos de conta que não nos conhecemos. Estamos se reunindo agora numa cidade Samaviana onde existe uma fortaleza. Vamos precisar derrotá-la e entrar em ação quando o sinal secreto for dado. Estamos preparando tudo para que, quando acharmos o rei, o sinal secreto possa ser dado.

― Qual é o nome da cidade em que estamos? ― sussurrou Cad.

― Chama-se Larrina. Ela tem um porto bem importante. Devemos tomar conta do porto assim que entramos em ação. A próxima vez que nos encontramos vou trazer uma lanterna e desenhar um mapa para mostrar a vocês.

Seria de grande vantagem para o jogo se Marco pudesse desenhar para eles um mapa que ele muito bem sabia como fazer; um mapa que teria mostrado cada castelo – cada fortaleza e cada lugar onde tinha menos soldados. Como ele era uma criança, sabia a alegria que traria em cada coração presente, como eles iriam olhar aquele mapa e ter pergunta em cima de pergunta, apontado pra lá e pra cá. Marco sabia como desenhar o mapa antes de ter dez anos e o havia desenhado de novo e de novo porque seu pai às vezes lhe falava que tinham ocorrido mudanças. Ah, sim, ele poderia desenhar um mapa que deixaria todos agitados de alegria. Mas ele sentou-se calmamente e escutou, somente falando quando perguntava algo, como se ele não soubesse mais sobre Samávia que O Rato. Que Partido Secreto eram! Eles se ajuntavam todos em círculos bem próximos; falavam em sussurros misteriosos.

― Um guarda deve ser colocado no final da passagem ― Marco sussurrou.

― Ben, vá com sua arma! ― comandou O Rato.

Ben levantou secretamente, e, colocando a arma no ombro, foi nas pontas dos pés até o final da passagem e lá ficou de guarda.

― Meu pai disse que um Partido Secreto em Samávia existe há cem anos ― Rato sussurrou.

― Quem lhe disse? ― perguntou Marco.

― Um homem que esteve em Samávia ― respondeu O Rato ― Ele disse que era o Partido Secreto mais maravilhoso do mundo porque tem trabalhado e esperado por tanto tempo e nunca desistiu, embora não exista nenhuma razão para ter esperança. O partido secreto começou com pastores e carvoeiros. Eles se juntaram por um juramento de achar o Príncipe Perdido e trazê-lo de volta para o trono. Eles eram poucos demais para fazer algo contra os Maranovitch, e quando os fundadores do partido perceberam que estavam envelhecendo, fizeram seus filhos tomar o mesmo juramento. Isso tem se passado geração após geração e em cada geração o grupo tem crescido. Ninguém realmente sabe o tamanho, mas dizem que existem pessoas em quase todos os países da Europa que pertencem a ele em pleno silencio e estão prontos para ajudar quando forem chamados. Estão somente esperando. Algumas são ricas que irão dar dinheiro, e outros são pobres que vão ir de fronteira para fronteira para lutar ou ajudar contrabandeando armas. Eles até dizem que por todos esses anos armas têm sido fabricadas em cavernas nas montanhas e escondidas lá ano após ano. Há homens que são chamados Forjadores da Espada, e eles, seus pais, seus avôs, e seus bisavôs têm sempre feito espadas e as guardado em cavernas que ninguém conhece escondidas de baixo do chão.

Marco falou em voz alta o pensamento que entrou na sua mente ao escutar, um pensamento que lhe trouxe medo. ― Se as pessoas nas ruas conversam sobre isso, não vai continuar um segredo por muito mais tempo.

― Meu pai disse que não é algo que muitos conversam. Somente poucos sabem, e a maioria deles pensam que é parte da Lenda do Príncipe Perdido. ― disse O Rato ― Os Maranovitch e Iarovitch riem disso. Eles têm sempre sido grande tolos. Eles estão muito cheios de si mesmos para pensar que algo possa se intrometer nos seus planos.

― Se… se você realmente quer ajudar os Samavianos, você deve sugerir ao seu pai não ficar falando para outras pessoas sobre o Partido Secreto e dos Forjadores da Espada ― sugeriu Marco.

O Rato ficou meio chocado. ― Verdade! ― ele disse ― Você é mais rápido do que eu. Não se deve tagarelar, se não os Maranovitch podem ouvir o suficiente para pararem e escutarem. Vou fazer meu pai prometer não fazer isso. Tem algo interessante sobre meu pai ― ele adicionou devagar como se estivesse repensando ― Suponho que é um pouco do coração de cavalheiro que resta nele. Se ele faz uma promessa, ele nunca a quebra.

― Então peça a ele para fazer essa promessa ― disse Marco. Então ele mudou o assunto porque parecia a melhor coisa a fazer naquele momento ― Vá e fale-nos o que nosso Partido Secreto deve fazer. Estamos esquecendo ― ele sussurrou.

O Rato começou o jogo de novo com excitamento. Era um jogo que o atraía muito porque exigia muito da sua imaginação e segurava suas audiências ligadas, além de fazer-lhe pensar sobre estratégias de guerra.

― Estamos nos preparando para a hora certa. ― ele disse ― Deve vir logo. Temos esperado por tanto tempo. As cavernas estão cheias de armas. Os Maranovitch e os Iarovitch estão lutando e gastando todos seus soldados e agora é nossa vez.

Ele parou e pensou, seus cotovelos nos seus joelhos. Começou a morder suas unhas de novo.

― O Sinal Secreto deve ser dado ― ele disse. Então parou de novo, o Pelotão segurou sua respiração e se ajuntou ainda mais ― Duas Pessoas Secretas devem ser escolhidas por sorteio e enviadas ― ele continuou; neste ponto quase que o Pelotão se estragou e trouxe desgraça sobre si mesmo novamente por querer gritar de alegria, mas pararam em tempo ― Devem ser escolhidos POR SORTEIO ― O Rato repetiu, olhando na face de cada um ― Cada um irá precisar estar disposto a dar a sua vida quando necessário. Ele talvez precise morrer mil mortes, mas ele deve ir e manter-se silencioso e se disfarçar de país para outro. Onde quer que esteja alguém que faz parte do Partido Secreto, mesmo se estiver num casebre ou num trono, os mensageiros devem ir até a pessoa e dar o sinal no escuro e secretamente. O sinal significará: A hora chegou! Deus salve Samávia!

― Deus salve Samávia! ― sussurraram o Pelotão, empolgados. E, por terem visto Marco levantar sua mão para a testa, cada um fez continência.

Eles começaram a sussurrar todos juntos.

― Vamo’ fazê’ o sorteio. Vamo’ fazê’ o sorteio, Rato, não deixa a gente esperando.

O Rato começou a olhar ao seu redor com bastante ansiedade. Parecia que estava examinando o céu.

― A escuridão não está tão densa agora ― ele sussurrou ― Meia-noite passou. A manhã do dia está próxima. Se alguém tem um pedaço de papel ou linha, nós faremos o sorteio antes de partimos.

Cad tinha um pedaço de linha e Marco tinha um canivete que poderia ser usado para cortar a linha em diferentes tamanhos. Isso O Rato mesmo fez. Então, depois que fechou os olhos e misturou as linhas, segurou-as na sua mão pronto para fazer o sorteio. ― A Pessoa Secreta que escolher a linha maior é o escolhido. E a Pessoa Secreta que escolher a linha menor é o outro escolhido, ― ele disse firmemente.

Cada menino queria pegar o menor ou o maior. Cada coração batia fortemente ao pegar seu pedaço de linha.

Quando o sorteio terminou, cada um mostrou sua linha. O Rato pegou o pedaço menor e Marco pegou o maior.

― Camarada! ― disse O Rato, dando a mão para Marco ― Enfrentaremos morte e perigo juntos!

― Deus salve Samávia! ― respondeu Marco.

E o jogo terminou por aquele dia. A melhor coisa, o Pelotão disse, que O Rato tinha inventado até então para eles: “Puxa, esse cara é o máximo!”

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