A LÂMPADA ESTÁ ACESA!

1915

A Lâmpada Está Acesa!

No seu caminho para casa, Marco não pensou em mais nada a não ser na história que ele queria contar a seu pai: a história do estrangeiro que esteve em Samávia e tinha conversado com o pai do Rato. Ele sentiu que era uma história verdadeira e não meramente uma invenção. Os Forjadores da Espada devem ser homens verdadeiros, e as cavernas escondidas subterrâneas empilhadas pelos séculos com armas devem ser verdadeiras também. E se essas coisas eram verdadeiras, certamente seu pai iria saber o segredo.

Seus pensamentos estavam correndo a mil por hora. A invenção do Rato de como o rei voltaria era somente parte de um jogo, mas, talvez em breve, o rei realmente iria voltar! Certamente existiria um rei se o Partido Secreto tivesse crescido tanto e se tantas armas e amigos secretos em outros países estivessem prontos e esperando. Durante todos esses anos, trabalho e preparação em segredo têm acontecido continuamente mesmo sendo preparação para um dia não conhecido. Um partido que tem durado por tanto tempo – que tem passado seu juramento de geração para geração – deve ter uma determinação imensa.

Quem sabe o que talvez o partido tem aprontado nas suas cavernas e reuniões secretas! Ele queria muito chegar em casa e falar para seu pai assim que pudesse, tudo que tinha ouvido. Ele relembrou na sua mente, palavra por palavra, tudo que O Rato tinha dito, e até tudo que ele mesmo tinha adicionado ao jogo, porque – bem, porque aquilo pareceu tão real que talvez seria útil.

Mas quando chegou em Philibert Place, N° 7 viu que Loristan e Lázaro estavam bem ocupados. A porta da sala de estar dos fundos estava trancada quando bateu pela primeira vez, e foi trancada de novo assim que entrou. Muitos papéis estavam na mesa, e evidentemente eles os estavam estudando. Vários deles eram mapas. Alguns eram mapas de ruas, outros mapas de vilas e cidades, e também havia algumas plantas de fortes. Todos eram mapas de lugares em Samávia. Eles eram geralmente guardados numa caixa segura, e quando eram tirados para serem estudados, as portas sempre ficavam trancadas. Antes deles jantarem, eram todos guardados na caixa segura, que era empurrada para um canto e sobre a qual jornais eram empilhados. ― Quando ele chegar ― Marco ouviu Loristan falar para Lázaro ― nós podemos mostrar-lhe claramente o que tem sido planejado. Ele pode ver por si mesmo.

Seu pai quase não falou durante o jantar e, mesmo que não fosse o hábito de Lázaro falar nessas ocasiões a não ser que alguém falasse com ele, essa noite PARECIA para Marco que ele estava com um olhar mais silencioso do que Marco tinha visto antes. Os dois, Lázaro e Loristan, estavam em pensamento profundo de coisas bem importantes. A história do estrangeiro que estava em Samávia não deveria ser contada no momento. Mas seria guardada para outra hora.

Loristan não falou nada até Lázaro ter limpado a mesa e arrumado o quarto o melhor que podia. Enquanto isto estava acontecendo, ele sentou-se com sua testa descansando nas suas mãos, como se estivesse absorvido em pensamento. Aí ele fez um gesto para Marco. ― Venha cá, Camarada ― ele disse.

Marco foi até ele.

― Hoje à noite talvez alguém venha conversar comigo sobre coisas bem importantes ― ele disse ― Acho que vai vir, mas não posso garantir. É importante que essa pessoa saiba que, quando chegar, irá me achar completamente sozinho. Ele virá bem tarde à noite, e Lázaro irá abrir a porta silenciosamente para que ninguém escute. É importante que ninguém o veja. Alguém deve andar para o lado oposto da rua até ele aparecer. Aí a pessoa que irá para dar o sinal deve atravessar a rua antes dele e dizer numa voz baixa, “A Lâmpada está acesa!” e rapidamente virar e sair.

Qual menino não pularia de alegria com o mistério disso! Até um menino comum e estúpido que não soubesse nada sobre Samávia ficaria ansioso. A voz de Marco quase tremeu com o entusiasmo quando falou.

― Como que irei identificá-lo? ― Marco disse de repente. Sem perguntar, ele sabia que era “o alguém” que deveria ir.

― Você já o viu antes ― Loristan respondeu ― Ele é o homem que estava com o Rei na carruagem.

― Então sim, certamente o reconhecerei ― disse Marco ― Quando devo ir?

― Só lá pelas uma e meia da manhã. Vá para cama e durma até Lázaro chamar. ― Aí ele adicionou: ― Olhe bem para o rosto dele antes de falar o sinal. Ele talvez não esteja vestido tão bem quanto da primeira vez que você o viu.

Marco subiu as escadas para seu quarto e foi para cama como fora ordenado, mas foi difícil ele dormir. Os ruídos da rua geralmente não o incomodavam porque tinha vivido nos lugares mais pobres de tantas capitais grandes e estava acostumado ao barulho. Mas essa noite parecia que, ao deitar-se olhando a lâmpada lá fora, ouvia cada ônibus e carro que passava. Ele não conseguia parar de pensar nas pessoas que estavam dentro deles e as pessoas com pressa andando na calçada no lado de fora do seu portão. Ele estava curiosamente pensando no que iria passar na cabeça delas se soubessem que coisas relacionadas às guerras que liam todos os dias estavam acontecendo em uma dessas casinhas pobres que quase nunca olhavam ao passar. Deveria ser algo relacionado à guerra, já que um grande diplomata e companheiro de reis viria conversar secretamente e sozinho com um patriota samaviano. Qualquer coisa que seu pai estivesse fazendo era para o bem da Samávia, e talvez o Partido Secreto soubesse o que ele estava fazendo.

Seu coração estava a mil debaixo da sua camisa ao deitar-se no colchão pensando sobre isso. Certamente ele deveria olhar bem para estrangeiro antes dele até ir em sua direção. Ele deveria ter certeza de que é o homem certo. O jogo que ele tinha brincado por tanto tempo – o jogo de tentar lembrar claramente as fotos e pessoas e lugares em detalhes – havia sido um excelente treinamento. Se ele pudesse desenhar, poderia ter feito um desenho dos seus olhos brilhantes, da sua face aquilina e esperta com uma bem cortada e delicada boca fechada, que parecia sempre estar fechada por causa de segredos – sempre. Se pudesse desenhar, ele se pegou falando isso de novo. Ele PODIA desenhar, mas talvez não com tanta precisão. Ele tinha várias vezes se divertido fazendo desenhos de coisas sobre as quais queria perguntar. Ele até desenhara, de forma básica, as faces de pessoas, e seu pai dissera que tinha um bom dom de captar aparências. Talvez pudesse fazer um desenho dessa face, o qual mostraria para seu pai que ele sabia quem esse homem era e iria reconhecê-lo.

Ele pulou da sua cama e foi para a mesa perto da janela. Um papel e um lápis estavam em cima dela. Uma lâmpada da rua que estava exatamente oposta iluminou o suficiente para que ele visse o que estava fazendo. Ele se ajoelhou perto da mesa e começou a desenhar. Ele trabalhou por uns vinte minutos sem parar, rasgando dois ou três desenhos antes de conseguir um desenho satisfatório. A simplicidade do desenho não teria importância se conseguisse captar o olhar sutil que não era de esperteza mas algo mais digno e importante. Desenhar o contorno aristocrático dos traços não era a parte mais difícil. Um homem comum com um perfil menos pronunciado teria sido, em um sentido, mais difícil de desenhar. Ele concentrou toda a sua mente para relembrar cada detalhe que tinha se fotografado na sua memória pelo seu hábito treinado. Devagarzinho ele viu que estava começando a ficar mais claro. Não demorou muito para que fosse claro o suficiente para ser um desenho maravilhoso. Qualquer um que conhecesse o homem iria reconhecê-lo.

Depois levantou, respirou fundo e sorriu. Ele não colocou seu sapato para atravessar o quarto o mais silencioso que pudesse, e sem fazer nenhum barulho abriu a porta. Ele não fez um barulhinho ao descer as escadas. A dona da pensão já estava dormindo, como também todos os outros que moravam lá e a empregada. Todas as luzes estavam apagadas exceto uma, da qual ele viu só um vislumbre de baixo da porta do quarto do seu pai. Desde nenê, a ele fora ensinado fazer um sinal especial na porta quando desejava falar com o Loristan. Ele ficou de pé quieto no lado de fora da porta e fez esse sinal. Era um barulhinho como o de um arranhão – dois arranhões e um tapa. Lázaro abriu a porta e olhou com preocupação.

― Ainda não chegou a hora, senhor ― ele falou bem baixo.

― Eu sei ― Marco respondeu ― Mas preciso mostrar algo para meu pai ― Lázaro deixou-o entrar, e Loristan virou-se da sua escrivaninha com um olhar pensativo.

Marco aproximou e deitou o desenho em frente dele. ― Olhe ― ele disse ― Eu lembro desse homem o suficiente para desenhar isso. Eu pensei que podia fazer um desenho. Você não acha que este desenho parece com ele? ― Loristan examinou o desenho cuidadosamente.

― É bem parecido com ele ― ele respondeu ― Você me deixou totalmente seguro. Obrigado, Camarada. Foi uma ideia excelente.

Houve um alívio quando Loristan apertou a mão de Marco, e Marco voltou com um sentimento exultante. Ao aproximar-se da porta, Loristan disse o seguinte:

― Aproveite esse dom. Certamente é um dom. E é verdade que sua mente tem tido bom treinamento. Quanto mais você desenhar melhor. Desenhe tudo que imaginar.

Nem as lâmpadas da rua, os barulhos e os pensamentos de Marco fizeram com que ele ficasse acordado quando voltou para cama. Mas antes de se ajeitar no travesseiro, deu algumas ordens para si mesmo. Ele tinha lido, e ouvido Loristan dizer, que a mente pode controlar o corpo quando as pessoas descobrem que pode. Ele tinha feito algumas experiências e tinha achado algumas coisas bem interessantes. Uma era que se ele falava para si mesmo lembrar de certa coisa numa certa hora, geralmente verificava que CONSEGUIA lembrar. Algo na sua mente parecia lembrá-lo. Várias vezes ele tinha experimentado falar para si mesmo acordar numa hora determinada e tinha acordado quase exatamente naquela hora.

― Vou dormir até uma hora da manhã ― ele disse ao fechar os olhos ― Aí vou acordar e sentir-me descansado. Não vou estar sonolento.

Ele dormiu pesadamente como um menino. E à uma da manhã em ponto acordou e viu que a luz da rua ainda estava jorrando sua luz pela janela. Ele sabia que era uma da manhã porque tinha um pequeno e barato relógio redondo onde conseguia ver as horas. Estava bem descansado e não estava sonolento. Sua experiência funcionara de novo.

Ele levantou e trocou a roupa. Aí desceu as escadas da mesma maneira que fez da última vez, o mais quieto possível. Ele levou seus sapatos na mão porque iria colocá-los quando chegasse à rua. Fez seu sinal na porta do pai, e dessa vez foi Loristan que abriu.

― Devo ir agora? ― Marco perguntou.

― Sim. Ande devagar para o outro lado da rua. Olhe em todas as direções. Não sabemos de onde ele vem. Quando der o sinal para ele, volte e vá para cama de novo.

Marco fez continência como um soldado faria ao receber uma ordem. Então, sem perder tempo, saiu da casa sem fazer um barulhinho.

Loristan virou-se para dentro do seu quarto e ficou de pé silenciosamente no centro do quarto. Seus olhos estavam brilhando como se algo tivesse movido dentro dele.

― Aí cresce um homem para Samávia ― ele disse para Lázaro, que estava olhando para ele ― Deus seja louvado!

Lázaro fez continência com bastante reverência e disse baixo e numa voz rouca: ― Sua… senhor! ― ele disse ― Deus salve o Príncipe!

― Sim, ― Loristan respondeu, depois de alguns momentos ― quando ele for achado ― então ele voltou para sua mesa sorrindo seu maravilhoso sorriso. O silêncio nas ruas desertas de uma grande cidade, depois de a madrugada ter silenciado todo o barulho e tumulto, é quase uma coisa inacreditável. Silêncio no meio de uma floresta ou num topo de uma montanha não é tão estranho. Só há algumas horas atrás o tumulto estava correndo para seus lugares; em mais algumas horas, estará passando de novo.

Mas agora a rua é um lugar solitário; o barulho dos passos de um guarda na pavimentação tem um som oco e até assustador. Parecia especialmente assustador para Marco ao atravessar a rua. Será que tinha sido tão vazio e solitário antes? Era assim todas as noites? Talvez fosse assim quando estava dormindo no seu colchão duro com a lâmpada da rua jorrando sua luz dentro do quarto. Ele prestou atenção aos passos do guarda noturno porque não queria ser visto. Havia uma parede saliente onde podia ficar em pé na sombra enquanto o homem passava. Um guarda pararia e olharia estranhamente para um menino andando para cima e para baixo na rua a uma e meia da manhã. Marco poderia esperar até ele passasse, e daí sair na luz de novo e olhar para cima e para baixo na rua.

Ele ouviu seus passos aproximando em alguns minutos, mas Marco já estava seguro na sombra antes de ser visto. Quando o guarda passou, ele saiu da sombra e andou devagar na rua olhando para cada lado, e de vez em quando olhando para trás. No começo, ninguém estava a vista. Aí ouviu o tilintar de um charrete-táxi tardio passando na rua. Mas as pessoas dentro dele estavam voltando de uma festa e estavam rindo e conversando, não notando nada mais além das suas próprias piadas. Houve silêncio mais uma vez por um bom tempo, como pareceu para Marco, e não havia ninguém. Na verdade, não foi tanto tempo quanto pareceu, mas ele estava ansioso. Então uma carroça com verduras no seu caminho cedo do sítio para a feira em Covent Garden,4 passou devagar com seu motorista quase dormindo em cima das suas pilhas de batatas e repolho. Depois que passou, houve silêncio e vazio novamente, até o guarda reaparecer fazendo suas rondas, e Marco se enfiou na sombra da parede como tinha feito antes.

Quando ele voltou para a luz, começou a esperar que não demorasse muito mais tempo para seu pai. Não havia realmente passado tanto tempo, ele disse para si mesmo, era apenas impressão. Mas a ansiedade do seu pai seria maior do que a sua poderia ser. Loristan sabia tudo que dependeria na vinda desse grande homem que se sentava lado a lado com um rei na sua carruagem e conversava com ele como se o conhecessem bem.

“Talvez seja algo que a Samávia inteira está esperando para saber… pelo menos o Partido Secreto,” Marco pensou. “O Partido Secreto é a Samávia,…” ele de repente foi interrompido, havia o som de passos. “Alguém está vindo!” ele disse. “É um homem.”

Era um homem subindo a rua no mesmo lado da calçada que ele estava. Marco começou a andar na direção dele quieto e rapidamente. Ele pensou que seria melhor se ele se parecesse com um menino enviado no meio da noite para dar um recado a um médico ou algo do tipo. Então, se ele passasse por um estrangeiro, não levantaria suspeita. Será que esse homem era da mesma altura daquele que saiu com o Rei? Sim, ele era praticamente da mesma altura, mas ainda estava muito distante para reconhecer outra característica. Ele aproximou-se, e Marco percebeu que ele também começou a ir mais rápido. Marco continuou. Só um pouquinho mais próximo e ele conseguiria ter certeza. Sim, agora estava perto o suficiente. Sim, esse homem era da mesma altura e tinha aparências similares, mas era bem mais jovem. Não era o homem que estava na carruagem com Sua Majestade. Esse homem não tinha mais do que trinta anos. Ele começou a balançar sua bengala e assobiar uma música quando Marco passou sem mudar a sua velocidade.

Foi depois que o guarda fez outra ronda e desapareceu pela terceira vez que Marco ouviu passos ecoando a alguma distância numa rua que atravessava. Depois de escutar para saber se os passos estavam se aproximando e não distanciado, ele se colocou numa posição onde poderia ver claramente a distância da rua. Sim, alguém estava vindo. Era de novo uma figura de um homem. Marco conseguiu se posicionar na sombra de modo que a pessoa que se aproximava não conseguiria ver que estava sendo observada. A pessoa solitária chegou numa distância reconhecível em dois minutos. Ele estava ordinariamente vestido com um paletó bem gasto feito por um alfaiate. Seu chapéu comum era usado de modo a esconder um pouco sua face. Mas mesmo antes de ele atravessar para o lado da rua onde o Marco estava, o menino o reconheceu claramente. Era o homem que saíra com o Rei!

A sorte estava com Marco. O homem passou exatamente num lugar fácil para o menino andar alguns passos até chegar ao lado dele, olhar ele bem no rosto e dizer baixa, porém distintamente, as palavras “A Lâmpada está acesa” e, sem demorar, atravessar a rua e continuar andando. Marco não mudou a sua velocidade nem olhou para trás até estar a certa distância. Então olhou por cima do ombro e viu que a figura tinha atravessado a rua e estava dentro do portão. Tudo estava certo. Seu pai não ficaria desapontado. O grande homem chegou.

Marco andou por mais uns dez minutos e então voltou para casa e foi diretamente para cama. Mas foi obrigado a falar para si mesmo dormir várias vezes antes de realmente fechar seus olhos para o resto da noite.

4Covent Garden começou no décimo terceiro século como um jardim que gradualmente foi se desenvolvendo em um tipo de feira de fazendeiros em Londres. A feira em Covent Garden ainda é até hoje um lugar para comprar frutas e verduras, comer um lanche, ou assistir performances de rua. Back

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