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MARCO VAI PARA A ÓPERA

1915

A próxima jornada deles era para Munique, mas à noite, antes de deixarem Paris uma coisa inesperada aconteceu.

Para chegar à estreita escadaria que levava ao quarto era necessário passar por dentro da padaria. A esposa do padeiro era uma mulher afetuosa que gostava dos dois meninos inquilinos que eram muito quietos e não davam problemas. Mais de uma vez ela lhes dera um ou dois pães quentes ou uma pequena torta com frutas no centro recém assada. Quando Marco entrou naquela tarde, ela o recebeu com um aceno de cabeça e entregou-lhe um pequeno pacote quando ele passou.

― Deixaram isto para você esta tarde. ― ela disse. ― Vejo que está fazendo compras para sua viagem. Meu marido e eu sentimos muito por você partir.

― Obrigado, Madame. Também sentimos muito. ― Marco respondeu, pegando o embrulho. ― Não são grandes compras, como vê.

Mas nem ele nem O Rato comprara absolutamente nada, embora o pequeno pacote fosse comum e era claramente endereçado para ele e tinha o nome de uma das grandes lojas de preços baixos. Tocando, sentia-se que continha alguma coisa macia. Quando ele chegou ao quarto, O Rato estava olhando fixamente para fora da janela observando todas as coisas vivas que passavam na rua abaixo. Ele, que nunca vira nada além de Londres estava absorvido pela vista de Paris e estava pondo tudo na memória.

― Mandaram alguma coisa para nós. Veja isso. ― Marco disse.

O Rato foi para perto dele imediatamente. ― O que é? De onde veio?

Eles abriram o pacote e a princípio apenas viram vários pares de meias de lã comuns. Ao pegar a meia no meio do embrulho, Marco sentiu que havia alguma coisa dentro – alguma coisa colocada nivelada e com cuidado. Ele colocou a mão dentro e tirou várias notas de cinco francos10 – não notas novas, porque notas novas poderiam revelar-se pelo barulho que fazem. Essas eram velhas o suficiente para serem macias. Mas havia o suficiente delas para uma soma substancial.

― É em notas pequenas porque meninos pobres têm apenas isso. Ninguém vai ficar surpreso quando trocarmos essas notas. ― O Rato disse.

Os dois acreditavam que o pacote fora enviado pela senhora rica, mas fora feito tão cuidadosamente que nem o menor indício fora deixado.

Para O Rato, parte do profundo entusiasmo do “Jogo” era a elaboração dos planos e métodos de cada pessoa envolvida. Ele não teria dormido sem planejar algum esquema que teria sido usado nesse caso. Ele vibrou ao contemplar as dificuldades que a senhora rica teria se visto sendo obrigada a superar.

― Talvez, ― ele disse, depois de pensar bem no assunto por algum tempo. ― ela foi a uma loja grande e popular vestida como se fosse uma mulher comum e comprou as meias e fingiu que ela própria carregaria para casa. Ela faria isso para que pudesse levá-las para alguma esquina e colocar o dinheiro dentro. Então, como ela queria que fossem mandadas da loja, talvez comprou outras coisas e pediu para que entregassem os pacotes em lugares diferentes. As meias foram mandadas para nós e as outras coisas para alguma outra pessoa. Ela iria para uma loja onde ninguém a conhecesse e onde ninguém esperasse vê-la e usaria roupas que não parecessem nem ricas nem muito pobres.

Ele criou o episódio completo com todos os detalhes e explicou-os para Marco. Isso o fascinou por um bom tempo até que ele se sentiu aliviado e dormiu bem.

Mesmo antes de terem deixado Londres, certos jornais já tinham deixado pessoas não acreditarem na realidade da história do descendente do Príncipe Perdido. Isso fora feito por menosprezo e leve manipulação, tratando-a como uma lenda. A princípio, O Rato ressentira-se amargamente, mas um dia durante uma refeição, quando estivera apresentando argumentos para provar que a história era verdadeira, Loristan de algum modo freou seus pensamentos por seu próprio silêncio. ― Se existe tal homem, ― ele disse depois de uma pausa. ― é bom para ele que não acreditem em sua existência – pelo menos por algum tempo.

O Rato teve uma parada total. Ele sentiu-se quente por um momento e depois sentiu-se frio. Ele compreendeu uma nova ideia toda de uma vez. Ele vinha cometendo um erro nas táticas. Nada mais foi dito mas, quando eles estavam sozinhos mais tarde, ele se abriu para Marco. ― Eu fui um tolo! ― ele exclamou. ― Porque não consegui perceber isso?! Posso contar para você o que acredito que foi feito? Há alguém que tem influência na Inglaterra e que é um amigo de Samávia. Eles conseguiram que os jornais ridicularizassem a história para que ninguém acredite. Se acreditassem, tanto os Iarovitch quanto os Maranovitch estariam de vigia, e o Partido Secreto perderia suas chances. Como fui tolo por não pensar nisso! Há alguém observando e trabalhando aqui e que é amigo de Samávia.

― Mas há alguns em Samávia que começaram a suspeitar de que pode ser verdade. ― Marco respondeu. ― Se não houvesse, eu não teria sido trancado na adega. Alguém pensou que meu pai sabe de alguma coisa. Os espiões tinham ordens para descobrir o que era.

― Sim. Sim Isso é verdade, também! ― O Rato respondeu ansiosamente. ― Nós devemos ter muito cuidado.

No forro da manga do casaco de Marco havia uma abertura na qual ele podia colocar facilmente qualquer coisa pequena que desejasse esconder e que também desejasse alcançar sem problema. Dentro dela ele carregara o esboço da senhora que ele rasgara em Paris. Quando eles andavam nas ruas de Munique, na manhã depois de terem chegado, ele carregava ainda um outro esboço. Era o que ilustrava o velho aristocrata de aparência alegre com o sorriso astuto.

Uma das coisas que eles aprenderam sobre esse homem era que sua principal característica era a sua paixão por música. Ele era um patrono de músicas e passava muito tempo em Munique porque amava sua atmosfera musical e a dedicação de seus frequentadores de ópera.

― A banda militar toca no Feldherrn-halle11 ao meio dia. Quando é tocada alguma coisa muito boa, às vezes as pessoas param suas carruagens para ouvir. Nós vamos para lá. ― disse Marco.

― É uma chance. ― disse O Rato. ― Não devemos perder nada que possa ser uma chance.

O dia estava brilhante e ensolarado, as pessoas passando pelas ruas pareciam à vontade e simples; a mistura de ruas velhas e modernas, de esquinas antigas e lojas e casas novas era pitoresca e agradável. O Rato, balançando-se pela multidão em suas muletas, estava cheio de interesse e alegria. Ele começara a crescer, e a mudança em sua face e em sua expressão, que começara em Londres se tornara mais perceptível. Ele recebera seu “lugar”, e um trabalho para fazer, o que o dava o direito de mantê-lo.

Ninguém poderia suspeitar que eles carregavam um segredo estranho e vital com eles ao perambularem juntos. Eles pareciam apenas dois meninos comuns que olhavam para dentro das lojas pelas janelas e conversavam sobre o que havia dentro, e que andavam parando com os rostos para cima na Marien-Platz12 diante do adornado Gothic Rathaus (o palácio da câmera municipal) para ouvir o toque das onze horas soar e ver as figuras pintadas do Rei e da Rainha assistirem de sua sacada o passar diante deles do cortejo do torneio automático com seus trombeteiros e cavaleiros de justa. Quando o espetáculo terminou e o galo automático irrompeu em sua vigorosa despedida, eles riram exatamente como qualquer outro menino faria. Às vezes seria fácil para O Rato esquecer que havia algo mais importante no mundo do que os novos lugares e as novas maravilhas que estava vendo, como se fosse um menestrel ambulante em uma história.

Mas em Samávia batalhas sangrentas eram travadas, e planos sangrentos feitos, e em ansiedade angustiada o Partido Secreto e os Forjadores da Espada esperavam sem fôlego pelo Sinal o qual esperaram por tanto tempo. E dentro do forro do casaco de Marco estava escondida a face esboçada, enquanto os dois meninos despercebidos iam em seu caminho para o Feldherrnhalle para ouvir a banda tocar e ver quem poderia estar entre os espectadores. Como o dia estava ensolarado, e também porque a banda estava tocando um programa particularmente bom, a multidão na área era maior do que o normal. Vários veículos tinham parado, e entre eles estava um ou dois que não eram meramente cabriolés alugados, mas as carruagens particulares de pessoas.

Uma delas evidentemente chegara cedo, já que estava parada em uma boa posição quando os meninos chegaram à esquina. Era uma grande carruagem aberta e imponente, luxuosamente estofada em verde. O criado e o cocheiro usavam librés verdes e prateados e pareciam saber que as pessoas estavam olhando para eles e para seu amo. Ele era um velho aristocrata robusto, de aparência alegre com um sorriso astuto, embora, enquanto ouvia a música, o sorriso quase esquecera de ser astuto. Na carruagem com ele estavam um jovem oficial e um menino pequeno, e eles também escutavam atentamente. Em pé perto da carruagem estavam várias pessoas que eram obviamente amigos ou conhecidos, pois ocasionalmente falavam com ele. Marco tocou a manga do casaco do Rato ao se aproximarem.

― Não será fácil chegar perto dele. ― ele disse. ― Vamos ficar o mais perto da carruagem que pudermos sem empurrar. Podemos talvez ouvir alguém dizer algo sobre onde ele vai depois que a música acabar.

Sim, não havia erro. Ele era o homem certo. Os dois sabiam de cor as rugas em sua face vigorosa e a curva de seu bigode cinza. Mas não havia nada de notável em um menino olhando por um momento para um pedaço de papel, e Marco andou calmamente alguns passos para um pequeno espaço deixado pela multidão e deu uma última olhada em seu esboço. Sua regra era ter certeza no momento final. A música estava muito boa e o grupo perto da carruagem estava evidentemente entusiástico. Havia conversas e elogios e comentários, e o velho aristocrata acenava com a cabeça em aplauso.

― O Chanceler é um amante da música. ― um espectador perto dos meninos disse para outro. ― Vai para a ópera toda noite a menos que obrigações graves o afastem! Lá você pode vê-lo acenando a velha cabeça e quase estourando suas luvas de tanto aplaudir quando fazem uma coisa boa. Ele deveria reger uma orquestra ou tocar um violoncelo. Ele é grande demais para o primeiro violino.

Um grupo ficou perto da carruagem até o fim, quando acabou a música, ela foi embora. Não houvera oportunidade possível de passar perto, mesmo que a presença do jovem oficial e do menino não representassem um obstáculo intransponível.

Marco e O Rato saíram e passaram pelo Teatro Hof e leram os cartazes. “Tristan und Isolde” (Tristão e Isolda) seria apresentado à noite e uma grande cantora faria o papel de Isolda13. ― Ele virá para ouvir isso. ― os dois meninos disseram imediatamente. ― Com certeza ele virá.

Foi decidido entre eles que Marco deveria ir sozinho em sua busca quando a noite chegasse. Um menino que ficasse na entrada da Ópera seria menos observado que dois.

― As pessoas reparam mais em muletas do que em pernas. ― O Rato disse. ― É melhor eu ficar fora do caminho a menos que você precise de mim. Minha hora ainda não chegou. Mesmo que não chegue nunca eu estive – eu estive em serviço. Eu vim com você e estive pronto. É isso o que um ajudante-de-campo faz.

Ele ficou em casa e leu tantos jornais Ingleses quanto pode pegar e fez planos e relutou batalhas no papel.

Marco foi para a Ópera. Mesmo que não soubesse o caminho para o quarteirão perto de onde era o Teatro Hof, ele poderia facilmente tê-lo achado seguindo os grupos de pessoas nas ruas que pareciam todas estar andando na mesma direção. Havia estudantes com seus chapéus diferentes andando em três ou quatro, e havia casais jovens e mais velhos, e aqui e ali famílias inteiras; havia soldados de todas as idades, oficiais e rasos; e, quando se ouvia a conversa ao passar, era sempre sobre música.

Por algum tempo Marco esperou na quadra e observou as carruagens chegarem e passarem em baixo do pórtico enorme sustentado por pilares para depositar seus conteúdos na entrada e imediatamente partirem em sequência ordenada. Ele deveria ter certeza de que a grande carruagem com os uniformes verdes e prateados chegava com as outras. Se viesse, ele compraria uma entrada barata e entraria.

Era um tanto tarde quando chegou. As pessoas em Munique não se atrasam para a ópera se puderem, e o cocheiro dirigiu apressadamente. O criado em verde e prateado pulou para o chão e abriu a porta da carruagem quase antes que ela parasse. O Chanceler saiu com uma aparência menos alegre do que o normal porque estava receoso de perder parte da abertura. Uma mulher mais nova em vestido branco estava com ele e estava evidentemente tentando acalmá-lo.

― Eu não acho que estejamos realmente atrasados, pai. ― ela disse. ― Não fique frustrado, pai. Isso vai estragar a música para você.

Esse não era um momento em que a atenção de um homem poderia ser atraída discretamente. Marco correu para comprar seu bilhete, que lhe daria um lugar entre as fileiras de soldados jovens, artistas, homens e mulheres estudantes, e músicos que estavam dispostos a ficar quatro ou cinco fileiras atrás mesmo durante a execução da mais longa ópera. Ele sabia que, a menos que estivessem em uma dos poucos camarotes que pertenciam apenas às pessoas da corte, o Chanceler e sua filha estariam nos melhores assentos na curva da frente do balcão, que era o lugar mais desejável da plateia. Ele logo os viu. Eles haviam garantido os lugares centrais logo abaixo do grande camarote real onde duas princesas quietas e sua comitiva já estavam sentadas.

Quando o Chanceler descobriu que não estava muito atrasado para a abertura, sua face se tornou mais alegre do que nunca. Ele acomodou-se para uma noite de divertimento e evidentemente esqueceu de todas as outras coisas do mundo. Marco não o perdeu de vista. Quando os ouvintes saíssem no intervalo entre os atos para passear nos corredores, ele poderia ir também e lá poderia haver uma chance de passar perto do Chanceler na multidão. Ele o observou de perto. Algumas vezes sua face velha e elegante entristecia-se com a linda angústia da música, outras vezes parecia extasiada, e era sempre evidente que cada nota atingia sua alma.

Depois do segundo ato o Chanceler ficou sentado por alguns minutos como se estivesse em um sonho. As pessoas nos assentos perto dele começaram a se levantar e a formar uma fila nos corredores. A filha do Chanceler se inclinou para frente e tocou o braço do pai gentilmente.

“Ela quer que ele a leve para fora.” Marco pensou. “Ele vai levá-la porque é bondoso.”

Ele o viu sair de seu sonho com um sorriso e então levantou-se e deu a ela o braço exatamente enquanto Marco pulava de sua posição na quarta fileira. Era uma noite quente e os corredores estavam cheios. Quando Marco chegou ao piso do balcão, o par havia saído pela pequena porta e se perdeu temporariamente entre os que se moviam.

Marco calmamente andou entre a multidão tentando parecer que pertencia a alguém. Uma ou duas vezes sua estrutura forte e seus olhos e cílios densos e pretos faziam as pessoas olharem-no, mas ele não era o único menino que fora trazido à ópera então ele se sentia seguro o suficiente para parar ao pé da escada e observar aqueles que subiam e os que passavam por ela. Era uma multidão bem variada –amantes da música bons e fora de moda misturados aqui e ali com grandes pessoas da corte.

Repentinamente ele ouviu uma risada baixa e um momento depois uma mão o tocou levemente.

― Você REALMENTE escapou, então? ― uma voz suave disse.

Quando ele se virou, sentiu os músculos endurecerem. Ele não ficou mais relaxado e não sorriu ao olhar para quem falava. O que sentiu foi uma onda de ardente e desdenhosa raiva. Passou por ele antes que tivesse tempo para controlá-la.

Uma senhora pequena e idosa que parecia envolta em várias sombras de roupagem violeta claro estava sorrindo para ele com olhos cinzas e penetrantes. Era a mulher que o enganara em Brandon Terrace nº 10.

10 O franco era a moeda nacional da França de 1360 até 1641 e de novo de 1795 até 1999 que foi quando o Euro foi introduzida à França. Back

11 Feldherrn-halle é um monumento em Munique que honra os soldados da Bavária e contem estátuas de seus principais líderes. Back

12 A Marienplatz, ou Praça da Maria em português, é uma praça no centro de Munique, Alemanha. Esta praça é desde 1158 e fica localizada diante do palácio da câmera municipal. Durante a era Medieval, torneios e feiras eram realizados nessa praça. O relógio mecânico que Marco e O Rato estão admirando é uma parte de uma sena de um torneio. Hoje, ainda milhões de turistas vão todo ano para parar e olhar o relógio. Back

13 “Tristan und Isolde” é uma opera por Richard Wagner. A estreia desta obra foi em Munique em 1865 e ainda é realizada nas principais operas no mundo inteiro. Back

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