UMA VIGÍLIA NOTURNA

1915

Em uma colina no meio da grande planície austríaca, em volta da qual os altos Alpes esperam assistindo através das nuvens, fica uma velha fortaleza, quase mais bonita que todas as coisas que Marco e O Rato tinham visto. Ao se aproximar da cidade – e ao se sair dela – e ao andar por suas ruas, ou sair na sacada à noite para olhar as montanhas e a lua – sempre parece que de algum ponto você a vê olhando fixamente lá de cima para você – a cidadela de Hohensalzburg14.

Salzburgo foi seu próximo destino, porque lá deveria ser encontrado o homem que parecia-se com um cabeleireiro e que trabalhava em uma barbearia. Estranho como pode parecer, o Sinal também deveria ser levado a ele.

― Pode ser que pessoas venham para fazer a barba – soldados, ou homens que sabem de coisas. ― O Rato desenvolvia seus planos. ― E ele pode falar com eles quando está em pé perto deles. Vai ser fácil chegar perto dele. Você pode ir cortar o cabelo.

A viagem de Munique não era longa, e durante a última parte eles tiveram na terceira classe os assentos de madeira para si. Até mesmo o velho camponês sonolento que oscilava a cabeça em um canto finalmente saiu com seus fardos. Para Marco as montanhas eram maravilhas há muito conhecidas, e por isso ele não quis falar muito, mas apenas sentar-se e fitá-las pela janela do vagão.

Como chegaram cedo, tiveram bastante tempo para andar pela maravilhosa, pequena e velha cidade. Mas através das ruas largas e estreitas, em baixo das arcadas que davam para as feiras de frutas e verduras, cruzando a ponte e entrando na praça onde o “glockenspiel”15 tocava seu som velho e tinidor, em toda parte a Cidadela olhava.

Eles acharam a barbearia em uma das ruas estreitas. Não havia grandes estabelecimentos lá, e esse em particular era simples. Eles passaram pelo lugar uma vez, e então voltaram. Era uma barbearia tão simples que não havia nada de notável em dois meninos comuns entrarem para cortar o cabelo. Um homem velho veio à frente para recebê-los. Ele estava evidentemente feliz em tê-los como clientes mesmo sabendo que não tinham muito dinheiro. Ele encarregou-se de atender O Rato, mas, tendo o colocado em uma cadeira, virou-se e chamou alguém na sala de trás.

― Heinrich! ― ele disse.

Na abertura da manga do casaco de Marco estava o esboço do homem com cabelo macio e ondulado, que parecia um cabeleireiro. Eles acharam um canto para dar a olhada final nele antes de se virarem e entrar. Heinrich, que saiu da pequena sala de trás, tinha cabelo macio e ondulado. Parecia-se muito com um cabeleireiro. Ele tinha os traços do esboço – seu nariz, boca, queixo e aparência eram como os que Marco desenhara e guardara na memória. Mas…

Ele deu a Marco uma cadeira e prendeu a capa branca profissional em seu pescoço. Marco se inclinou para trás e fechou seus olhos por um momento.

― Esse NÃO é o homem! ― ele estava dizendo para si mesmo. ― Ele NÃO é o homem.

Como ele sabia que não era, não poderia ter explicado, mas teve certeza. Era uma convicção forte. Não fosse pelo sentimento repentino, nada teria sido mais fácil do que dar o Sinal. E se não pudesse dar agora, onde estava o homem para o qual devia ser falado, e qual seria o resultado se ele não pudesse ser achado? E se havia dois que se pareciam tanto, como poderiam ter certeza?

Era perturbador, também, descobrir que O Rato estava de repente muito agitado. Ele se movia na cadeira, para grande desconforto do velho cabeleireiro. Ele ficava virando a cabeça para falar. Pediu para Marco traduzir muitas perguntas que desejava que ele fizesse para os dois homens. Eram perguntas sobre a Cidadela, sobre o Monchsberg, sobre Residenz, sobre o Glockenspiel, sobre as montanhas. E acrescentava uma pergunta a outra e não conseguia se sentar quieto.

― O jovem cavalheiro vai acabar tendo um corte na orelha. ― disse o velho para Marco. ― E não vai ser minha culpa.

O que devo fazer? Marco estava pensando. ― Ele não é o homem.

Ele não deu o Sinal. Ele devia sair e pensar, embora aonde seus pensamentos o levariam ele não sabia. Esse era um problema mais difícil do que jamais sonhara ter de encarar. Não havia a quem pedir conselho. Apenas ele e O Rato, que estava nervosamente se mexendo e se torcendo em sua cadeira. O que seu pai faria?

Cada dono de cada face desenhada era um elo em uma poderosa e secreta corrente; e se um elo faltasse, a corrente se quebraria. Cada vez que Heinrich aparecia em seu campo de visão, ele recordava cada traço novamente e comparava com o esboço guardado na memória. Cada vez a semelhança se tornava maior, mas cada vez ele podia quase ouvir a voz de Loristan dizendo: “Não; o Sinal não é para ele!”

― Você deve se sentar quieto. ― ele disse para O Rato. ― O cabeleireiro está com medo de que você o faça cortá-lo por acidente.

― Mas eu quero saber, quem mora no Residenz? ― disse O Rato. ― Esses homens podem nos contar algumas coisas se você perguntar a eles.

― Pronto. ― disse o velho cabeleireiro com ar aliviado. ― Talvez cortar o cabelo deixa o jovem cavalheiro nervoso. Isso acontece às vezes.

O Rato ficou de pé perto da cadeira de Marco e fez perguntas até que Heinreich também terminasse seu trabalho. Marco não pode entender a mudança de ânimo de seu amigo. Ele percebeu que, se desejasse dar o Sinal, não teria oportunidade. Não poderia ter dado. O questionamento incessante tinha dirigido a atenção do homem mais velho para seu filho e para Marco tanto que nada poderia ser dito a Heinrich sem que ele observasse.

“Eu não poderia ter falado se ele fosse o homem.” Marco disse para si mesmo.

A própria saída do local pareceu um pouco apressada. Quando eles estavam já totalmente na rua, O Rato deu um aperto no braço de Marco.

― Você não deu o Sinal, deu? ― ele cochichou ansiosamente. ― Eu fiquei falando e falando para impedir.

Marco tentou não se sentir sem fôlego, e tentou falar em tom baixo sem sinal de exclamação. ― Por que você diz isso? ― ele perguntou.

O Rato se aproximou mais dele. ― Aquele não era o homem! ― ele cochichou. ― Não importa quanto pareça, ele não é o homem certo. Eu estive planejando, e, quando o vi, sabia que ele não era o homem, apesar da aparência. E não podia ter certeza de que você sabia, e pensei, se eu ficasse falando e interrompendo você com perguntas bobas, você poderia ser impedido de falar.

Ele estava pálido e se movimentando adiante velozmente como se estivesse com pressa.

― Eu sabia que ele não era o homem certo também. ― Marco respondeu.

― Há algum lugar calmo aonde podemos ir para pensar? ― O Rato perguntou.

― Gostei dessa ideia. Meu pai me treinou para eu me acalmar quando as coisas não fazem sentido e eu não sei o que fazer. Há um lugar que não fica longe onde podemos dar uma olhada nas montanhas. Vamos para lá nos sentar. ― disse Marco.

Eles saíram das ruas e do meio das pessoas e alcançaram o lugar calmo de onde podiam ver as montanhas. Ali eles se sentaram à margem da estrada.

― Era a expressão da face dele que era diferente. ― Marco disse. ― E os olhos. Eles são um tanto menores que os do homem certo. A luz na barbearia era fraca, e não foi antes da última vez que ele se curvou sobre mim que descobri o que não percebera antes. Os olhos dele são cinzas – os do outro são marrons.

― Você viu isso! O Rato exclamou. ― Então temos certeza! Estamos salvos!

― Não estaremos salvos até acharmos o homem certo. ― Marco disse. ― Onde ele está? ― Ele olhou para os picos longínquos acima.

― Deve ter alguma borda de rochedo lá em cima em algum lugar. ― O Rato disse finalmente. ― Vamos subir e procurar e nos sentar e nos acalmar… como seu pai treinou você.

Isso parecia ser uma boa ideia para Marco. Ir a um lugar quieto e se sentar e pensar sobre a coisa que queria lembrar ou achar era seu velho costume. Ficar quieto era sempre a melhor coisa, seu pai o ensinara. Algumas vezes era como escutar o próprio Loristan.

― Há um pequeno trem que sobe o Gaisberg16. ― Ele disse. ― Quando você está no topo, um mundo de montanhas se espalha em volta de você. Lázaro foi uma vez e me disse. Podemos deitar ao ar livre na grama a noite toda. Vamos, Ajudante-de-Campo.

E então foram, os dois pensando a mesma coisa. Marco era o mais calmo dos dois, por causa da paz que sentia em fazer qualquer coisa que pensava que agradaria seu pai. Eles subiram o Gaisberg num pequeno trem, que se impulsionava e se arrastava e pulsava vagarosamente para cima com eles. O trem os levou obstinada e gradualmente mais e mais alto até deixar Salzburgo e a Cidadela em baixo e chegar ao mundo de montanhas.

Haviam poucos turistas nos pequenos vagões e eles veriam a paisagem do cume. Eles não estavam procurando uma borda de rochedo.

O Rato e Marco estavam. Quando o pequeno trem parou no topo, eles saíram com o resto. Os dois perambularam com eles pela grama curta no cume sem árvores e olharam de vários pontos de vista. Finalmente deixaram os turistas para trás e perambularam sozinhos. Eles acharam um borda onde podiam sentar-se e deitar-se e onde até mesmo o mundo de montanhas parecia estar debaixo deles. Eles haviam trazido um pouco de comida com eles e deixaram-na atrás de uma pedra saliente. Quando os turistas subissem de volta no trem trabalhador e fossem arrastados de volta para baixo da montanha, a vigília noturna deles começaria.

Assim deveria ser. Uma noite de tranquilidade nas alturas, onde podiam esperar e olhar e se manterem prontos. O resto das pessoas voltou para o trem que começou a sua jornada para baixo na descida íngreme. Marco e O Rato o ouviram trabalhando no seu caminho, como se fosse forçado a fazer tanto esforço para se segurar na descida quanto para se arrastar para cima.

Então eles estavam sozinhos, e era uma solidão tal como uma águia talvez sinta enquanto se equilibra no alto da curva de azul. E eles sentaram e olharam o sol se pôr. Ao anoitecer, o cheiro em volta deles da floresta abaixo era doce e silêncio os cercava. As estrelas começaram se mostrar e agora os dois que esperavam se encontraram olhando para cima aos céus e ambos estavam conversando em cochichos.

― As estrelas parecem grandes aqui. ― O Rato disse. ― Olhe! Há uma luz no lado da montanha ali que não é uma estrela.

― É uma luz numa cabana onde os guias levam os alpinistas para descansarem e passarem a noite. ― respondeu Marco.

― É tão calmo. ― O Rato cochichou depois de um tempo de silencio e Marco cochichou de volta:

― É BEM calmo.

Eles haviam comido sua refeição de pão preto e queijo depois do pôr do sol e agora estavam deitados de costas e olhavam para cima até que as poucas primeiras estrelas haviam se multiplicado em miríades. Lá eles estavam, somente dois meninos que haviam começado sua jornada no primeiro trem e haviam andado o dia inteiro e pensado sobre coisas grandiosas e ansiosas.

― É bem calmo. ― O Rato bocejou de novo finalmente.

― É BEM calmo. ― Marco mal cochichou em resposta. E dormiram.

― Estou escutando um assobio ― Marco se viu falando para si mesmo num sonho. Depois do qual ele acordou e percebeu que o assobio não era parte de sonho nenhum. Vinha de um homem jovem que tinha um cajado de madeira e que parecia como se tivesse escalado para ver o sol raiar. Ele usava as vestimentas de um alpinista e um chapéu verde com um penacho atrás. Ele olhou para baixo, para os dois meninos, surpreso.

― Bom dia. ― ele disse. ― Vocês dormiram aqui para ver o raiar do sol?

― Sim. ― Marco respondeu.

― Vocês não ficaram com frio?

― Dormimos muito pesado para saber. E trouxemos nossos casacos grossos.

― Eu dormi na metade do caminho que desce da montanha ― disse o homem jovem. ― Eu sou um guia esses dias, mas não tenho sido há tempo suficiente para perder um nascer do sol que não é trabalhoso para alcançar. Meu pai e meu irmão pensam que eu sou louco sobre tais coisas. Eles prefeririam ficar nas suas camas. Ah! Ele está acordado, né? ― disse ele virando-se para O Rato, que havia se levantado em um ombro e o olhava fixamente. ― Qual é o problema? Você parece que está com medo de mim.

Marco não esperou que O Rato recuperasse sua respiração e falasse.

― Eu sei porque ele olha para você assim ― respondeu por ele. ― Ele está surpreso. Ontem fomos para uma barbearia lá em baixo e vimos um homem que era quase exatamente como você… só que ― ele adicionou, olhando para cima ― seus olhos eram cinzas e os seus são marrons.

― Ele é meu irmão gêmeo, ― disse o guia, sorrindo alegremente. ― Meu pai pensou que ele poderia fazer de nós dois barbeadores e eu tentei fazer isso por quatro anos. Mas eu sempre queria estar escalando montanhas e não sobrava tempo suficiente. Então cortei meu cabelo, lavei para tirar a brilhantina, e sai correndo. Não pareço um barbeador agora, pareço?

Ele não parecia. Nem um pouquinho Mas Marco o reconheceu. Ele era o homem. Não havia ninguém no topo das montanhas além deles, e o sol estava somente mostrando uma borda de ouro em cima do cume mais longe e alto. Não era preciso ficar com medo de fazer algo, já que não tinha ninguém para ver ou escutar. Marco tirou o esboço da abertura na sua manga. Ele olhou para o esboço e depois para o guia, e então mostrou para ele.

― Esse não é seu irmão. É você! ― ele disse.

O rosto do homem mudou um pouco – mais do que qualquer outra face havia mudado quando ouvira Marco falar. Num topo de montanha ao raiar do sol não se fica com medo.

― A Lâmpada Está Acesa! ― Marco disse. ― A Lâmpada Está Acesa!

― Deus seja louvado! ― o homem estourou. E ele tirou seu chapéu e descobriu sua cabeça. Então a borda atrás dos ombros das montanhas saltou para frente em uma esplêndida torrente de ouro.

E O Rato ficou em pé, descansando seu peso nas suas muletas em silêncio total, olhando e olhando fixamente.

― Já foram três! ― disse Marco.

14Festung Hohensalzburg (alemão para “Forteleza Alta de Salzburgo”) foi construída no ano 1077. Esta fortaleza está localizada e cima da Montanha Mönchsberg em Salzburgo e é considerado o castelo medieval na Europa mais preservado. O “Residenz” é um palácio próximo. Back

15Glockenspiel: do alemão “toque de sinos”: metalofone: um instrumento semelhante ao xilofone. Back

16Gaisberg é uma montanha que faz parte dos Alpes e está localizada ao leste de Salzburgo. Hoje um ônibus público transporta esquiadores, montanhistas e turistas para o topo dessa montanha. Mas de 1887 até 1928, um trem rodando numa trilha especial com “dentes” para tração levava passageiros ao topo. Esse é o trem em que Marco e O Rato pegaram. Back

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